“Se muitos candidatos radicais ganharem agora, partidos terão de moldar mensagem para presidenciais nos EUA”
FOTO: Reinaldo Rodrigues

“Se muitos candidatos radicais ganharem agora, partidos terão de moldar mensagem para presidenciais nos EUA”

Com o processo das primárias para o Senado a chegar ao fim, fomos ouvir a cientista política e professora da Universidade de Boston Daniela Melo sobre os desafios de ambos os partidos. E sobre o impacto que as intercalares de 3 de novembro podem ter nas presidenciais de 2028.
Publicado a

O Massachusetts, onde vive e dá aulas, tem primárias democratas esta terça-feira. Ed Markey contra Seth Moulton. Na campanha, a idade de Markey, de 80 anos, tem alimentado os ataques do adversário. Apesar do que aconteceu com Joe Biden, os eleitores democratas parecem decididos a dar a vitória a um octogenário?

Parece que sim. Ed Markey lidera as sondagens com larga margem neste momento, portanto, espera-se que saia vitorioso nesta corrida para ser o representante do Partido Democrata nas intercalares de novembro. Há aqui vários aspetos sintomáticos do que está a acontecer dentro do Partido Democrata. Há uma clivagem geracional dentro do Partido Democrata. Essa clivagem tem muitas dimensões, mas uma delas tem a ver com o establishment, ou seja, indivíduos que estão no partido há décadas, que são congressistas há décadas. Ed Markey é um desses exemplos. E que teimam em não ceder o lugar, em não ceder o espaço a democratas mais jovens, em muitos casos mais progressistas, ou seja, da ala mais à esquerda do partido. Porque essa também é uma das clivagens geracionais. O grupo mais velho está mais associado a uma posição centrista, mais moderada, e o grupo mais jovem a uma posição mais progressista. O que é interessante com Ed Markey é que é exatamente ao contrário.

Aqui é Ed Markey o candidato mais progressista…

Exatamente. Ed Markey está mais associado à ala progressista, recebe o apoio não só da outra senadora de Massachusetts, Elizabeth Warren, muito ligada à ala progressista, mas de figuras como Bernie Sanders, Alexandria Ocasio-Cortez (AOC) e por aí fora. Já Moulton, sendo mais jovem, conseguiu reunir muito apoio no Massachusetts, apesar de não se prever que ganhe. Ele fez uma campanha forte, mas não o suficiente para convencer a base eleitoral da esquerda. E falo da base porquê? Porque é esse núcleo duro que vota nas primárias. Esses eleitores é que aparecem nas urnas, é que estão mais motivados e, tanto à direita como à esquerda, é que costumam decidir quem será o representante do partido nas eleições gerais. Essa base no Massachusetts parece estar a virar-se cada vez mais à esquerda e, portanto, querer apostar na continuidade de Ed Markey e no reforço da ala progressista do partido.

Os republicanos partem para as intercalares com uma maioria de 53-47 no Senado. Quão realista é os democratas conseguirem conquistar os quatro lugares de que precisam para a maioria, tendo em conta o mapa eleitoral de 2026?

Há opiniões para todos os gostos neste momento. E isso é sintomático de que há muita instabilidade dentro de ambos os partidos. As sondagens mostram que o eleitorado democrata está muito mais mobilizado a votar do que o eleitorado republicano. Há uma via para o Partido Democrata chegar ao controlo do Senado, mas é uma via muito mais apertada do que para os republicanos. Na Câmara dos Representantes, os democratas levam vantagem, mas também há análises que questionam se será tão real assim. E voltava ao meu ponto essencial, que é que há muita volatilidade dentro dos partidos. No Partido Republicano temos, nesta fase das primárias, o presidente Trump a intervir de uma forma que pode levar a que o partido perca alguns lugares em novembro. O presidente está a apoiar candidatos que lhe são mais leais contra candidatos estabelecidos no partido e que tinham apoio junto da base geral republicana. E embora estes possam ser populares junto da base MAGA que vota nas primárias, em novembro podem perder alguns lugares que eram dados como adquiridos pelo Partido Republicano. Isso lança dúvidas sobre as sondagens.

