Israel anunciou a execução de mais um alto dirigente da república islâmica quando o novo guia supremo ainda nem tinha reagido à morte do secretário do Conselho de Segurança Nacional e do líder do grupo paramilitar Basij. Ao assassínio do ministro dos Serviços de Informações juntou-se a indignação causada pelo ataque às instalações iranianas do maior campo de gás natural, South Pars. Doha e Abu Dhabi juntaram a sua voz a Teerão para condenar o bombardeamento, mas isso não demoveu as forças iranianas de ripostarem na mesma moeda contra infraestruturas energéticas dos vizinhos.“A intensidade dos ataques no Irão está a aumentar. O ministro iraniano dos Serviços de Informações Khatib também foi eliminado durante a noite”, anunciou o ministro da Defesa israelita, Israel Katz. É o segundo ministro morto pelos ataques aéreos de Israel: no bombardeamento que atingiu Ali Khamenei, uma das outras vítimas foi Aziz Nasirzadeh, ministro da Defesa. Esmail Khatib, nascido em 1961, era ministro dos Serviços de Informações desde 2021. Como Ali Larijani, morto na véspera, era um dos principais dirigentes do regime teocrático. Figura de proa clerical, a sua carreira esteve sempre ligada às informações: primeiro entre os Guardas da Revolução, depois no sistema judicial, por fim junto do guia supremo até ocupar o cargo ministerial. O seu currículo permitia-lhe articular os vários sistemas de espionagem e de informações do país. Os dissidentes iranianos consideram-no o principal ideólogo da resposta estatal ao movimento Mulher, Vida, Liberdade, ao alargar a definição de espionagem e colaboração hostil. Partilha de informações e de contactos ou trabalho nos meios de comunicação passou a ser mais facilmente considerado um crime de segurança nacional. Para Israel, Khatib “desempenhou um papel significativo durante os recentes protestos em todo o Irão, tanto no que diz respeito às detenções e mortes de manifestantes, como na formulação da avaliação de informações do regime”. Também o responsabiliza pela repressão ocorrida durante os protestos ocorridos em 2022 e 2023 pela morte, sob custódia policial, de Mahsa Amini, a jovem curda detida pelo uso incorreto do hijab. Além disso, disseram as forças israelitas, o ministério que Khatib dirigia “possui capacidades avançadas de informações, supervisionando vigilância, espionagem e a execução de operações encobertas em todo o mundo, particularmente contra o Estado de Israel e os cidadãos iranianos”. A morte de Khatib foi confirmada numa mensagem do presidente Massoud Pezeshkian, ao também se referir ao golpe mortal ao líder do Conselho de Segurança Nacional, na véspera, e ao ministro da Defesa . “O assassínio cobarde dos meus caros colegas Esmail Khatib, Ali Larijani e Aziz Nasirzadeh, bem como de alguns membros das suas famílias e da sua equipa, abalou-nos profundamente”, escreveu no X. Quem também transmitiu uma mensagem - ou pelo menos a si atribuída - foi o novo guia supremo. Mojtaba Khamenei, cujo estado de saúde tem sido alvo de especulação, uma vez que ainda não apareceu em público, prometeu vingar-se da morte de Ali Larijani, sem, no entanto, fazer qualquer referência a Khatib. “Sem dúvida, o assassínio de tal personalidade testemunha a sua importância e o ódio dos inimigos do islão para com ele. Que os islamofóbicos saibam que derramar este sangue aos pés da robusta árvore do sistema islâmico só o fortalece e, claro, cada gota de sangue tem um preço que os assassinos dos mártires terão em breve de pagar.”Além do anúncio da morte de Khatib, o ministro da Defesa israelita disse que o próprio e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu tinham dado autorização para as Forças de Defesa de Israel eliminarem “qualquer figura iraniana de alto escalão sem a necessidade de aprovação adicional”. Katz havia ainda assegurado para quarta-feira “surpresas significativas em todas as frentes”. Horas depois, Israel atacou a maior refinaria de gás natural do Irão, South Pars, na província de Bushehr. É a primeira vez, em mais de duas semanas de guerra, que são atacadas instalações de gás natural iranianas, abrindo um novo e perigoso caminho para a guerra, uma vez que o Irão de pronto afirmou que iria considerar como legítimos alvos da mesma natureza nos países vizinhos com bases militares dos EUA. Ao site Axios, uma fonte do Pentágono confirmou que o ataque a South Pars foi coordenado por Telavive e Washington. Mas os países vizinhos, que até agora têm evitado criticar Israel e os Estados Unidos, lamentaram a iniciativa. “Um passo perigoso e irresponsável no contexto da atual escalada militar na região”, disse o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Qatar, Majed al-Ansari, sobre o ataque às instalações ligadas ao campo de South Pars, no golfo Pérsico, que, em conjunto com um campo contíguo explorado pelo Qatar, forma a maior reserva de gás natural do mundo. Numa declaração, o Ministério dos Negócios Estrangeiros dos Emirados Árabes Unidos condenou o ataque israelita e afirmou que visar as infraestruturas energéticas “constitui uma escalada perigosa” que “representa uma ameaça direta à segurança energética global, bem como à segurança e estabilidade da região e do seu povo”.Teerão emitiu um aviso para as pessoas que vivem perto de cinco instalações petrolíferas na Arábia Saudita, no Qatar e nos Emirados Árabes Unidos para saírem “imediatamente” daquelas áreas. Mísseis balísticos atingiram Ras Laffan, o complexo industrial onde se situa o maior produtor mundial de gás natural. Face aos repetidos ataques do Irão, o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Qatar declarou como persona non grata os adidos militares e de segurança do Irão, juntamente com o seu pessoal.E aindaGabbard contradiz-seA diretora nacional das Informações dos EUA, Tulsi Gabbard, afirmou aos senadores que, após os bombardeamentos às infraestruturas nucleares do Irão, em junho passado, Teerão estava a “tentar recuperar” do “dano severo” causado pela operação. Mas no seu depoimento escrito, Gabbard declarava o oposto, que os iranianos não tinham feito “qualquer esforço para tentar reconstruir a sua capacidade de enriquecimento” de urânio. Questionada por se ter afastado das suas palavras escritas, respondeu que omitiu algumas partes porque “o tempo estava a esgotar-se”. A ex-democrata disse ainda que o regime no Irão “parece estar intacto, mas amplamente enfraquecido”.Ameaças da MossadAgentes da Mossad têm realizado ameaças de morte a chefias da polícia iraniana com o objetivo de que estes desertem. Documentos e gravações divulgados pelo Wall Street Journal revelam um programa em larga escala por parte de Israel para aterrorizar oficiais de escalão inferior - em concreto através de chamadas telefónicas -, na esperança de possibilitar um levantamento popular. Crianças sudanesas em riscoSuprimentos médicos destinados a 400 mil crianças no Sudão estão retidos no Dubai, nos Emirados, devido ao bloqueio do estreito de Ormuz, pelo que mais de 90 centros de saúde naquele país africano correm o risco de ficar sem medicamentos e materiais de enfermagem essenciais. O alerta é da organização Save the Children, que já se viu obrigada a expedir material semelhante para o Afeganistão por via aérea, num procedimento muito mais oneroso.