Estamos num momento de incerteza na Venezuela após a queda de Nicolás Maduro. A situação no terreno parece calma, apesar de os coletivos andarem pelas ruas. Delcy Rodríguez assumiu o poder e estará, segundo os EUA, a cooperar. Ela diz que não. Como olha para o futuro?A principal característica neste momento é mesmo a incerteza. O que acontecerá amanhã, depois de amanhã ou num futuro próximo é algo desconhecido, porque depende de múltiplas variáveis. Conduzir uma transição remotamente, como pretende a administração de Donald Trump, é muito complicado. Obviamente, por razões de imagem e também por razões políticas internas, os EUA preferem não ter militares no terreno. Mas isso complica mais a situação. A pressão sobre Delcy Rodríguez e a liderança do governo chavista é evidente, mas estas pessoas, tal como Maduro, são muito hábeis a contornar a pressão internacional. Acho que estamos a assistir a uma espécie de jogo do gato e do rato. O gato quer ditar as regras do jogo, o rato tenta ser mais esperto. Mas, ao mesmo tempo, não existe apenas um rato, existem vários. Temos Delcy Rodríguez com o irmão Jorge [presidente da Assembleia Nacional], Diosdado Cabello [ministro do Interior, da Justiça e Paz], Padrino López [ministro da Defesa], o filho de Nicolás Maduro. Cada um com a sua própria agenda. Todos, por um lado, a tentar reforçar e legitimar o novo governo. Mas, por outro lado, cada um a tentar consolidar a sua própria base de poder. E, ao mesmo tempo, com significativa desconfiança entre eles. Não tenho fontes para provar o que vou dizer, mas a ideia de quem foi o traidor, quem será o próximo a ser traído, tem que estar muito presente.Vamos começar a ver ruturas entre essas figuras do regime?É muito provável. Desde logo porque nos próximos dias e semanas terão de tomar importantes decisões estratégicas, muitas das quais vão, ou deverão, contrariar a abordagem histórica do chavismo[do ex-líder Hugo Chávez]-madurismo. Por exemplo, o que será feito em relação à exigência de Trump - não um pedido, mas uma exigência - de expulsar Rússia, China e Irão do mercado petrolífero e desinvestir em Cuba? O que acontecerá aos presos políticos? Serão libertados ou permanecerão encarcerados? Os exilados, em especial os líderes políticos, poderão regressar? O que acontecerá a Edmundo González e a María Corina Machado? Poderão participar livremente em atividades políticas? A repressão vai continuar? Todas estas questões vão tensionar as relações dentro do próprio governo venezuelano. E outra coisa que poderá influenciar o desenvolvimento desta transição, que Trump deseja que seja pacífica, embora não descarte uma segunda vaga de ataques, é o que acontecerá às Forças Armadas, aos serviços de informação, à polícia? Vão permanecer unidos ao governo? O colapso da segurança de Maduro, controlada pelos cubanos, marcará um ponto de viragem na presença, ou melhor, na omnipresença dos serviços de informação cubanos dentro das forças armadas.De que forma?Até agora, eram vistos como omnipotentes; agora, nem tanto. Já foram divulgadas as identidades dos 32 cubanos mortos no confronto com a Força Delta. O número de oficiais de alta patente é impressionante. Havia dois coronéis, um tenente-coronel e um major, muitos deles com uma sólida experiência nos serviços de informações. Isto revela, por um lado, algo que já se sabia, mas não estava definitivamente provado: o peso da presença cubana na Venezuela. E veremos também como isso afeta a coesão dentro das forças armadas. Será importante ponderar se haverá algum tipo de amnistia para os crimes cometidos, sejam eles relacionados com o tráfico de droga, outras atividades criminosas ou violações dos direitos humanos. Mas isso é algo que só o tempo dirá. A oposição, em especial María Corina Machado, foi completamente arrasada com a declaração de Trump. O que podem fazer agora para tentar recuperar? As palavras de Trump foram brutais, desagradáveis e grosseiras. Mas penso que, tendo em conta a forma como as coisas se passaram, ele fez um grande favor à oposição, e especialmente a María Corina Machado e Edmundo González. Porque, de certa forma, os afastou de um compromisso excessivo, de uma ligação excessiva a Trump e à sua abordagem à transição. E este distanciamento permite-lhes apresentarem-se como se também tivessem sido vítimas de tudo o que se passa na Venezuela, vítimas, neste caso, do imperialismo. Porque não nos podemos esquecer que o povo venezuelano é profundamente nacionalista e, em muitos sectores sociais, este nacionalismo é fortemente anti-imperialista. No outro dia, Henrique Capriles [opositor] publicou uma