Pérez-Reverte: “O grande erro geopolítico foi Filipe II não ter transferido a corte para Lisboa”
FOTO: Paulo Spranger

Pérez-Reverte: “O grande erro geopolítico foi Filipe II não ter transferido a corte para Lisboa”

Arturo Pérez-Reverte esteve em Lisboa para o lançamento de 'Missão em Paris - As Aventuras do Capitão Alatriste' e falou sobre o seu fascínio pelos 'Três Mosqueteiros', o Século de Ouro espanhol, o fracasso da União Ibérica e ainda o erro de o Ocidente ignorar a História.
Publicado a

Gostei do duelo inicial entre o mosqueteiro Athos e o capitão Alatriste. É uma clara homenagem a Alexandre Dumas, tanto este duelo como todo o livro?

É sobretudo uma homenagem ao leitor que um dia eu fui. Li Os Três Mosqueteiros quando tinha nove anos e fiquei fascinado. Passei a vida inteira a tentar reconstruir o que senti ao ler Os Três Mosqueteiros. A amizade, a mulher perigosa, Milady, o poder oculto. Este livro influenciou-me tanto que sempre interpretei a minha vida em relação a ele. Palavras como lealdade, camaradagem, perigo, aventura - tudo vem daí. Esteve sempre presente nos meus pensamentos; cheguei mesmo a escrever um dos meus romances sobre isso, O Clube Dumas, publicado há uns 30 anos. É um livro tão importante para mim que precisava de lhe prestar algum tipo de homenagem direta.

Presta homenagem ao romancista francês, mas, ao mesmo tempo, há uma malícia sua ali, opondo francês e espanhol. Porque a forma como descreve os acontecimentos, Athos é exageradamente elegante, enquanto Alatriste é conhecido por...

Por lutar sujo, profissionalmente.

Este duelo descreve também a relação entre França e Espanha, de alguma forma?

Sim, bem, de certa forma, sim. A França sempre foi uma espécie de modelo para os espanhóis em termos de elegância, cultura e bons costumes. E continua a ser. O próprio francês é uma língua muito polida; usam-se tratamentos formais e coisas do género. Em Espanha, é diferente. Queria fazer contrastar aquele elegante espadachim francês dos salões, da corte, que vive num mundo, digamos, superior, com o espanhol que vem da lama, do derramamento de sangue, das ruelas escuras. Para ele, a esgrima não é um ato elegante; é uma forma de ganhar a vida, de sobreviver. Eu queria explorar esse contraste. Além disso, Athos sempre foi a minha personagem favorita porque personificava a elegância, a dignidade e a honra. Então, queria mesmo realçar que Alatriste luta sujo. A malícia divertida, como disse, de criar esta dinâmica foi muito agradável.

Esta série de livros do Capitão Alatriste é passada no século XVII. É o Século de Ouro, mas é, em grande medida, um século de declínio. Esta época é especial para si?

Sim, é especial por muitos motivos. Em primeiro lugar, a Espanha era o que os Estados Unidos ainda são hoje. A Espanha era a grande potência. Ainda mais, Espanha e Portugal estavam juntos. Durante 60 anos fomos o mesmo império. Espanha era a maior potência do mundo. Foi nesta época que detinha todo o poder, e todo o dinheiro proveniente das Américas. Mas, em vez de o utilizarem para melhorar o país, construir grandes obras, criar uma nação moderna, utilizaram-no para guerras que não nos importavam, como a Guerra da Flandres, e mais tarde para a corrupção. Por isso, digamos que foi uma era dourada maravilhosa em termos de poder e cultura, mas incrivelmente triste porque não nos trouxe qualquer benefício.

Referiu a União Ibérica. Há um pormenor interessante sobre esse período: por exemplo, neste mesmo livro, refere que Iñigo realizou muitas missões em diferentes capitais e entre elas está Lisboa. E há um momento nesse século XVII que é a restauração da independência por Portugal. Este não é um tema que apareça em Alatriste.

Tinha planeado fazê-lo. Não sabia quantos livros sobre Alatriste iria escrever, mas na biografia de Alatriste, que já está escrita, consta que esteve na guerra com Portugal. Mas não escrevi o livro, nem o vou escrever; já tenho 75 anos [risos]. Mas na biografia imaginada de Alatriste, é como se ele tivesse estado na guerra contra Portugal.

Acha que apesar da guerra, essa separação com Portugal foi naturalmente aceite por Espanha, ou Castela, se preferir?