Essa opção por candidatos mais “radicais” arrisca virar-se contra os partidos em novembro, quando não for só a base fiel a ir às urnas, mas todo o eleitorado?

Exatamente. Tanto um partido como o outro se questiona sobre o que irá acontecer com este tipo de candidatos, que uma linha mais dura do eleitorado quer ver eleitos, mas que nas eleições em novembro, podem não ser tão competitivos junto dos eleitores como os candidatos mais moderados. Também se põe a questão da coerência interna dos partidos e daquilo que querem propor. Os democratas têm tido conversas internas sobre isso. Ou seja, será que conseguem eleger indivíduos mais progressistas em estados como a Florida, onde há largas comunidades hispânicas que têm trauma de regimes socialistas? Será que conseguem eleger indivíduos como Abdul el-Sayed, no Michigan, que questionam o apoio dos EUA a Israel, mas que representam árabes-americanos que foram mobilizados pela questão da guerra de Gaza e agora também pela questão do Irão? Ou seja, a nível nacional, não há um eleitorado para os democratas e um eleitorado para os republicanos e não há uma única estratégia. Há várias estratégias que terão de ser aplicadas em cada um desses estados, mas ainda ninguém sabe o que é que acontece a seguir. Se estes candidatos mais radicais ganham a maioria destas eleições, isso vai levar a algo que os americanos chamam de reckoning, ou seja, uma avaliação pos-mortem sobre como erraram e terão de moldar a mensagem para as presidenciais 2028, de acordo com o que o eleitorado está a sinalizar que quer.

Donald Trump alertou para o perigo dos “comunistas”. E os republicanos estão a apresentar os candidatos progressistas como prova da radicalização do Partido Democrata. Quão eficaz poderá ser essa estratégia em novembro? O comunismo ainda assusta os americanos em 2026?

Ainda assusta alguns americanos, sobretudo no eleitorado mais conservador, mais à direita e mais velho, que tem memórias da Guerra Fria e da retórica da democracia contra os comunistas, a infiltração comunista, o Red Scare, etc. Mais uma vez, é uma questão geracional. No Partido Democrata também preocupa os mais velhos e o establishment, que sempre viram o rótulo de socialismo como tóxico. Quanto ao comunismo, este deve ser o momento em que esse rótulo é menos importante nos EUA e tenho sérias dúvidas que seja uma linha de ataque que funcione para Trump. As medidas que os progressistas advogam - acesso à saúde para todos os americanos (Medicare for All), menos desigualdade social, melhores condições de acesso à habitação -, a verdade é que o eleitorado americano as quer e as sondagens mostram isso. Tanto o eleitorado de esquerda como de direita apoiam esse tipo de políticas. Essa é uma das lutas internas no Partido Democrata, porque nem todos os progressistas estão associados aos Democratic Socialists of America (DSA). Alguns adotaram esse rótulo e juntaram-se a esse grupo político, outros acham mais vantajoso dizerem ‘eu sou progressista, estas são as minhas ideias, não estou associado necessariamente à ala mais radical e às posições mais radicais dos democratic socialists, como o defund the police ou acabar com as prisões’.

O próprio Abdul el-Sayed, por exemplo, tem feito questão de dizer que não é socialista…

Há casos diferentes. Por exemplo, Angie Nixon na Florida, acabou por se ligar mais à DSA, mas afastando-se desses posicionamentos. O mayor de Nova Iorque Zohan Mamdani, El-Sayed, AOC são outros. E o eleitorado percebe que há cinco ou seis anos, se calhar, um candidato defendeu o defund the police (cortes no financiamento da polícia) e foi a um protesto ou participou num podcast, mas entretanto o seu posicionamento mudou. A questão é se funcionará com o eleitorado em geral.

Passadas as intercalares, todos os olhares se vão virar para as presidenciais de 2028, esta viragem para a esquerda dos democratas pode ser o caminho também aí, com uma eventual candidatura de Alexandria Ocasio-Cortez?

