A primeira visita de um líder ocidental à Síria desde a queda de Bashar al-Assad ficou marcada pela dupla explosão junto do hotel onde Emmanuel Macron pernoitou. O francês levou palavras de otimismo, mas também empresários e acordos económicos para a reconstrução do país destroçado por quase 14 anos de guerra civil.“Nada poderá impedir a aspiração das sírias e dos sírios de viver numa Síria plenamente soberana, segura, pluralista e unida. Esta [terça-feira] de manhã, encontrei a Síria em toda a sua diversidade. Vi dignidade, coragem e determinação”, escreveu o presidente francês após a detonação de duas bombas. Na semana passada, uma bomba explodiu num café no centro de Damasco, a 100 metros do Palácio de Justiça, tendo causado 10 mortos e dezenas de feridos.Desta feita as bombas fizeram pelo menos 18 feridos e estilhaçaram os vidros do Ministério do Turismo, defronte do hotel que Macron já havia abandonado para se reunir com o líder interino Ahmed al-Sharaa. O homem que trocou a jihad pelo fato e gravata jantara na véspera com o chefe de Estado francês num restaurante do centro de Damasco. Nesta visita considerada histórica pelo Eliseu, Macron reiterou a ideia de uma Síria soberana, unida na sua diversidade, e em paz com os países vizinhos. Durante a conferência de imprensa conjunta, o francês considerou “necessário que à ditadura suceda um verdadeiro Estado de direito”. À AFP, uma fonte do palácio presidencial havia dito que a “nova Síria” só será parceira “se a sua pluralidade for totalmente respeitada”, afastando o cenário no qual um “poder exclusivo substitua outro poder exclusivo”. O regime de Assad, da minoria alauita, foi derrubada por uma coligação islamista sunita. Apesar das promessas de Sharaa, o país já testemunhou episódios de violência sectária, com o novo poder em choque com alauitas, beduínos, e drusos e uma desconfiança mútua não ultrapassada com os curdos. Além disso, perante a instabilidade do país vizinho, Israel criou uma zona tampão no sudoeste sírio. A esse propósito, Sharaa pediu a Macron para que Paris desempenhe um papel ativo para pôr fim às “sistemáticas agressões israelitas” na Síria, ao que o presidente francês disse serem inaceitáveis as “incursões, ingerências e ataques” dos países vizinhos. Com relações privilegiadas por ter sido o primeiro líder ocidental a receber Sharaa, ainda em 2024, Macron quis passar das palavras aos atos: Paris comprometeu-se em devolver 51 milhões de euros de ativos do tio de Bashar al-Assad, Rifat, e foi assinado um acordo de parceria para a carga aérea no aeroporto de Damasco. Além disso, há interesse em participar na restruturação do setor bancário. Já o administrador da TotalEnergies, que viajou no avião presidencial, vê a Síria como um país de trânsito para o petróleo oriundo do Iraque para o Mediterrâneo..Al-Sharaa: da lista de terroristas a reunir com Trump na Casa Branca