Presidente da Rússia, Vladimir Putin.
Presidente da Rússia, Vladimir Putin.FOTO: EPA/KRISTINA KORMILITSYNA/SPUTNIK/KREMLIN

Putin rejeita acordo de suspensão de ataques com Kiev e ameaça usar arsenal completo em Kaliningrado

"Se chegarmos a um ataque direto contra a Federação Russa, e refiro-me a Kaliningrado, mas isto também pode acontecer em qualquer outro território, é claro que a questão do uso, por parte da Rússia, de todo o armamento ao seu alcance figurará imediatamente na agenda. Isso é inevitável”, disse o presidente russo.
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O Presidente russo rejeitou esta qunta-feira (1 outubro) uma suspensão mútua dos ataques de longo alcance com a Ucrânia, que se intensificam há meses, em resposta às propostas apresentadas por Kiev e Washington nesse sentido.

“Dizem-nos: ‘Que eles deixem de atacar as vossas refinarias e vocês deixarão de atacar os navios deles’. Isso é simplesmente ridículo”, afirmou Vladimir Putin durante um evento do ‘think tank’ (grupo de reflexão) Clube de Discussão Valdai. uestionado novamente sobre a resposta russa a esta ideia, respondeu: “Não”.

A Rússia e a Ucrânia têm multiplicado os ataques de longo alcance, visando cada vez mais, e de forma frequente, infraestruturas civis e provocando um número crescente de vítimas.

Moscovo tem tido como alvo armazéns, postos de abastecimento, centros comerciais, navios que partem dos portos ucranianos no mar Negro e, mais recentemente, centros de dados informáticos e operadores de telecomunicações.

Por seu lado, Kiev tem visado, nomeadamente, refinarias e depósitos de petróleo, armazéns de gigantes do comércio eletrónico e navios de carga no mar Negro.

Segundo Putin, a Rússia “perdeu cerca de 1% do [Produto Interno Bruto] PIB” devido aos ataques ucranianos às refinarias, que provocaram uma crise de combustível este verão.

No mesmo evento, Putin admitiu ainda a possibilidade de expropriar empresas ocidentais como a Nestlé ou a Auchan, colocadas sob controlo temporário, como resposta a uma eventual nacionalização de ativos russos por parte do Ocidente.

"Estamos a criar as condições para que, caso nacionalizem ou roubem as nossas empresas, possamos responder de forma simétrica. É por isso que se instituiu o controlo temporário das empresas ocidentais", adiantou o líder russo.

Putin negou que os ativos das empresas colocadas sob controlo temporário tenham sido expropriados.

O Ocidente "apresentou naturalmente isto como um roubo, uma nacionalização. Mas o que acontece na realidade? Na verdade, isto é uma mentira. E uma provocação. Nós não tiramos nem nacionalizamos nada a ninguém", indicou.

Os países, frisou ainda, "bloquearam as reservas em ouro e divisas do nosso Banco Central e chegam mesmo a destinar as receitas geradas pela utilização dessas reservas à guerra" na Ucrânia. "Isto é, na minha opinião, inadmissível", continuou o líder russo, tendo também denunciado a perda de ativos de empresas russas como a Gazprom e a Lukoil no Ocidente.

No entanto, indicou que a Rússia está disposta a devolver o controlo destas empresas aos seus proprietários caso a situação internacional se torne "propícia".

Rússia utilizará "todo o seu arsenal" em caso de ataque em Kaliningrado

O Presidente russo ameaçou também que Moscovo utilizará “todo o seu arsenal”, incluindo nuclear, em caso de ataque contra o enclave de Kaliningrado, na zona do mar Báltico, ou qualquer outra região russa.

“Se chegarmos a um ataque direto contra a Federação Russa, e refiro-me a Kaliningrado, mas isto também pode acontecer em qualquer outro território, é claro que a questão do uso, por parte da Rússia, de todo o armamento ao seu alcance figurará inevitável e imediatamente na agenda. Isso é inevitável”, disse Vladimir Putin durante um evento do ‘think tank’ (grupo de reflexão) Clube de Discussão Valdai.

O líder do Kremlin sublinhou que as declarações feitas nos últimos dois dias pelos diplomatas russos são absolutamente corretas, embora tenha precisado que ninguém mencionou “as armas nucleares”.

Putin referia-se ao documento enviado pela embaixada russa em Bruxelas à NATO, em que adiantava que a Rússia "está pronta para empregar todo o seu arsenal para defender o seu território, caso os países da NATO tentem isolar a região de Kaliningrado" do resto do país.  “Nós não assustamos ninguém (...), não se trata de intimidações, mas sim da resposta às tentativas de nos amedrontar”, salientou o líder russo.

Entre essas tentativas, citou os preparativos europeus para uma guerra contra a Rússia no final desta década, as constantes manobras da NATO no Báltico e as intercessões de navios russos, atos que classificou como uma escalada. “Nós não ameaçamos ninguém, não temos intenção de atacar nem em 2029, nem em 2030, nem em 2050. Mas se formos alvo de uma agressão, temos de responder”, afirmou.

Putin assegurou que a Aliança Atlântica tem um potencial económico e demográfico muito superior ao da Federação Russa, mas recordou que Moscovo dispõe de armamento estratégico, numa clara alusão ao armamento hipersónico, “que ninguém possui”. “Temos de tirar partido da nossa vantagem competitiva. (...) Seremos nós a decidir qual será”, acrescentou.

A NATO, por sua vez, acusou a Rússia de recorrer à “retórica militar” depois de Moscovo ter manifestado a vontade de utilizar armas nucleares em caso de “bloqueio aéreo e marítimo de Kaliningrado”, algo que Moscovo considera um “casus beli”, expressão em latim que significa "motivo de guerra".

Este aviso surge num momento em que as tensões vão aumentando em torno de Kaliningrado, a antiga Konigsberg da Prússia Oriental, anexada pela União Soviética em 1945 e que não tem fronteira direta com a Rússia, fazendo fronteira com a Polónia, a Lituânia e o mar Báltico.

Nos últimos meses, os países da NATO realizaram vários exercícios militares nas fronteiras de Kaliningrado, o que levou Moscovo a enviar-lhes um documento em que condena um "aumento sem precedentes da atividade militar da Aliança" ao longo das "fronteiras ocidentais".

Também se têm registado incidentes por parte do lado russo a partir deste enclave, como a violação do espaço aéreo polaco por parte de um helicóptero militar russo na semana passada.

Presidente da Rússia, Vladimir Putin.
Como Kaliningrado está a tornar-se um ponto de tensão entre a Rússia e a NATO
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