Não, não, não foi naturalmente aceite, porque a Espanha nunca compreendeu Portugal, ou melhor, Castela nunca compreendeu Portugal. José Saramago, que era um grande amigo, e eu discutíamos muito sobre isso. E eu dizia sempre que o grande erro histórico e geopolítico foi Filipe II não ter transferido a corte de Madrid para Lisboa. Uma corte aqui durante aqueles 60 anos teria dado aos portugueses a importância que mereciam naquele momento dentro do império. Teria permitido zelar pelos seus interesses, respeitar os costumes, respeitar as famílias importantes. De facto, em vez de se olhar erradamente para a Europa - como fez quando se virou para onde nos esgotámos nas Guerras de Religião - deveria ter-se olhado para a América e criar um grande império ultramarino com Lisboa como sua capital. Seria uma façanha histórica. Mas isso não aconteceu. A cegueira geopolítica de Filipe II custou-nos a todos. Ainda hoje seríamos uma grande potência.

Acha que esta cegueira se deve aos monarcas serem da Casa de Áustria e, naturalmente para a dinastia, a Europa ser o importante, o centro das atenções?

Claro que para os Habsburgos, a Europa era o importante, e esse era o problema. Os protestantes, a Flandres, defender o legado dos reis Habsburgos. Não compreendiam que aquilo era modernidade. E não se pode lutar contra a modernidade. Confrontar a modernidade, que naquela época era personificada pelos protestantes, foi um erro. Imaginem o dinheiro, as vidas e o sangue que nos custou, todo aquele esforço enorme e titânico daqueles espanhóis, em vez de investir tudo isso nas Américas. Para criar um vasto império ultramarino com as colónias portuguesas. Os ingleses nunca nos teriam conseguido vencer. Sempre disse que Portugal é Ibéria, tal como a Espanha é. Espanha é um acidente. Espanha é parte da Hispânia, da Ibéria. E é a Península Ibérica que importa. Mas, bem, as circunstâncias separaram-nos. Somos iguais. Em tudo: carácter, maneiras. Só são mais tristes [risos]. Esta tristeza portuguesa é mais atlântica. Mas, enfim, é o mesmo território. Quando venho a Portugal, em qualquer parte de Portugal, sinto-me em casa. Nem sequer me apercebo de que estou no estrangeiro.

É interessante que fale tanto de história, porque algo que se sente nos seus livros é que a história está sempre presente. Escreveu sobre o século XVII nas aventuras de Alatriste, sobre as invasões napoleónicas em O Assédio, também Linha da Frente sobre a Guerra Civil Espanhola, e em Revolução, que foi o pretexto da anterior entrevista que lhe fiz, abordou a Revolução Mexicana. Como romancista, utiliza a história como forma de criar a sua literatura?

Sem história não percebemos nada. Olhe agora para Ceuta. O problema atual, o grave problema para os jovens na Europa, em Espanha, em Portugal, e em tudo aquilo a que chamamos Ocidente, é que, ao retirarmos a história dos currículos escolares, diminuímos consideravelmente o seu valor e garantimos que tudo se resume a não ofender ninguém, a ter cuidado, etc. Assim, é evidente que os jovens não conseguem interpretar. Não compreendem o mundo. Não compreendem Trump, nem o Golfo Pérsico, nem as guerras de Israel, nem Gaza, nem Angola, nem Moçambique, nem o Saara, nem Ceuta. Tudo isto já aconteceu antes. Lê-se Tito Lívio, lê-se Suetónio, lê-se Tucídides - tudo isto já aconteceu antes. Repetimos os mesmos padrões com esta chamada modernidade, é natural, mas se se tiver uma formação histórica, uma compreensão histórica que abranja 3000 anos da memória ocidental, compreende que o “mouro no barco” não é um mouro; ele representa as antigas invasões, o Norte de África, o Mediterrâneo. Mas estamos a assassinar Cervantes, Platão, Aristóteles, Eça de Queirós, Camões; estamos a apagá-los da memória. Depois, claro, os jovens não conseguem ver um mundo que os deixa perplexos, que os assusta. Assim, refugiam-se na internet, mas não olham para o mundo exterior. E isso é muito perigoso, muito perigoso. É por isso que, ao longo dos meus romances, a história está, de uma forma ou de outra, em segundo plano, mas como um elemento fundamental. Existem dois tipos de romances históricos: o romance histórico que recria como era o castelo medieval, tal como era na época. E o outro romance histórico que utiliza a história para compreender o presente. Eu sou esse tipo de romancista.

FOTO: Paulo Spranger

Referiu que os jovens de hoje pouco se interessam pela história. E isso faz-me lembrar que li um livro seu, um pouco diferente da saga de Alatriste, mesmo de outros romances, que era uma tentativa de explicar a Guerra Civil Espanhola aos jovens. Tentou encontrar um equilíbrio, uma objetividade, mas acabou por ser atacado por todos os lados.

