Vive hoje na Europa, é cidadão americano, mas nasceu na Síria. Como está a situação da minoria cristã, a sua, na Síria após a queda da dinastia Assad?Os visitantes que hoje vão ao país e conversam com cristãos nas ruas podem ouvir respostas diferentes se lhes perguntar “como se sente agora?”. Por um lado estão felizes porque o regime de Assad acabou, o que para eles representa uma libertação. Este sentimento é partilhado por todos os outros segmentos da sociedade síria. Já em relação ao desempenho do novo poder, as respostas podem ser diversas. Alguns cristãos tenderiam para o otimismo e diriam “temos um novo poder que está a tentar aprender a governar. Por isso, devemos dar-lhes tempo e tolerar os seus erros”, que são erros terríveis no momento, se acompanhar as notícias. Outros cristãos, por outro lado, seriam pessimistas. Diriam que a “nossa experiência como cristãos, embora não seja semelhante ao que os alauitas ou os drusos sofreram, diz-nos que estamos a viver sob um regime islâmico altamente radical e retrógrado que nos pressiona e nos impõe regras e normas de conduta salafistas e islâmicas radicais, códigos morais, etc”. E esses cristãos lembrariam ainda a explosão na Igreja de Santo Elias, num dos subúrbios de Damasco. “Portanto, não estamos otimistas, estamos bastante pessimistas em relação à situação e não nos sentimos seguros”, acrescentariam. Entre estes dois extremos, temos provavelmente, na minha opinião como observador, a grande maioria dos cristãos que ainda permanecem na Síria, que provavelmente se manteriam em silêncio. Têm uma opinião, sim, mas não se manifestam publicamente para a exprimir; apenas querem sobreviver, querem viver, ter uma vida normal básica. Estão apenas a remoer o sofrimento, a tentar sobreviver. É possível calcular quantos cristãos existem hoje na Síria, já que durante a guerra civil houve muitos mortos e fuga do país?O que posso afirmar com segurança é que, antes da revolução síria e da crise, os cristãos eram 8% a 10% da população total. Atualmente situam-se provavelmente nos 2% a 3%, no máximo, e, segundo as estimativas que faço, daqui a cinco ou dez anos, descerá drasticamente para, no máximo, meio por centoMesmo sabendo que ainda existe uma minoria significativa no Líbano e cerca de 10 milhões no Egito, os cristãos do Iraque são cada vez menos numerosos, e, como referiu, os cristãos na Síria também são cada vez menos. É possível imaginar um Médio Oriente sem cristãos?Talvez não a 100%, porque haverá sempre cristãos que nunca terão bens ou meios de subsistência para emigrar e serão obrigados a permanecer lá. Penso que nunca veremos o fim do cristianismo no Médio Oriente. Mas provavelmente assistiremos a uma redução radical da presença cristã no Médio Oriente. Continuaremos a assistir a ondas crescentes de migração e até de refugiados, embora as regras de imigração estejam a tornar-se cada vez mais rigorosas nos países de acolhimento, como na União Europeia. Mas penso que os cristãos estão cada vez mais inclinados a abandonar a região.Esta tradição migratória dos cristãos árabes está, obviamente, ligada à situação política. Mas existe também a ideia de que os cristãos são mais educados e têm mais ligações com o Ocidente, através das ONG, das igrejas e até dos governos. É mais fácil para um cristão imigrar do Médio Oriente do que para um muçulmano?É essa a história, é esse o legado, se preferir. Mas, em termos práticos de procurar a imigração, os cristãos estão cada vez mais carentes de recursos para o fazer. A imigração é cara. A imigração exige recursos, exige conectividade, exige muitas coisas. Portanto, existem fatores internos e externos envolvidos. Os factores internos estão relacionados com o facto de que os cristãos costumavam constituir a classe média alta no Médio Oriente. Mas já não é necessariamente assim. A maioria dos cristãos abastados que tinham condições para emigrar já o fizeram. Assim, quem permanece são pessoas que, na sua maioria, não têm recursos, que não conseguem encontrar qualquer forma de sair. Portanto, permanecem lá. Ora, os muçulmanos são a maioria e detêm todos os recursos. Por isso, têm muito mais facilidade em migrar para o Ocidente do que os cristãos neste momento. Seja a nível económico, financeiro ou até mesmo em termos de redes de contactos. Ora, o factor externo tem a ver com algo que começamos a perceber: os países ocidentais