Roubar, filmar e publicar na net. Eis a última moda em São Paulo

Roubar, filmar e publicar na net. Eis a última moda em São Paulo

Os “influencers do crime”, como foram apelidados, expõem as próprias vítimas e zombam das autoridades em vídeos no TikTok, Instagram e Facebook com até 200 mil visualizações.
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Um morador de uma cidade de médio porte do interior de São Paulo de visita a um amigo na maior cidade do Brasil, com mais de 11 milhões de habitantes, foi assaltado: furtaram-lhe o telemóvel e quase lhe arrancaram a aliança. Mas além do prejuízo, do contratempo e do susto, esse cidadão, que prefere o anonimato em conversa com o DN, acredita que é ele quem está num vídeo na internet publicado pelos próprios assaltantes a vangloriarem-se da ação criminosa. Caso seja mesmo ele, não está sozinho: agora virou moda roubar, filmar e publicar na net as ações criminosas.

“Tudo nosso e o que não for nosso, nóis toma”, diz a legenda a um desses vídeos publicados nas plataformas Tiktok, Instagram e Facebook. “Somos o terror da madrugada”, diz outra, a propósito de uma filmagem que teve mais de 200 mil visualizações. Em quase todos eles surge o número 155, referência ao artigo do código penal brasileiro para furto com pena de prisão prevista de um a quatro anos. Esses ladrões que expõem o ato ilícito e o produto dele como troféus online vêm sendo chamados de “influencers do crime”.

Além de furtos de telemóveis, as duplas ou trios de ladrões filmam-se a partirem o vidro dos carros – o chamada “gangue dos quebra-vidros” – ou a abordarem passageiros no metro e a comemorarem o sucesso da ação em seguida. Nalguns casos, o assaltante nem precisa de parceiro: adapta uma câmara à bicicleta onde executa o assalto e filma-se sozinho. 

A partir de reportagem do jornal Folha de S. Paulo sobre o tema, o site G1 encontrou dezenas de perfis no Instagram com diferentes cenas desses furtos e imagens do produto deles, como os aparelhos de telemóvel, maços de notas e outros itens. 

Membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e professor da Fundação Getúlio Vargas, o investigador Rafael Alcadipani disse ao DN que “os atos criminosos filmados visam ganhar legitimidade perante o mundo do crime”. 

E aponta o dedo às plataformas e à Secretaria de Segurança Pública de São Paulo: “As plataformas precisam de agir e a polícia de investigar, não deve ser difícil identificar os responsáveis pelos vídeos e prendê-los, caso contrário é mais um sinal do completo descrédito dos criminosos em relação às autoridades, a certeza absoluta da impunidade”.

A Meta, empresa responsável pelo Instagram e pelo Facebook, emitiu nota sobre o caso: “as políticas da Meta não permitem o uso dos nossos serviços para promover atividades criminosas ou conteúdos que glorifiquem, apoiem ou representem organizações e indivíduos perigosos”.

“Removemos esse tipo de conteúdo sempre que identificamos violações e estamos continuamente aprimorando a nossa tecnologia e treinando as nossas equipas para detectar e lidar com atividades suspeitas. Incentivamos, ainda, as pessoas a denunciarem qualquer conteúdo que considerem contrário aos nossos Padrões da Comunidade, ajudando-nos a manter as nossas plataformas seguras para todos. Além disso, trabalhamos com autoridades e respondemos a solicitações legais, colaborando com forças de segurança nos termos da legislação aplicável”.

Do lado dessas autoridades, a Secretaria da Segurança Pública paulista solicitou que “eventuais crimes divulgados em redes sociais sejam formalmente comunicados às autoridades para a devida apuração”.  

“Até ao momento, não foram localizados registros de queixas diretamente relacionados aos perfis mencionados. A Secretaria reforça que o registo pode ser feito nas unidades policiais ou por meio da Delegacia Eletrónica, sendo fundamental para subsidiar investigações e responsabilizar os envolvidos (...) a colaboração da população é essencial para o enfrentamento qualificado da criminalidade”.

Um furto a cada 10 minutos

O furto àquele cidadão detalhado acima ocorreu em Perdizes, bairro de classe média alta de São Paulo, e segundo mais atingido por assaltos a telemóveis, com 1880 casos só em janeiro e fevereiro deste ano, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública. Acima de Perdizes, só o boémio bairro de Pinheiros, com 2303 casos, logo atrás ficam Sé, no centro, e Consolação, na região da Avenida Paulista. 

No total, são furtados 40 telemóveis por dia em São Paulo, de acordo com dados oficiais, ou um a cada dez minutos, segundo números da CNN Brasil, apesar da queda de 3,5% no último bimestre e das 50 mil prisões efetuadas por roubo e furto desde 2023 pelas polícias de São Paulo.

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