Fui atacado pela direita e pela esquerda, tal como quando publiquei o meu romance Linha da Frente, que aborda a guerra de trincheiras. Claro, porquê? Porque o problema hoje em Espanha e em muitos outros lugares é que, como as pessoas já não têm informação sobre o que foi a Guerra Civil então é muito fácil dizer: não, estes eram os bons, estes eram os maus. As pessoas querem livros que confirmem as suas ideias e detestam livros que as desafiem. Chegámos a um ponto em que as pessoas - ou seja, os políticos - precisam de bons e maus; precisam que lhes digam isso. Publiquei há dias um artigo nos jornais espanhóis intitulado “Contra quem vai votar?”. Os europeus já não votam a favor de algo, votam contra algo. Depois, os políticos, que são muito inteligentes, dizem, “votem contra eles”. Esta polarização impede a imparcialidade. Por vezes, os leitores perguntam-me: “Quão pessimista é!” Eu respondo: Sou pessimista porque li história e vi como as coisas acabam. Portanto, neste momento, aquilo a que chamamos Ocidente está a ser demolido por dentro. Não são os bárbaros vindos das fronteiras externas como em Roma, não são os mouros, nem os negros, nem os chineses, nem os russos. Somos nós europeus que estamos a renunciar a tudo o que nos define, a tudo o que nos traz felicidade.

Falta de convicção na civilização ocidental?

Falta de convicção, não. Ignorância. A ignorância - e não falo só dos jovens, falo dos políticos, das pessoas que governam em geral - é assustadora. Como podem sequer começar a lidar com conceitos tão perigosos e sérios, com tanta ignorância à volta? Não leem, não leem. Falo da geração atual de políticos. Os políticos anteriores, de há duas gerações, de há uma geração, eram pessoas que não vinham da política, vinham para a política. Portanto já tinham alguma formação prévia, já eram pessoas, não que fossem De Gaulle, ou Adenauer, ou Churchill, mas tinham um certo nível. Agora, todos eles vêm dos partidos, ingressando aos 16 anos, na ala jovem. Não fizeram mais nada na vida para além de estar no partido; não leram, não viajaram, não têm carreira, nada. Estão no partido e, fora dele, nada existe. São como zombies, zombies culturais, culturalmente mortos, não existem, e isto é muito grave.

O que lhes falta?

A cultura continua a ser fundamental. Para que um cidadão seja livre e democrático numa democracia, precisa de ter uma cultura que lhe permita identificar, dizer: “Sim, isso, não, não me contes uma história, não, não, eu sei, eu li, eu sei”, e evitar ser vítima de qualquer discurso bem elaborado. Um cidadão democrático precisa de anos de preparação cultural. Um fanático político precisa de cinco minutos no Twitter, quatro slogans, do género, “clicas, clicas, e já te sentes parte disso, já fazes parte de”. É triste, sou muito pessimista.

Com Francisco Quevedo, que é importante em Alatriste, permitiu-se algumas liberdades ficcionais. E na época em que situa as aventuras, tinha mesmo de ser Quevedo, pois Miguel de Cervantes já morrera. Mas Cervantes era mais lógico figurar porque era soldado e espião. Prefere Quevedo a Cervantes?

Cervantes representa o melhor do caráter espanhol; foi soldado, prisioneiro, sofreu, é um homem desafortunado, e, no entanto, escreve um livro repleto de bondade, bom senso, nobreza e um toque de dignidade. Cervantes personifica a honestidade intelectual, a bondade intelectual; é o bom espanhol. Quevedo é um político, um cortesão, um filho da puta, engenhoso - o desgraçado sabe o que faz, sabe o que está a fazer, luta, é ambicioso, acerta contas, insulta, é incrivelmente talentoso. Assim, entre os dois, Quevedo representa o lado canalha do caráter espanhol, e Cervantes, o lado nobre. Há mais Quevedos do que Cervantes. Ao ler-se um soneto de Quevedo, parece que está a falar da Espanha de hoje. Por outras palavras, é incrivelmente relevante. Quevedo é a modernidade, e Cervantes, o passado nobre.

Pérez-Reverte: “O grande erro geopolítico foi Filipe II não ter transferido a corte para Lisboa”
“Franco aproveitou-se da fraqueza da esquerda, e era um bom estratega. Mas teve muita sorte”
Pérez-Reverte: “O grande erro geopolítico foi Filipe II não ter transferido a corte para Lisboa”
“A Revolução Portuguesa causou pânico entre os franquistas, que receavam que se propagasse a Espanha”
Diário de Notícias
www.dn.pt