parecem estar dispostos a encorajar os cristãos a permanecerem no Médio Oriente. É como se quisessem que ficassem nas suas terras natais para não se perder a presença do cristianismo nessas regiões. E parece-me, como observador, na minha opinião científica, que hoje o Ocidente parece estar mais aberto ao facto de que os muçulmanos podem vir do Médio Oriente para o Ocidente do que os cristãos. Porque querem preservá-los, querem mantê-los na sua terra natal, no caso dos cristãos. E porque ingenuamente ainda pensam de uma forma orientalista, que quando os muçulmanos vêm para o mundo ocidental, facilmente adquirem todos os valores ocidentais. O que acredito ser um mito. E penso que todas estas últimas décadas demonstraram, cientificamente, que na verdade isto pode não ser tão simples como a mentalidade ocidental superiorista por vezes pensa. Perdoem-me a franqueza.Como é para o senhor ser árabe e cristão? É uma sensação de dupla identidade?Deixe-me esclarecer que não sou um árabe étnico. Portanto, quando falamos de árabes aqui, não queremos dizer necessariamente que somos árabes étnicos da Arábia. Não somos. Somos siríacos, de origem racial aramaica, se preferir. Mesmo se a minha língua materna é o árabe. Na nossa região, quando dizemos árabe, referimo-nos a uma complexa rede de significados ou fatores que definem a cultura e a civilização. Falamos aqui de falantes de árabe que nasceram, cresceram e fizeram parte desta esfera cultural e civilizacional associada à história árabe-islâmica e ao presente. Portanto, parte da minha identidade está definitivamente enraizada nesta história cultural e civilizacional árabe no Médio Oriente, da qual os cristãos, historicamente falando, foram, na verdade, co-criadores. Assim, se estudarmos a história - e eu sou um historiador das relações entre cristãos e muçulmanos na antiguidade -, perceberemos que os cristãos foram co-criadores da civilização árabe, da civilização islâmica. Então, como cristão, pertenço à civilização árabe-muçulmana. E considero que esta herança árabe faz parte da minha identidade. Hoje, a minha identidade é realmente multifacetada. Sou meio ocidental. Definitivamente, sou uma mistura de várias coisas. E acredito que as identidades são muito, digamos, fluídas. Nunca são realmente estáticas. Esteve em Portugal para um encontro sobre diálogo inter-religioso organizado pelo KAICIID. Acredita, com base na sua experiência pessoal e académica, ser possível um verdadeiro diálogo inter-religioso?Acredito que sim. Porque o diálogo religioso não é propriamente uma invenção recente. Isto acontece desde tempos quase imemoriais, na verdade. É um fenómeno antigo. Portanto, não estamos realmente a inventar algo de novo hoje ao defender o diálogo inter-religioso. Mas, falando academicamente, defendo algo que vai para além do diálogo, algo mais profundo do que o diálogo. Hoje, estou a desenvolver na minha investigação algo novo a que chamo em inglês “inter-religious polylogue”, polílogo inter-religioso. Isto é algo que provavelmente precisaria de mais tempo para explicar. Mas o que estou a tentar dizer é que o diálogo é definitivamente um alicerce, uma base sobre a qual podemos construir. Sem dialogar, sem interagir com o outro, acabaremos por ficar reféns de uma fobia em relação ao outro. Porque se não conhecermos esse outro, não interagirmos com ele, acabaremos por cair no pântano de lutar contra esse outro. Considerando esse outro como um inimigo. Portanto, a única coisa que nos resta entre o medo e a inimizade é, na minha opinião, o diálogo. Interação, interlocução, convívio, reciprocidade. Todos estes termos carregados do mesmo significado. Permite conhecer o outro. E depois tentam juntos avançar, na minha erudição, na minha mente, para algo para além do diálogo, ou seja, o polílogo. O que significa um terceiro círculo de relacionamento. Em que ambos partilham uma experiência comunicativa. Criam juntos. Isto leva-os para além do círculo restrito do vosso jogo de linguagem seguro, no qual jogam sozinhos. Ou com os seus próprios irmãos e irmãs semelhantes. Assim, comunicam numa nova linguagem que ambos criam. E foi isso que propus recentemente. E defendi isso, na verdade, nessa reunião do KAICIID em Lisboa. O polílogo inter-religioso..Islamofobia. “Temos é de esclarecer, criar pontes, eliminar este veneno”, diz investigador.Visita de Macron à Síria marcada por bombas