Tokayev e Putin em Omsk.
Tokayev e Putin em Omsk.Foto: EPA/SERGEI SAVOSTYANOV / SPUTNIK

Presidente cazaque pede a Putin para "congelar" guerra na Ucrânia

Tokayev reuniu-se com homólogo russo e usou peso diplomático para falar de paz. Cazaquistão tem comunidades russa e ucraniana. E viu as suas exportações de petróleo afetadas por ataques de drones no Mar Negro.
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O apelo a Vladimir Putin pelo presidente cazaque Kassim-Jomart Tokayev para “congelar” o conflito com a Ucrânia foi logo notícia em destaque no Kiyv Independent, jornal ucraniano em língua inglesa. Que depois atualizou a informação com declarações do porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, dizendo que esse congelamento “é impossível”, pois a Rússia está determinada em atingir “os objetivos”, numa alusão às exigências de cedências territoriais  e de não alargamento da NATO a Leste.

Tokayev, que esteve reunido sábado na cidade russa de Omsk com Putin, numa cimeira entre os presidentes de dois países que partilham uma vasta fronteira e também uma história comum de séculos, resguardou-se, porém, de qualquer oferta como mediador, preferindo relembrar que já houve negociações antes entre Moscovo e Kiev em Istambul, e que a cidade turca pode ser de novo a opção. Referiu também o encontro de Putin no ano passado no Alasca com Donald Trump, dando a entender que além de envolver russos e ucranianos, o caminho para a paz necessita de outras grandes potências, nomeadamente os Estados Unidos. Trump fez várias promessas de acabar com a guerra e tem dito inclusive que se estivesse ele na Casa Branca há quatro anos e não Joe Biden a Rússia não teria iniciado aquela que é a maior guerra europeia do pós-1945.

Tokayev, que ao longo dos anos construiu uma relação de confiança com Putin mas também com Biden e agora Trump, lidera um país que tem procurado a possível neutralidade no conflito russo-ucraniano. Por um lado, apoia a soberania ucraniana e recusa reconhecer as anexações russas, por outro evita votar as condenações da Rússia nas Nações Unidas. A prudência cazaque tem que ver com a sua tradicional diplomacia multivetorial, que tenta libertar o país da excessiva influência dos vizinhos Rússia e China através de laços fortes com os Estados Unidos e a União Europeia, mas também com o facto de até 1991 cazaques, russos e ucranianos terem sido cidadãos de um mesmo país, a União Soviética. Além disso, o Cazaquistão tem uma importante minoria eslava, com substanciais números de população de origem russa e ucraniana, o que aconselha extrema sensibilidade a lidar com uma guerra que dura desde 2022, alguns dirão até desde 2014, quando a Rússia anexou a Crimeia e se iniciou a revolta separatista na região do Donbass.

Exatamente pelo equilíbrio que tem procurado mostrar, Astana reagiu com especial fulgor aos incidentes já este mês com quatro navios que transportavam petróleo cazaque. De várias bandeiras, os petroleiros atacados por drones abasteciam-se no porto russo de Novorossiysk, onde termina um oleoduto que traz petróleo do Cazaquistão, país encravado. Esse oleoduto, que atravessa o Cáucaso, não está abrangido pelas sanções internacionais à Rússia e é gerido por um consórcio internacional que inclui as multinacionais americanas Exxon e Chevron. É decisivo para as exportações petrolíferas cazaques e pesa 2% no comércio internacional de petróleo, o que levou a disrupção criada pelos ataques a ser agregada por jornais como o Financial Times e o Wall Street Journal às situações nos estreitos de Ormuz e de Bab Al-Mandel.

Novos problemas no Mar Negro, associados ao conflito no Golfo Pérsico entre os Estados Unidos e o Irão e às ameaças dos houthis (movimento iemenita pró-Teerão) de bloquear a entrada sul do Mar Vermelho, constituem um novo fator de pressão sobre o preço do barril de petróleo. Depois de ter ultrapassado a fasquia dos 100 dólares na sequência do ataque israelo-americano de 28 de fevereiro ao Irão, estava a baixar dadas as negociações entre Washington e Teerão, mas uma nova fase de ataques e contra-ataques entre americanos e iranianos voltou a pressionar os mercados e a semana passada a fasquia dos 100 dólares voltou a ser ultrapassada. Agora voltou a baixar um pouco, motivado por indicações de que o Paquistão, com incentivo da China, está a tentar que as negociações voltem ao bom caminho.

Segundo o Wall Street Journal, a Casa Branca advertiu a Ucrânia contra ataques com drones contra navios não-russos. A Rússia acusou diretamente a Ucrânia do sucedido. Por seu lado, o Cazaquistão deixou bem claro que responsabilizará os autores, relembrando a legitimidade do comércio feito através do oleoduto que transporta ao longo de 1500 quilómetros o petróleo extraído dos campos de  Tengiz, Karachaganak e Kashagan. Cerca de 80% do petróleo cazaque segue essa rota do CPC (sigla em inglês de Caspian Pipeline Consortium).

 “O Cazaquistão exige o fim imediato destes ataques e a adopção de medidas abrangentes para garantir a segurança das infraestruturas utilizadas para a exportação de hidrocarbonetos cazaques. Instamos veementemente os nossos países parceiros a condenarem inequivocamente estes ataques e convidamos todas as partes envolvidas a desenvolverem medidas práticas. Acreditamos firmemente que só a estrita observância do direito internacional pode impedir a reincidência de tais incidentes”, pode ler-se num comunicado do ministério dos Negócios Estrangeiros. Outro comunicado oficial pede especificamente uma tomada de posição da União Europeia, principal destinatária do petróleo transportado através do CPC.

Citado pelo Times of Central Asia, o embaixador ucraniano em Astana, Victor Mayko, declarou, referindo-se aos incidentes ocorridos entre 7 e 19 de julho, que "até à data, não há qualquer evidência de que os ataques em causa tenham sido levados a cabo pelo lado ucraniano."

Segundo a Euronews, outro media atento aos acontecimentos no Mar Negro, o CPC não atribui os ataques oficialmente. E a Ucrânia publicamente não reivindicou os ataques. O uso de drones para atacar infraestruturas petrolíferas russas tem sido uma estratégia ucraniana para retaliar contra o país invasor, que continua a bombardear cidades.

Tokayev, presidente desde 2019 mas diplomata de carreira, formado no tempo soviético e hoje creditado (graças ao seu poliglotismo) por ser capaz de falar nas respetivas línguas com Putin, Trump e Xi Jinping, disse também em Omsk ao presidente russo, e o Kyiv Independent fez questão de puxar a ideia para título, que “a natureza deste conflito não é inteiramente clara”.

O presidente cazaque teve já vários encontros também com o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, a quem prometeu ajuda cazaque para a reconstrução do país quando a paz com a Rússia for negociada.

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