Os Estados Unidos dizem estar a oferecer ao mundo uma prenda: a possibilidade de mais de mil navios e 20 mil marítimos saírem do Golfo Pérsico, presos que estão pelo bloqueio do Irão. No mesmo dia, Teerão anunciou a entrada em vigor de um novo organismo para gerir o trânsito dos navios no estreito de Ormuz e declarou um bloqueio naval aos Emirados Árabes Unidos.Enquanto o campo diplomático aparenta não registar progressos, apesar de uma mensagem otimista do chefe da diplomacia do Paquistão Ishaq Dar nesse sentido, o braço-de-ferro entre o Irão e os Estados Unidos sobre o estreito de Ormuz mantém-se. Em conferência de imprensa, o secretário da Guerra e o chefe do Estado-Maior conjunto das forças norte-americanas garantiram que o cessar-fogo mantém-se apesar dos ataques iranianos da véspera. O general Dan Caine informou que, desde o anúncio do cessar-fogo, o Irão disparou contra navios comerciais em nove situações, capturou dois navios porta-contentores, e atacou “as forças dos EUA mais de 10 vezes”. No entanto, disse, estes ataques ficaram “abaixo do limiar para reiniciar operações significativas de combate”. Explicou de seguida que a decisão de recomeçar os combates “é uma decisão política”. Mais tarde, na Casa Branca, questionado sobre o assunto, o presidente norte-americano escusou-se a tecer considerações sobre o que do seu ponto de vista é uma violação do cessar-fogo por parte de Teerão. “Vocês vão descobrir porque eu vos direi.” Além disso, mostrou atribuir pouca importância à guerra, ao falar de “máximos históricos” na bolsa de valores, “apesar daquela palavra, um pequeno confronto militar”, disse Trump. “Eu chamo-lhe um confronto porque o Irão não tem hipótese.”.“Para os nossos parceiros, aliados e o resto do mundo: esta é uma missão temporária para nós. Como já disse antes, o mundo precisa deste canal muito mais do que nós.”Pete Hegseth.Já Pete Hegseth, além de confirmar que o cessar-fogo se mantém, detalhou sobre o ‘Projeto Liberdade’, uma “operação separada e distinta da Fúria Épica”. O secretário disse que dois navios comerciais dos EUA, juntamente com contratorpedeiros, “já atravessaram o estreito em segurança, mostrando que a rota está livre” e que “neste momento, centenas de outros navios de países de todo o mundo estão a formar fila para atravessar”. Hegseth disse que “os iranianos estão constrangidos com este facto” porque “disseram que controlam o estreito”. A empresa de transporte marítimo Maersk informou que o Alliance Fairfax, com bandeira dos EUA, saiu do Golfo sob escolta militar dos EUA na segunda-feira. O Irão negou que alguma travessia tivesse ocorrido..“A nova equação do estreito de Ormuz está a consolidar-se. Sabemos bem que a manutenção do statu quo é insuportável para os EUA; enquanto isso, nós ainda nem sequer começámos.”Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento do Irão.“Como um presente direto dos Estados Unidos para o mundo, estabelecemos uma poderosa cúpula vermelha, branca e azul sobre o estreito”, continuou o secretário da Guerra, que realçou o caráter temporário da iniciativa. “Estamos a estabilizar a situação para que o comércio possa fluir novamente, mas esperamos que o mundo corresponda. No momento apropriado e em breve, devolveremos a responsabilidade a vós.”Em resposta, os Guardas da Revolução advertiram as embarcações contra a travessia do estreito de Ormuz por rotas não autorizadas, afirmando que arriscam uma “resposta decisiva”. Em paralelo, o Irão lançou um mecanismo para a gestão do tráfego marítimo através do estreito de Ormuz. Todos os navios que o queiram atravessar terão de respeitar as regras de passagem – que não foram reveladas – e obter uma autorização. Tensão com LeãoDonald Trump voltou à carga contra o papa quando o Departamento de Estado informou que o chefe da diplomacia vai encontrar-se com Leão XIV na visita a Roma. “O papa preferiria falar sobre o facto de ser aceitável que o Irão possua uma arma nuclear”, disse Trump em declarações ao programa do comentador Hugh Hewitt. “E não acho que isso seja muito bom. Acho que ele está a colocar em perigo muitos católicos e muitas pessoas.” Em momento algum Leão XIV se mostrou favorável a que o Irão obtenha armas nucleares. O pontífice criticou o regime iraniano pela repressão mortal contra os manifestantes e, ao mesmo tempo, disse não apoiar a guerra dos EUA e de Israel contra Teerão. Mas as suas mensagens contra a guerra levaram o presidente norte-americano a sair a terreiro várias vezes para criticar o seu compatriota, acusando-o de “não compreender o que se está a passar no Irão”, mas também de outras características sem aparente nexo com o tema como, por exemplo, de “ser fraco no combate ao crime”. E apresentou-se nas redes sociais primeiro como uma espécie de Jesus Cristo, numa imagem gerada por inteligência artificial; e, depois de ter apagado a mesma devido à polémica causada, partilhou uma outra em que aparece abraçado por Cristo. Marco Rubio – que se multiplica em papéis, inclusive o de porta-voz substituto da Casa Branca, agora que Karoline Leavitt se encontra em licença de maternidade – irá ser recebido em audiência pelo papa nesta quinta-feira. A visita do secretário de Estado a Itália e ao Vaticano tem como objetivo reparar as relações com a Santa Sé, mas também com a primeira-ministra italiana. Trump mostrou-se dececionado com Giorgia Meloni por esta se ter oposto à guerra no Irão e acusou-a de falta de coragem. Em resposta ao governo de Meloni ter recusado o uso das suas bases – tal como Pedro Sánchez –, o empresário sugeriu retirar as tropas do seu país de Itália e de Espanha. Prova de que a coligação governamental está mais alinhada com Leão XIV do que com Trump, o chefe da diplomacia Antonio Tajani reagiu às últimas declarações do norte-americano, sem o mencionar, afirmando que “os ataques contra o santo padre” não são “nem aceitáveis nem úteis para a causa da paz”.