Nigel Farage com o candidato do Reform UK em Makerfield, que foi segundo.
Nigel Farage com o candidato do Reform UK em Makerfield, que foi segundo.FOTOE: EPA/ADAM VAUGHAN

Restore Britain: o partido que pode estragar os planos de poder de Farage

Formado por um deputado do Reform UK que saiu em choque com o líder, o partido é ainda mais à direita e foi terceiro nas eleições de Makerfield (quase 7% dos votos). Farage deixa aviso aos eleitores.
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O líder do Reform UK, Nigel Farage, admitiu ter ficado "desapontado" com os resultados do partido nas eleições em Makerfield, pedindo aos eleitores para "pensarem de novo" quanto a votar pela formação ainda mais à direita, o Restore Britain, avisando que correm o risco de, nas próximas eleições, darem de novo a vitória ao Labour.

"Há alguns milhares de eleitores [em Makerfield] que normalmente teriam votado no Reform, mas votaram no Restore, e eu dir-lhes-ia diretamente: 'O que é que vocês querem?'", disse Farage numa mensagem nesta sexta-feira (19 de junho), depois de serem conhecidos os resultados nas eleições especiais neste círculo eleitoral da região de Grande Manchester.

O líder do Reform disse depois que o seu partido é o único que pode servir como oposição ao Labour e à esquerda, encorajando os eleitores a pensarem de novo antes de voltarem a votar no Restore.

As eleições em Makerfield foram ganhas pelo trabalhista Andy Burnham, que conseguiu assim o objetivo de voltar ao Parlamento britânico, a partir de onde é esperado que desencadeie uma corrida à liderança do Partido Trabalhista e, consequentemente, do governo britânico, enfrentando o primeiro-ministro Keir Starmer.

Nigel Farage com o candidato do Reform UK em Makerfield, que foi segundo.
Andy Burnham eleito deputado por Makerfield e com caminho aberto para desafiar o primeiro-ministro

Burnham conseguiu 55% (quase 25 mil votos), com Robert Kenyon, do Reform UK, a ser segundo, com 34,5% (abaixo dos 16 mil votos). Rebecca Shepherd, candidata do Restore Britain, foi terceira, com 6,8% e pouco mais de três mil votos. A vitória do Labour foi tão expressiva que a soma dos eleitores do Reform e do Restore não seriam suficientes para a evitar.

Mas Farage já está a olhar para as futuras eleições, sabendo que em alguns círculos eleitorais a perda de alguns votos pode ser a diferença entre a vitória ou não – os deputados britânicos são eleitos por cada um dos 650 círculos eleitorais, a uma só volta, sendo o mais votado o vencedor, mesmo que só tenha um voto a mais.

Na sua mensagem vídeo, Farage disse que o Reform foi "vítima da sua própria armadilha", alegando que o Labour adotou a mensagem do partido de "tirar Starmer do poder" para apelar ao voto em Burnham.

Mas também disse que acreditava que ia ter 18 mil votos, não tendo chegado aos 16 mil. "Estou desapontado por isso, não há dúvidas sobre isso", afirmou, deixando depois o aviso aos eleitores do Restore Britain.

O deputado Rupert Lowe, líder do Restore Britain.
O deputado Rupert Lowe, líder do Restore Britain.FOTO:EPA/ADAM VAUGHAN

Este partido ainda mais à direita do que o Reform (que para alguns está a "diluir" as suas políticas para se tornar mais aceitável para os eleitores) nasceu formalmente há menos de quatro meses, fundado pelo deputado Rupert Lowe – que deixou o partido de Farage em choque com o líder. O Reform acusou-o de "comportamento ameaçador" para o suspender, algo que ele sempre negou.

Se Farage quer "reformar o Reino Unido", Lowe quer "restaurá-lo".

O Restore Britain, que tem o apoio do milionário dono da Tesla, da SpaceX e da rede social X, Elon Musk, defende a deportação em larga escala de migrantes sem estatuto legal no Reino Unido, apoiando mesmo a ideia de um saldo migratório negativo.

O partido quer ainda um referendo sobre a reintrodução da pena de morte, aposta na legalização da posse de gás pimenta e o alargamento do âmbito legal do "uso de força razoável" em defesa do lar.

Quer ainda "restaurar os fundamentos sociais e culturais" do país, proibindo a burka e o niqab, mas também o combate ao "politicamente correto" e a proibição do abate kosher e halal.

Desde que foi formado, o partido conseguiu atrair quase cem mil membros e mais de uma dezena de vereadores locais (a maioria deixaram o Reform).

Na última sondagem do YouGov, o partido tem 4% das intenções de voto, com o Reform UK a liderar com 24% - tanto os trabalhistas como os conservadores têm 19%. Mas a questão é onde esses 4% podem "roubar" votos ao partido de Farage.

O professor Rob Ford, da Universidade de Manchester, explicou a situação ao site PoliticsHome. Embora seja improvável que o Restore conquiste lugares de forma absoluta com base nas sondagens atuais, com exceção talvez de Great Yarmouth, o círculo eleitoral de Lowe, poderá tirar votos importantes ao Reform em áreas que este precisa de vencer para ter hipóteses de chegar ao poder.

“O Reform precisa de conquistar até 300 lugares para formar o próximo governo”, disse. “Eles gostariam muito de poder dizer que as cadeiras X e Y estão garantidas. O Restore Britain acrescenta este elemento extra de incerteza", afirmou.

Outro ponto que as eleições de Makerfield mostraram é que os eleitores estão dispostos a votar em qualquer um para evitar a vitória do Reform: havia 14 candidatos, incluindo dos mais tradicionais conservadores, liberais-democratas e Verdes. Todos ficaram abaixo dos 5% e perderam votos em relação às eleições de 2024, havendo eleitores que podem ter preferido votar em Burnham para travar o partido de Farage. Um voto tático que poderá repetir-se noutras áreas.

Para já, Rupert Lowe festeja o resultado "notável" do seu partido em Makerfield. "Tornámo-nos oficialmente um partido político em março. Estamos em junho e acabamos de disputar a nossa primeira eleição Terceiro lugar. Milhares de votos", escreveu no X.

"Saímos do nada para alcançar este resultado impressionante. Outros partidos levaram anos e anos a fazer o que nós fizemos em poucos meses", acrescentou.

"Uma coisa é certa. O Restore Britain está agora oficialmente no mapa. Somos um partido político nacional instituído", defendendo maior atenção dos media e das sondagens. "Estamos aqui para ficar. O resultado [das eleições de quinta-feira] ficará para a história como o dia em que o Restore Britain se apresentou ao panorama nacional."

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