Quase uma década depois do referendo de 23 de junho de 2016, no qual 51,89% dos britânicos votaram para sair da União Europeia (UE), o Brexit volta a entrar em força no debate político no Reino Unido, em plena revolta no Partido Trabalhista para derrubar o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer. E a oposição, dos conservadores ao Reform UK, está a aproveitar.“O futuro do Reino Unido está na Europa e, um dia, de volta à União Europeia”, disse no sábado (16 de maio) Wes Streeting, apelidando o Brexit de “erro catastrófico”. O ex-ministro da Saúde, que se demitiu na semana passada após perder a confiança em Starmer e está a planear concorrer à liderança trabalhista, lançou assim o tema para o centro da campanha - deixando contudo claro que qualquer ideia de voltar aos 27 requer um novo mandato, isto é, novas eleições legislativas em que isso faça parte do programa. Starmer foi eleito primeiro-ministro há dois anos, defendendo o “reiniciar” das relações com Bruxelas, mas deixando claras as “linhas vermelhas” - não haveria liberdade de circulação das pessoas, nem qualquer regresso ao mercado único ou à união aduaneira. Naquele que era suposto ser o discurso de relançamento, após a derrota nas eleições locais a 7 de maio, defendeu uma “relação mais próxima” com a UE, anunciando um programa de mobilidade para os jovens, que os críticos dizem terá pouco impacto a nível económico. Mas nem Starmer, nem Streeting são os favoritos a ganhar as eleições internas trabalhistas - quando estas forem desencadeadas. Esse título cabe ao até agora mayor da Grande Manchester, Andy Burnham, que esta terça-feira (19 de maio) recebeu a autorização do partido para se candidatar às eleições em Makerfield. Se ganhar voltará a ser deputado e poderá então desafiar Starmer. Aquele que é visto como o principal rival do primeiro-ministro admite que existem “argumentos” a favor da reentrada na UE “a longo prazo”, mas disse que não a vai defender se chegar ao poder. .Do ambicioso ex-ministro à “rainha vermelha” ou o “rei do Norte”: quem vai desafiar Starmer?.Há uma razão para isso: há dez anos, 65% dos eleitores de Makerfield votaram a favor do Brexit e apoiar a reentrada na UE seria de alto risco quando o principal adversário será o Reform UK - liderado por Nigel Farage, que foi um dos rostos da campanha do Leave (sair).O partido de Farage foi o grande vencedor das eleições locais, projetando-se com base nesses resultados que tenha tido cerca de 50% dos votos nas fronteiras do círculo eleitoral de Makerfield (diante dos 27% do Labour). Para derrotar Burnham, o Reform volta a apostar na candidatura do canalizador local Robert Kenyon (que em 2024 ficou em segundo lugar, perdendo por pouco mais de cinco mil votos). Para os apoiantes do “rei do Norte”, como Burnham é conhecido, Streeting lançou o tema do Brexit para a campanha precisamente para o prejudicar na luta por Makerfield. O Reform foi rápido a lembrar que, na conferência do Labour do ano passado, Burnham disse que esperava ver ainda durante a sua vida o Reino Unido voltar à UE. “Ele não vai querer relembrar os eleitores destes comentários, mas nós vamos fazê-lo por ele”, disse um porta-voz do Reform, citado pela BBC.Mas nenhum trabalhista sairá ileso desta luta, com o vice-primeiro-ministro e titular da pasta da Justiça, David Lammy, a avisar que este debate só vai empurrar Farage para o governo. E o Reform não é o único a querer aproveitar: “Enquanto o Labour continua a debater o Brexit, o Reino Unido não está a ser governado”, disse o presidente do Partido Conservador, Kevin Hollinrake. Numa sondagem YouGov de fevereiro, 55% dos inquiridos (84% entre os eleitores do Labour) disseram que foi “errado” deixar a UE, com os mesmos 55% a defender que o país devia voltar a aderir.Mas este apoio diminui quando os eleitores são apresentados com algumas das possíveis desvantagens envolvidas, como a livre circulação dentro do bloco ou a possibilidade de terem de adotar o euro..Reino Unido. Discurso de Starmer compra tempo, mas não cala a revolta