O chanceler Friedrich Merz é claramente um atlantista, e desde o início tentou fazer pontes com o presidente Donald Trump, mas atualmente existem tensões com os EUA devido à ameaça de retirada de tropas das bases americanas na Alemanha. Como está a relação transatlântica vista de Berlim?Durante décadas, a Alemanha manteve sempre relações muito estreitas com os Estados Unidos, políticas, militares, culturais e até por laços familiares, e tudo isto não termina durante uma administração. O que vemos agora é uma relação muito complexa atualmente devido às divergências nas políticas económica e militar, e o que Friedrich Merz está a fazer é gerir o risco, ou seja, minimizar o risco de uma rutura súbita e drástica nas relações, porque se os Estados Unidos se retirassem a curto prazo da Alemanha e da Europa, dada a nossa tão grande dependência dos Estados Unidos, isso representaria um risco significativo para a Europa e também para a Alemanha. Por outras palavras, é complicado; existem tensões, mas não são tão profundas assim, e Merz está a tentar gerir o risco, construir pontes e conduzir uma transição para uma maior soberania europeia, mas não de um dia para o outro.A situação na Ucrânia continua a ser prioridade da Alemanha, mesmo que os Estados Unidos se envolvam menos e tenha de ser reforçado o esforço europeu para contrariar a Rússia?Para nós, a Ucrânia é, sem dúvida, o país que mais defende a Europa neste momento. Queremos que a Ucrânia esteja irreversivelmente ligada à Europa, razão pela qual apoiamos a adesão a longo prazo à Europa, mas isso não acontecerá de um dia para o outro. A Ucrânia deve cumprir os critérios de Copenhaga. A Europa também precisa de estar preparada para acolher outros países. É por isso que a apoiamos, mas com muita cautela, numa perspetiva de longo prazo e com muita seriedade. O que prevejo é que vamos assistir a fases intermédias de integração da Ucrânia na Europa. Não zero ou cem por cento, não adesão total ou nada, mas fases intermédias com direitos e obrigações parciais - um processo muito mais flexível e dinâmico, como os que vimos há décadas. Vai haver uma alteração em toda a política de adesão.Muito se fala também hoje da militarização da Alemanha. Trata-se de um investimento forte na defesa, que é uma exigência dos Estados Unidos, mas também resulta de um compromisso assumido entre os membros europeus da NATO. Os vizinhos da Alemanha temem uma Alemanha mais forte?Não, claramente não, e permita-me discordar um pouco. Não nos estamos a militarizar. Somos uma sociedade pacífica, como Espanha, como Portugal, como todos os países da União Europeia. Desmantelámos quartéis, abolimos o serviço militar obrigatório e cortámos no orçamento da defesa. Mas agora, após o ataque da Rússia à Ucrânia, vemos que perdemos todo o poder de dissuasão. Por outras palavras, reforçar a nossa defesa não é um objetivo militarista ou bélico, mas sim pacífico: a capacidade de nos defendermos, de nos mantermos independentes e livres. E de preservarmos o nosso modo de vida, o nosso sistema económico, os nossos direitos e as nossas democracias. Por outras palavras, não se trata de militarismo, mas sim de pacifismo, contudo com um forte poder de dissuasão.O aumento do orçamento da defesa foi aprovado pelo leque de partidos que tradicionalmente detêm o poder. Mas hoje há pelo menos um grande partido, a AfD, que está fora deste consenso. Como explica a ascensão da AfD?A AfD tem várias causas. Esta é apenas uma delas. E a extrema-esquerda também é contra. Ou seja, temos a extrema-esquerda e a extrema-direita, ambas suspeitando que somos militaristas, o que não somos. E insisto neste ponto porque queremos manter-nos em todas as estruturas europeias, nas estruturas da NATO. Ou seja, não haverá um caminho separado para a Alemanha fora de todas estas organizações multilaterais que queremos preservar. A ascensão da AfD pouco tem a ver com defesa. É apenas mais um ponto de discórdia com eles, mas as razões, as causas profundas, estão noutro lugar. A migração é agora uma questão crucial. Mas a origem veio de sectores liberais opostos aos projetos de endividamento europeu. Esta foi a origem da AfD. Depois tivemos a migração. Depois tivemos a estagnação económica. Depois tivemos o medo de perder o estatuto social. Quer dizer, há vários motivos. É um certo distanciamento do sistema político em relação às elites. Possui também um núcleo fascista. Um ressurgimento desta ideologia que nunca mais queremos ver na Alemanha. É, em suma, um partido que canaliza todo o descontentamento em relação a estas inúmeras questões. E é aí que lucram. E se não conseguirmos fazer crescer rapidamente a economia e resolver os problemas de forma adequada, serão eles que beneficiarão deste descontentamento.Os principais partidos estabeleceram uma linha vermelha em relação à AfD. Os democratas-cristãos, ligados à Fundação Adenauer, continuam especialmente firmes nessa recusa de normalização da extrema-direita?Sim, somos muito firmes. Por razões históricas, mas também porque, se ler o programa do AfD, verá que causará muitos danos à Alemanha. Aqueles que são patriotas e apoiam este programa são os que mais sofrerão com a implementação desta política. Sair da União Europeia. Abolir o euro. Sair da NATO. Ser amigo de Vladimir Putin. São todos projetos políticos que seriam um desastre para o nosso país, para a paz e para o bem-estar. Isto para não falar que nós, enquanto democratas-cristãos, nunca mais queremos o nacionalismo fascista. É por isso que temos uma posição muito firme contra o AfD. E veremos como os outros partidos vão lidar com as eleições agora nos antigos estados da Alemanha de Leste, onde o AfD aparece como o partido mais forte nas sondagens. Mas há muita preocupação.No próximo ano celebraremos o 70.