Em 2003, durante a invasão anglo-americana ao Iraque, os Estados Unidos publicaram uma lista dos mais procurados do regime de Saddam Hussein, a começar pelo próprio. A lista acabou por ser adaptada a um baralho de cartas distribuído às tropas. Desta vez, desconhece-se quem consta na lista de dirigentes iranianos a abater por Israel, mas há quatro nomes que terão sido riscados nas últimas horas: Abbas Araghchi, ministro dos Negócios Estrangeiros, Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento; e Alireza Tangsiri e Behnam Rezaei, respetivamente o comandante das forças navais dos Guardas da Revolução e o seu chefe dos serviços de informações. Os dois primeiros para que os EUA possam manter interlocutores nas negociações indiretas, e os outros dois porque foram mortos num bombardeamento.Dois dias depois de ter dito que o Irão havia dado um “presente que vale uma tremenda quantidade de dinheiro” relacionado com o fluxo no estreito de Ormuz, o presidente norte-americano voltou ao tema, confirmando as notícias saídas a lume. Donald Trump afirmou que os funcionários iranianos com os quais os EUA estão a realizar negociações permitiram a passagem de “oito petroleiros” por Ormuz como sinal de boa-fé. “Acho que estamos a lidar com as pessoas certas”, disse, tendo ainda indicado que os navios estão a operar sob bandeira paquistanesa. .Irão rejeita os 15 pontos de Trump e impõe cinco condições para a paz.As ligações ao regime militar paquistanês não se ficam por aqui. À Reuters, uma fonte de Islamabad disse que Israel retirou os nomes do chefe da diplomacia iraniana e do presidente do Parlamento da lista de alvos em resultado de um pedido do Paquistão aos Estados Unidos. “Os israelitas tinham as suas coordenadas e queriam eliminá-los. Dissemos aos EUA que se também fossem eliminados, não haveria mais ninguém com quem falar, portanto, os EUA pediram aos israelitas para recuar”, disse a fonte à agência noticiosa. O Wall Street Journal já tinha noticiado a remoção dos dois altos funcionários iranianos da lista israelita, mas os funcionários norte-americanos citados não fizeram qualquer referência ao papel do Paquistão, e adiantaram que essa remoção é temporária, de quatro ou cinco dias.Na quinta-feira, o enviado de Trump Steve Witkoff confirmou que os EUA enviaram uma “lista de ações” de 15 pontos a Teerão, entregue via Paquistão. Ainda na quarta-feira, Teerão respondeu com a rejeição do documento e com a apresentação da sua própria proposta de cinco pontos. No dia seguinte, um alto funcionário iraniano disse à Reuters que o plano dos EUA é “unilateral e injusto”, mas manteve aberto o canal da diplomacia. Adiantou ainda que o documento norte-americano foi analisado ao pormenor na noite de quarta-feira por altos funcionários iranianos e pelo representante do guia supremo do Irão - sem esclarecer a sua identidade, mas ao mesmo tempo revelador do afastamento de Mojtaba Khamenei dos círculos do poder executivo, seja pelo seu estado de saúde, seja por motivos de segurança, ou por ambos..Ricardo Alexandre: “Uma adaptação do regime iraniano parece ser confortável para a saída que Trump precisa”. Já Witkoff, chamado à reunião do gabinete de Trump, disse haver uma “possibilidade” de acordo, apesar da negativa de Teerão. O seu par como enviado Jared Kushner, longe da Casa Branca, disse que se deve “simplesmente ignorar muito do que dizem publicamente” os iranianos, uma vez que as “declarações são geralmente mais para os público doméstico”, disse o genro de Donald Trump. Já este prosseguiu a habitual sucessão de mensagens em quase todas as direções. Antes das declarações deste alto funcionário da teocracia iraniana, o presidente que há dois meses se gabava de estar “a ganhar tanto” em todos os níveis que “realmente” não sabia “o que fazer em relação a isso” voltou a fazer uma espécie de ultimato à parte iraniana que estará a tratar das negociações: “É melhor que levem isto a sério em breve, antes que seja tarde, porque uma vez que isso aconteça, não há volta a dar, e não será bonito.” Chamou os negociadores iranianos de “muito diferentes e ‘estranhos’”, para horas depois já os descrever como “excelentes negociadores”. E atirou: “Não tenho a certeza se estou disposto a fazer um acordo com eles para acabar com a guerra.” Mas também disse que uma opção a ter em conta seria tomar o controlo do petróleo iraniano, a exemplo do sucedido com a Venezuela, onde após o rapto de Nicolás Maduro diz ter estabelecido uma “espécie de empresa conjunta” para a exploração do crude com Caracas.Refira-se ainda que, questionado pelos jornalistas se vai manter a suspensão de cinco dias da ameaça de atacar infraestruturas energéticas caso o estreito de Ormuz não seja aberto, disse não saber. “Temos muito tempo. No tempo de Trump, um dia, sabe o que é? Isso é uma eternidade”, respondeu. Prova disso é que, um par de horas depois, fixou em 6 de abril o fim do ultimato. A suspensão da ameaça deu-se depois de o Irão ameaçar responder na mesma moeda aos países vizinhos, em especial contra as centrais de dessalinização de água, e de as negociações indiretas ganharem aparente tração. Israel sem pausas Enquanto os EUA aparentam apostar numa solução negociada, Israel mantém o seu plano bélico de confrontação. O ministro da Defesa Israel Katz anunciou a morte do comandante das forças navais dos Guardas da Revolução como uma mensagem dirigida àquela poderosa organização: “As Forças de Defesa de Israel irão persegui-los e eliminá-los um a um.” De Alireza Tangsiri, morto em Bandar Abbas, perto do estreito de Ormuz, quando se reunia com outros comandantes do seu ramo, Katz disse ser o responsável pela “operação terrorista de minagem e bloqueio do estreito de Ormuz ao tráfego marítimo”. Numa mensagem em vídeo, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu descreveu o bombardeamento que matou Tangsiri e outros oficiais como “mais um exemplo da cooperação” com os EUA.