O rei Felipe VI de Espanha admitiu que houve “muitos abusos” na Conquista da América, esclarecendo que, tendo em conta os valores e critérios atuais, esses momentos “não nos podem fazer sentir orgulhosos”. As declarações, numa visita à exposição “Mulheres no México Indígena”, no Museu Arqueológico em Madrid, foram vistas pela presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, como um “gesto de aproximação”, apesar de ficarem ainda aquém do pedido de desculpas que o país exige. Mas causaram polémica em Espanha.Em 2021, o México assinalou os 500 anos do que o ex-presidente Andrés Manuel López Obrador apelidou de “invasão” de Hernán Cortéz. Os conquistadores espanhóis, que tinham chegado a Vera Cruz em 1519, aliaram-se a vários grupos indígenas locais (que viram ali uma oportunidade de se verem livres do terror e brutalidade dos astecas) para conquistar a capital do império, a 13 de agosto de 1521, e dar início a três séculos de domínio espanhol. A Cidade do México foi construída sobre as suas ruínas de Tenochtitlán. Em março de 2019, López Obrador enviou uma carta a Felipe VI a exigir um pedido de desculpas de Espanha pelas “atrocidades” cometidas em nome de uma “reconciliação histórica”. Madrid lamentou “profundamente” a divulgação da carta, rejeitando os argumentos apresentados e as relações entre os dois países deterioraram-se desde então, a tal ponto que o rei não foi convidado para a tomada de posse de Sheinbaum, em outubro de 2024. A presidente já reiterou em várias ocasiões que Espanha tem que pedir desculpas.Um ano depois, Felipe VI não o fez, mas falou pela primeira vez da polémica, admitindo “muitos abusos” durante a Conquista. O rei disse que há coisas que quando se estudam e se olham com “o nosso critério de hoje, com os nossos valores, obviamente não nos podem fazer sentir orgulhosos”. Mas, defendeu, é preciso olhar para esses acontecimentos “no seu contexto apropriado, não com um presentismo moral excessivo, mas com uma análise objetiva e rigorosa” e devemos também “aprender as lições” face às “controvérsias morais e éticas” que surgiram em relação à forma como o poder foi exercido “desde o primeiro dia”. As declarações, feitas em conversa com o embaixador do México em Espanha durante a visita à exposição, foram partilhadas nas redes sociais do Palácio da Zarzuela. .E foram bem-vistas por Sheinbaum, que fala num “gesto de aproximação” e na necessidade de “avançar com o diálogo”. Admite ainda poder assistir à Cimeira Ibero-Americana de novembro, que se realiza em Madrid - desde 2018 que o México não participa nestes encontros.Diante das notícias que entretanto surgiram de que teria convidado o rei para assistir ao Mundial de Futebol, que organiza junto com os EUA e o Canadá, a presidente explicou que foram convidados todos os líderes dos países com quem o México tem relações. A carta foi enviada no início de fevereiro, antes das declarações de Felipe VI, mas só foi revelada pela Zarzuela depois. Em Espanha, as declarações de Felipe VI foram mais controversas. O governo do socialista Pedro Sánchez subscreveu “a 100%” as palavras do monarca, mas os partidos mais à esquerda (incluindo alguns que fazem parte dos aliados do Sumar) consideraram-nas “insuficientes”. O Podemos disse que “não estão à altura da memória democrática nem da memória colonial”.À direita, o líder do Partido Popular (PP), Alberto Núñez Feijóo, disse que era “absurdo” examinar agora o que aconteceu há séculos, pedindo também para que as declarações de Felipe VI fossem contextualizadas - foram feitas numa conversa com o embaixador do México, não numa declaração institucional ou num discurso público. E disse sentir-se “orgulhoso do legado espanhol” na América Latina. Já a líder da Comunidade de Madrid, Isabel Díaz Ayuso, também do PP, foi mais direta numa entrevista ao site Okdiario, dizendo que abusos “eram os que já estavam a ser cometidos contra a população nativa pelos povos asteca e maia, que entendiam os sacrifícios como parte dos rituais” e que os “crentes da cruz”, ou seja, os católicos, “chegámos e estabelecemos uma nova ordem. E, acima de tudo, uma nova forma de compreender que a vida é sagrada”. A extrema-direita do Vox também não partilha a opinião de Felipe VI, apesar de não criticar diretamente o monarca. A líder do partido no Congresso, Pepa Millán, disse que a Conquista da América por parte de Espanha foi “a maior obra de evangelização e de civilização” da história..Presidente mexicano quer que rei de Espanha peça desculpa pela invasão há 500 anos