Se a pergunta é se a transformação dentro do Partido Democrata tende cada vez mais para esta ala progressista, a resposta é sim. Se a pergunta é se AOC poderá já nestas eleições ganhar as primárias e tornar-se a candidata do partido, aí tenho sérias dúvidas. Para começar, o próprio partido ainda está nesta transição geracional e também, alguns dirão, ideológica. AOC foi eleita em 2018, chega ao Congresso em 2019 como outsider mas, neste momento, representa uma ala que tem crescido dentro do partido, já não é uma voz anti-establishment como era. Houve uma moderação da própria AOC e uma renovação das suas estratégias. A aliança com [o senador do Vermont] Bernie Sanders foi essencial para abrir caminho no partido para a eleição de candidatos como AOC. Ela depois tornou-se a ponta da lança deste movimento, dando voz a preocupações do eleitorado de esquerda, como a desigualdade económica. O pós-grande recessão de 2008 foi um tsunami para ambos os partidos. A reação no Partido Republicano começou com o Tea Party, que depois trouxe um Donald Trump. Há uma ligação direta entre esse eleitorado e a questão da desigualdade. À esquerda houve esta fratura entre os que apoiavam Hillary Clinton e os que apoiavam Bernie Sanders. Dar voz à questão da desigualdade económica mudou o posicionamento do eleitorado à esquerda e estamos ainda a meio desse processo. Isto para dizer que AOC está neste momento numa posição muito mais forte do que alguma vez esteve, mas os números não mostram que possa ganhar o eleitorado a nível nacional. Agora, se ela irá concorrer ou não, ela própria deixou isso em aberto. Pode concorrer como uma espécie de aquecimento. Ela é muito jovem, tem 36 anos. Eu diria que daqui a dez anos, se continuar o trajeto em que está agora, poderá ser uma candidata imbatível.

Se não AOC, quem vê avançar, além dos nomes mais falados como Gavin Newsom ou Kamala Harris?

Há candidatos óbvios e claramente interessados, como o governador da Califórnia. Kamala Harris também tem andado a mexer-se nessa direção. Mas um candidato de que se tem falado menos, mas que começa a emergir é [o senador da Georgia] Jon Ossoff. Num estado roxo, que tanto vota à direita como à esquerda, ele tem uma capacidade notável de chegar ao eleitorado moderado sem o rótulo do socialismo. Neste momento, o Partido Democrata tem várias fações, até no movimento progressista, se são DSA ou não. Há a perceção de que a ala mais moderada e os mais velhos estão desalinhados das necessidades do eleitorado e por isso é que vemos o eleitorado nestas primárias a escolher os seus próprios candidatos. No Partido Republicano, também há contradições, mas são apagadas pelo fenómeno Trump e MAGA. E se neste momento o eleitorado está mobilizado à esquerda, não é por uma mensagem apresentada pelo Partido Democrata, é contra Trump. Nas midterms isso será essencial para os democratas retomarem o Congresso, ou pelo menos a Câmara dos Representantes, e tentar travar a agenda dos republicanos e do presidente. Mas o voto anti-Trump não será suficiente para ganhar as presidenciais. E o Partido Democrata ainda não tem um líder claro, não tem uma mensagem clara que apele tanto à base como ao eleitorado no geral. Tudo isto para dizer que, neste momento, AOC ainda não será a candidata mais favorável para os democratas, mas pode surgir alguém como Jon Ossoff, que se vai mostrando capaz de tecer essa narrativa, de falar sobre a corrupção de uma forma clara, de falar do custo de vida, da desigualdade económica. Todos os americanos sentem isso na pele.

“Se muitos candidatos radicais ganharem agora, partidos terão de moldar mensagem para presidenciais nos EUA”
Ocasio-Cortez não afasta avançar em 2028 e salta para liderança do campo democrata
“Se muitos candidatos radicais ganharem agora, partidos terão de moldar mensagem para presidenciais nos EUA”
Vasco Rato: "Neste segundo mandato Trump está verdadeiramente a ser Trump"
Diário de Notícias
www.dn.pt