"Quero partir já em paz e deixar de sofrer." Noelia Castillo pediu morte por eutanásia que deve acontecer esta quinta-feira em Espanha
FOTO: Reprodução Antena 3

"Quero partir já em paz e deixar de sofrer." Noelia Castillo pediu morte por eutanásia que deve acontecer esta quinta-feira em Espanha

Pai da jovem de 25 anos tentou impedir na justiça o pedido de morte medicamente assistida da filha, com o apoio da associação ultraconservadora Advogados Cristãos.
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Após uma batalha legal contra o pai, que durou quase dois anos, o pedido de morte medicamente assistida da espanhola Noelia Castillo, de 25 anos, deverá ser cumprido esta quinta-feira, 26 de março. "Quero partir já em paz e deixar de sofrer", disse em entrevista ao programa Y ahora Sonsoles, da Antena 3.

O fim do "inferno", como descreveu, deverá acontecer esta tarde num hospital de Barcelona, após terem sido ultrapassados todos os entraves legais, com a última decisão judicial favorável ao pedido de Noelia proferida pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH) e conhecida esta semana.

A jovem, que ficou paraplégica após uma tentativa de suicídio, fez o pedido de morte medicamente assistida em abril de 2024. Em julho desse ano, foi aprovado, por unanimidade, pela Comissão Catalã de Garantia e Avaliação, responsável pela aplicação da lei da eutanásia na região. Apresentava um quadro clínico "irreversível", que lhe causava uma "grave dependência, dor crónica e debilitante e sofrimento", foi considerado.

O pai, Gerónimo Castillo, que teve o apoio da associação ultraconservadora Advogados Cristãos, contestou a decisão, originando uma batalha jurídica que atrasou o processo em cerca de dois anos. A pedido do progenitor, um dia antes da primeira data marcada para a eutanásia, a 1 de agosto, o Tribunal Administrativo de Barcelona suspendeu o processo, de forma cautelar.

O processo judicial passaria ainda pelo Tribunal Constitucional e pelo Tribunal Supremo espanhol até chegar ao TEDH. "A felicidade de um pai, uma mãe ou uma irmã não pode estar acima da vida de uma filha", considerou Noelia. As várias instâncias judiciais confirmaram a legalidade da eutanásia concedida a Noelia, rejeitando o argumento apresentado pela associação de advogados de que a jovem teria incapacidade para tomar decisões.

"Nunca me liga, nunca me manda mensagens. Para que é que me quer viva? Para ter-me no hospital?", questionou a jovem na entrevista à estação de televisão espanhola referindo-se ao pai. "Ninguém da minha família é a favor da eutanásia", disse a jovem.

"Não tenho vontade de fazer nada, nem de sair, nem de comer. Dormir é muito difícil e sinto dores físicas diariamente, além das dores que tenho nas costas e nas pernas”, afirmou Noelia na televisão. A catalã falou em "inferno" para descrever o que viveu antes de iniciar o processo legal que irá permitir a sua morte por eutanásia.

Em tratamento psiquiátrico desde os 13 anos, foi-lhe diagnosticado transtorno obsessivo compulsivo, Noelia abordou a infância conturbada devido ao divórcio dos país, a vida em lares de acolhimento de menores, as tentativas de suicídio, os episódios de automutilação, bem como as duas agressões sexuais de que foi alvo, a última das quais diz respeito a uma violação coletiva.

"Antes de pedir a eutanásia, via o meu mundo muito sombrio"

Após esse episódio traumático, Noelia decidiu terminar com a vida a 4 de outubro de 2022 quando saltou da janela de um quinto andar. Sofreu uma lesão medular "grave" e "irreversível", que lhe causa dores fortes e a deixa sem mobilidade nas pernas. Desde então a sua vida é passada em cadeira de rodas, numa instituição, tendo-lhe sido atribuído 74% de incapacidade. Anteriormente, tinha 67% de incapacidade devido aos seus problemas de saúde mental. Além de transtorno obsessivo compulsivo, sofre de transtorno de personalidade borderline.

"Antes de pedir a eutanásia, via o meu mundo muito sombrio", contou Noelia, referindo que "não tinha metas nem objetivos". "Sempre me senti sozinha, nunca compreendida e nunca ninguém teve empatia por mim", afirmou.

Noelia Castilho contou ainda que, "desde o início" do processo, teve sempre "muita clareza" sobre a decisão que deverá ser esta quinta-feira cumprida.

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