No sábado à noite (25 de abril) houve uma explosão nos subúrbios de Belfast, a capital da Irlanda do Norte. O que é que aconteceu?Um carro armadilhado explodiu no exterior da esquadra de polícia de Dunmurry, no sul de Belfast, pouco antes das 23h00, depois de o condutor do veículo ter sido raptado e forçado a deixá-lo naquele local. O engenho explosivo, que incluía um cilindro de gás, tinha sido colocado na bagageira. O veículo abandonado levou a polícia a evacuar as casas mais próximas, com várias famílias (incluindo dois bebés) a terem que ser retiradas. Ninguém ficou ferido na explosão, captada pelas câmara de segurança de um dos agentes, com a polícia a falar num “milagre”. Um suspeito de 66 anos foi detido na terça-feira (28 de abril), ao abrigo da Lei Antiterrorista.A violência não tinha acabado na Irlanda do Norte? Estes acontecimentos são comuns?A Irlanda do Norte viveu três décadas de violência sectária entre unionistas protestantes, que queriam que o país continuasse a fazer parte do Reino Unido, e os nacionalistas republicanos, na sua maioria católicos, que queriam fazer parte da República da Irlanda. Ambos os lados tinham grupos paramilitares que recorriam a atentados à bomba, sendo provavelmente o mais famoso o IRA (sigla em inglês para Exército Republicano Irlandês). Apesar de em 1998 os acordos de paz de Sexta-Feira Santa terem praticamente posto fim à violência sectária que deixou cerca de 3600 mortos, os agentes da polícia ainda são ocasionalmente alvo dos ataques de pequenos grupos dissidentes, na sua maioria nacionalistas, que se opõem ao domínio britânico na região.O ataque de sábado foi reivindicado por algum desses grupos?Sim, pelo Novo IRA, que enviou uma mensagem para o jornal The Irish News a dizer que o objetivo era matar os polícias quando estivessem a sair da esquadra. E a ameaçar atacar mais agentes do Serviço de Polícia da Irlanda do Norte (PSNI, na sigla em inglês), incluindo “nas duas próprias casas, sem aviso prévio”, além de quem colabore com as autoridades. O grupo diz que tem “demasiado Semtex”, um explosivo que alegam também foi usado no sábado, junto com um temporizador com 30 minutos para dar tempo ao motorista para fugir - tinha ordens para gritar “há uma bomba no carro”. Segundo a mensagem, prometem continuar com os ataques “até os britânicos darem ordem para a retirada das tropas”. A polícia suspeitava do Novo IRA?Sim, as autoridades já suspeitavam deste grupo, porque houve uma primeira tentativa de ataque, a 30 de março, diante de outra esquadra da polícia, na localidade próxima de Lurgan. Na altura o engenho acabou por não explodir. Essa tentativa de ataque também tinha sido reivindicada pelo Novo IRA. Mas afinal que grupo é este?Este grupo não é novo (de facto os seus membros apresentam-se apenas como IRA), tendo sido assim batizado pelos media em 2012, após a união de outros grupos militantes: o IRA Verdadeiro e o Ação Republicana Contra as Drogas, entre outros. O Novo IRA alegava então que tinha sido vendida “uma paz falsa” aos irlandeses e que o seu mandato para a luta armada “deriva da negação, por parte da Grã-Bretanha, do direito fundamental do povo irlandês à autodeterminação e soberania nacional”. Este grupo é diferente do IRA Provisório, que esteve ativo durante os Troubles, declarou o cessar-fogo em 1997 e acabou a luta armada em 2005. Também existiu o IRA Oficial e o IRA Verdadeiro, tudo dissidências ou versões do mesmo grupo, tendo este último sido responsável pelo atentado de Omagh, que matou 29 pessoas em 1998. Que outros ataques reivindicou este grupo?O Novo IRA assumiu a responsabilidade pela morte da jornalista Lyra McKee, de 29 anos, que foi atingida a tiro na cabeça em 2019 quando cobria os motins em Derry. E também dos guardas prisionais David Black, de 52 anos, morto em 2012 quando ia para o trabalho, e Adrian Ismay, que morreu após uma bomba explodir sob o seu carro em 2016. O Novo IRA também assumiu ter colocado bombas sob os veículos de outros dois agentes da polícia, um em 2019 e outro em 2021, assim como o envio de cartas armadilhadas para dois aeroportos, uma estação de comboios e a Universidade de Glasgow.Como é que os políticos reagiram a este novo ataque?O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, condenou “veementemente” o ataque, deixando claro que “os responsáveis serão levados à justiça”. A líder do governo da Irlanda do Norte, Michelle O'Neill, dos republicanos do Sinn Féin, escreveu no X que os autores do ataque “não representam absolutamente ninguém” e “não têm nada para oferecer à nossa sociedade”. Mais tarde, numa conferência de imprensa conjunta com a PSNI e com a número dois do governo, a unionista Emma Little-Pengelly (ao abrigo dos acordos de Sexta-Feira Santa o governo é partilhado pelos dois lados), reiterou que todos estão “absolutamente unidos na condenação” ao ataque. “O terrorismo é sempre errado. É sempre injustificável, seja há 10, 20, 40, 50 anos ou no sábado à noite”, afirmou Little-Pengelly. A polícia teme novos ataques?O chefe do PSNI, Jon Boutcher, apelou a informações sobre o ataque desta semana para que os seus agentes possam apanhar os responsáveis “antes que estas pessoas realmente magoem ou matem alguém”. Na terça-feira foi detido um suspeito. O atual nível de ameaça de terrorismo continua a ser “substancial”, o que significa que um ataque é considerado “provável”. As autoridades dizem que não é necessário pânico, mas pedem às pessoas que fiquem atentas e denunciem qualquer coisa suspeita.