A assinatura do acordo UE-Mercosul significa que a Europa pode ser um ator importante na América Latina?A assinatura do Acordo de Parceria UE-Mercosul representa um passo significativo na consolidação da presença estratégica da Europa na América Latina, criando um dos maiores espaços de comércio livre do mundo e incentivando não apenas fluxos comerciais, mas também diálogos políticos e cooperação em áreas como sustentabilidade e padrões regulatórios partilhados. Além de abrir oportunidades importantes para os mercados latino-americanos, este acordo cria condições mais favoráveis para as exportações europeias para uma região com mais de 400 milhões de consumidores e economias dinâmicas, beneficiando sectores chave como maquinaria, tecnologia e serviços. A União Europeia, de facto, é um dos principais investidores na América Latina e Caraíbas, com investimentos acumulados superiores a 800 mil milhões de euros, mais do que o seu investimento combinado na China, Índia, Japão e Rússia.Entre o cololário Trump da Doutrina Monroe e a crescente ligação económica à China, a América Latina é obrigada a escolher? Ou cada país da região pode aproveitar as rivalidades geopolíticas entre as grandes potências?A América Latina não está forçada a um “escolher entre blocos”, mas está, sem dúvida, num contexto global de competição geopolítica que influencia decisões estratégicas regionais. Países da região procuram diversificar parcerias económicas e políticas para atrair investimentos e ampliar mercados, sem se comprometerem exclusivamente com um único ator. Neste contexto, iniciativas de cooperação multilateral e triangular, como os “Encontros Triângulo Estratégico: América Latina e Caraíbas - Europa - África” que o IPDAL promove em Portugal, têm sido fundamentais para reforçar o multilateralismo e criar pontes que transcendam tensões geopolíticas, promovendo soluções colaborativas e integradoras que beneficiem todas as partes envolvidas.Portugal deve continuar a apostar numa relação forte com a região, não só com o Brasil, mas também com a América de língua espanhola?Sem dúvida. A missão do IPDAL sublinha a importância de Portugal consolidar relações com todos os países da América Latina e Caraíbas – não apenas com o Brasil, pelo vínculo linguístico, mas igualmente com os países de língua espanhola, por partilharem dinâmicas económicas, culturais e históricas relevantes. Um exemplo concreto dessa aposta é a participação de vários países latino-americanos como observadores na CPLP, um resultado positivo do trabalho de construção de confiança e diálogo multilateral em que Portugal e o IPDAL têm estado envolvidos. Isto não só fortalece a presença portuguesa na região, como também abre espaço para cooperação institucional, académica e empresarial mais ampla.Em situações como a evolução política na Venezuela, a ação da diplomacia portuguesa tem sabido ter em conta os interesses da numerosa comunidade luso-venezuelana?A diplomacia portuguesa tem procurado equilibrar o respeito pelos princípios democráticos e pelos direitos humanos com a proteção dos interesses da comunidade luso-venezuelana, que é um capital social e cultural valioso entre os dois países. O IPDAL, através de diálogos, eventos regionais e iniciativas de diplomacia pública, tem apoiado uma abordagem de permanente dialogo e defesa de soluções legítimas e soberanas do povo venezuelano.O IPDAL foi fundado há 20 anos. Sente que o interesse em Portugal pela América Latina é hoje diferente do que acontecia em 2006?Sim, de forma clara e progressiva. Nos últimos 20 anos, Portugal tem vindo a fortalecer o seu interesse e a sua ação no espaço latino-americano e caribenho, refletido em cooperação económica, diálogos institucionais, académicos e culturais mais densos e estratégicos. O IPDAL tem desempenhado um papel central na afirmação de Lisboa como um polo de cooperação transatlântica, criando espaços de encontro, reflexão e parcerias que hoje são referência para atores públicos e privados de ambos os lados do Atlântico. Olhando para os próximos 20 anos, acreditamos que este hub continuará a crescer, aprofundando agendas de cooperação. O IPDAL tem tido um papel decisivo e flagrante na relação de Portugal com a América Latina e Caraíbas. Vamos manter esta dedicação nos próximos anos..Oliver Stuenkel. “A estratégia de Trump vai acabar aproximando a América do Sul da China”.Carlos Malamud: “Enterrar o chavismo nesta fase do processo parece-me muito prematuro”