Seja quais forem as verdadeiras motivações que levaram à investigação e consequente afastamento do mais graduado militar do Exército de Libertação Popular (ELP), no sábado, há uma mensagem que ressoa: ninguém, nem nos círculos próximos de Xi Jinping, está a salvo do poder discricionário do líder chinês.O Ministério da Defesa chinês comunicou que o general Zhang Youxia, de 75 anos, está a ser investigado por “suspeita de graves violações disciplinares e legais”. Em consequência, foi afastado do cargo de vice-presidente da Comissão Militar Central, o órgão de topo em que o líder do Partido Comunista e presidente da China exerce o seu poder e controlo sobre o ELP. Apesar da recente purga de outubro, que esvaziou a Comissão Militar Central, e desta culminar uma política há muito seguida pelo presidente, a queda de Zhang não deixou de surpreender muitos observadores, até porque o próprio terá sido o homem que removeu os outros — 20 altas patentes foram afastadas só desde 2023 —, mas também devido às suas ligações com Xi. Os pais do presidente e de Zhang são originários da mesma região e combateram juntos na guerra civil. Além disso, Zhang era, a par de Liu Zhenli — comandava as operações conjuntas do ELP e também foi afastado da Comissão—, um dos poucos veteranos num exército sem experiência recente em combate: foi condecorado por comandar uma companhia durante a guerra contra o Vietname, em 1979, quando Hanói enviou tropas para o Camboja com o objetivo de derrubar o regime dos Khmer Vermelhos. Tanto era um homem influente que, apesar da regra de os oficiais se reformarem aos 68 anos, Zhang foi reconduzido em 2022 para um terceiro mandato na Comissão Militar Central, onde chegou entretanto à vice-presidência. Um editorial publicado no domingo no jornal do Exército de Libertação Popular acusou Zhang e Liu de “pisarem gravemente e minarem o sistema de responsabilidade última que recai sobre o presidente da Comissão Militar Central”. Palavras duras, mas desprovidas de contexto, como é timbre do regime chinês. Como nada mais foi adiantado sobre a queda de Zhang , os meios de comunicação internacionais não estiveram a interpretar folhas de chá, antiga prática divinatória chinesa, mas deitaram algumas hipótese com base no passado de Xi Jinping. A reforma que liderou, em 2015, aboliu as regiões militares e os comandos criados passaram a reportar de forma direta à Comissão Militar, ou seja, ao presidente. O processo de modernização do ELP foi acompanhado, desde sempre, pela luta anticorrupção, fosse como motivo real ou fosse como argumento para afastar militares. Segundo a Associated Press, desde a ascensão de Xi, mais de 200 mil oficiais do ELP foram investigados e punidos por corrupção, 110 dos quais generais. A hipótese de corrupção, pelas palavras usadas no editorial, não parece racional, apesar de o Wall Street Journal ter noticiado que as acusações que impendem sobre Zhang se referem a subornos, bem como a passar dados sobre as armas nucleares da China para os EUA. Alguns observadores, como Neil Thomas, investigador no Centro de Análise da China do Asia Society Policy Institute, especulam se Zhang, ao ficar praticamente sozinho na Comissão Militar, não estaria a ficar com mais poderes do que aqueles que Xi estaria disposto a ceder. Em outubro, na sequência da purga de nove oficiais de alta patente, quer do exército, quer do partido, o jornal do ELP lembrava que “o partido comanda a arma, e a arma nunca deve comandar o partido”. Mas também poderia significar, segundo o mesmo Thomas, ouvido pela CNN, que terá “simplesmente traído a confiança” de Xi. Outros ainda, como um diplomata ouvido em Pequim e citado pelo sul-coreano Chosun Ilbo, dizem que o objetivo é substituir as chefias por outras fiéis para refletir um exército forte e renovado durante o centésimo aniversário da sua fundação, a comemorar no próximo ano.