º aniversário da criação da União Europeia. A Alemanha foi um dos Estados fundadores e beneficiou enormemente da CEE depois UE, para se reconstruir, tornar-se próspera e até mesmo para fazer a reunificação. Quão forte é o sentimento pró-europeu na Alemanha?Continua a ser muito forte. O que não significa que não haja críticas. Eu trabalhei com formação política e já tinha registado o sentimento da população antes da guerra na Ucrânia através dos nossos milhares de eventos anuais. Há críticas, não contra a Europa em si, mas sobre como melhorá-la, como reformá-la e torná-la mais eficiente. De facto, havia dúvidas se a expansão sem reformas com os 27 Estados-membros funcionaria, porque todos os mecanismos foram criados para 6, 10, 12. Portanto, o objetivo é ver uma Europa mais forte, e o debate está totalmente aberto. Dou um passo mais além e abro um debate: que tipo de Europa queremos? Uns defendem mais Europa para resolver todos os problemas do mundo, outros defendem menos Europa. Penso que nenhuma das duas opções é o caminho certo; é um beco sem saída. Penso que devemos recuperar um princípio muito prudente do sistema político: o princípio da subsidiariedade. Precisamos de analisar cuidadosamente as poucas áreas onde realmente necessitamos de muito mais integração - defesa, competitividade, digitalização e energia. E talvez devêssemos considerar se existem outras esferas políticas que poderíamos até renacionalizar, porque vejo a Europa atualmente sobrecarregada com tudo e com nada. É uma opinião pessoal, mas precisamos deste debate, porque sem reformas, a Europa, de certa forma, perderá relevância. Para concluir, o nosso ministro dos Negócios Estrangeiros, Johann Wadephul, apresentou recentemente propostas de reforma, como a aceleração do processo de tomada de decisões na Europa. Uma das propostas é alargar o princípio da votação por maioria qualificada, por exemplo. Reduzir o tamanho atual da Comissão Europeia. Ou permitir que um grupo de Estados que deseje avançar o faça, enquanto os outros o seguem depois. Vejo o início de um processo muito dinâmico e que também é um desafio grande para Portugal e Espanha.Portugal e Espanha celebraram recentemente 40 anos de adesão à União Europeia, um processo de adesão muito importante para ambos os países para a consolidação da democracia. A Alemanha também desempenhou um papel fundamental no apoio a esse processo, sobretudo em Portugal. Quando observa Portugal e Espanha, que é a sua área de intervenção na Fundação Konrad Adenauer, percebe que são países que tiveram grande sucesso na integração europeia? Sem dúvida. Quando olho para Portugal e Espanha - onde estudei quando era jovem - e vejo o desenvolvimento que tiveram nas últimas décadas, noto um avanço político, democrático, social e económico inimaginável antes. Mas, para além disso, também vejo que estes países precisam de ter em conta que nem tudo é exatamente como antes. Ou seja, aquela ideia de que os países do norte contribuem mais e são contribuintes líquidos, enquanto os países do sul não. Penso que toda a questão do financiamento vai mudar. E eu, se me permitem, como observador estrangeiro, às vezes fico um pouco surpreendido como a Península Ibérica se deixa empequenecer, porque dizem sempre: “Bem, agora a Alemanha tem de liderar”. Mas penso que a União Europeia não funciona quando um país lidera e os outros seguem. Claro que também precisamos de fortalecer a Alemanha, e o chanceler Friedrich Merz disse-o no melhor discurso dos últimos anos na Conferência de Segurança de Munique: fortalecer a Alemanha, fortalecer a Europa, novas alianças. Mas precisamente nesta questão de novas alianças para a Europa se fortalecer, Espanha e Portugal, com as suas relações pelo mundo, África, América Latina, a sua experiência, poderiam contribuir, na minha opinião, muito mais e com muito mais visibilidade. Por exemplo, podem coliderar o processo de tornar o acordo com o Mercosul um sucesso para a Europa. Nós lideramos uma coisa, os países do Norte outra, e Espanha e Portugal também poderiam liderar nisso para que cada país contribua com o seu melhor e fortaleça toda a União Europeia. E aí vejo um papel algo passivo, que na minha opinião não seria necessário..João Vale de Almeida: “Não devemos desistir da América de forma irresponsável e precipitada”