declaração nas redes sociais a lembrar: “cuidado, este povo é muito nacionalista e, por isso, devemos tomar uma posição em defesa da soberania nacional”. Uma crítica velada, ou talvez nem tão velada, a María Corina Machado e ao seu apoio praticamente inabalável a Trump. O que aconteceu permite-lhes manter uma certa distância, esperar para ver como os acontecimentos se desenrolam e, potencialmente, emergir como parte do Plano B caso, como tudo indica, esta transição falhe. É altamente improvável que um governo que durante anos foi incapaz de reativar a economia do país o consiga fazer no contexto atual. Mesmo com o apoio de Washington. Acha que Trump, com toda a insistência no petróleo e com o apoio ao regime, está a lançar as sementes de um ressentimento de longo prazo entre os venezuelanos em relação aos EUA? É muito provável. Penso que há aqui uma questão importante que precisa de ser abordada para vermos como as coisas evoluem no futuro. É certo que Maduro foi decapitado, que o regime de Maduro foi profundamente desacreditado nos últimos anos por razões óbvias. Mas o importante é ver o que o futuro reserva para o chavismo. Enterrar o chavismo nesta fase do processo parece-me muito prematuro. As lições do peronismo na Argentina devem ser cuidadosamente ponderadas. Parece estar agora nos seus estágios finais de declínio, mas com o peronismo, nunca se sabe. Por conseguinte, um regresso a um chavismo fortemente nacionalista e anti-imperialista não pode ser descartado. E não só na Venezuela. Veremos o que acontece este ano, em que há eleições importantes no Brasil, Colômbia, Peru, Costa Rica e Haiti, e o que acontecerá aos candidatos que Trump apoia explicitamente, como Nasry Asfura nas Honduras ou os candidatos de Javier Milei nas últimas legislativas argentinas. Até agora, qualquer pessoa tocada ou abençoada por Trump foi catapultada para a vitória. Mas se este sentimento nacionalista ressurgir na América Latina, poderá ter consequências negativas a médio prazo para as políticas que Trump está a promover na região. Esta “doutrina Donroe”, como lhe chama, acha que a pressão em relação a Cuba, Colômbia ou México é só retórica? Em Cuba não é preciso muito, só cortar o fornecimento de petróleo terá um impacto enorme. Na Colômbia, há as eleições que referiu... Ele vai continuar a pressionar. Não nos podemos esquecer que, por detrás de Trump na América Latina, está Marco Rubio [o secretário de Estado norte-americano, que tem origem cubana]. Uma das obsessões de Marco Rubio, por razões óbvias, é Cuba. A questão é que, como bem disse, em Cuba não há necessidade de exercer muita pressão. Com um pequeno empurrão, tudo se desmoronará. De certa forma, a presença de Raúl Castro é o último bastião que sustenta o sistema. Teremos de ver o que acontecerá quando Castro partir. Mas o que é claro é que um país como Cuba, sem energia, com apagões diários, sem comida, sem medicamentos, com aumento da criminalidade nas ruas, repressão crescente - não apenas contra a oposição política, mas contra qualquer pessoa que ouse levantar a voz ou contra qualquer movimento de protesto de rua - estes são sinais preocupantes, somados à forte migração que o país está a viver, de que a crise é extremamente profunda. Há também uma crise de liderança. Miguel Díaz-Canel não conseguiu corresponder às expectativas de uma liderança eficaz, isso é evidente, e estamos à espera para ver o que acontece. Creio que a situação no México e na Colômbia é diferente. O que aconteceu foi que, para intervir na Venezuela, Trump e a equipa precisaram de toda uma narrativa, uma história muito específica, retratando Maduro como o grande chefe da máfia, o líder do Cartel de los Soles.Que praticamente desapareceu da acusação agora apresentada em Nova Iorque...A questão é que o Cartel de los Soles tinha uma consistência muito etérea. Era tudo bastante vago. Mas a única forma de justificar esta intervenção militar foi retratando Maduro como um líder narcoterrorista, ao ponto de a operação não ser apresentada como militar, mas como a captura de um fugitivo da justiça americana, um inimigo do povo americano. Por conseguinte, uma intervenção desta natureza no México ou Colômbia implicaria transformar Claudia Sheinbaum, numa perigosa narcoterrorista, o que não me parece credível, e Gustavo Petro num terrorista. Mas com as eleições legislativas colombianas em março e a primeira volta das presidenciais em maio, não creio que [o ex-presidente Álvaro] Uribe ou parte do establishment colombiano, que mantém boas relações com os EUA, estivessem interessados numa intervenção de Trump neste momento. Até porque isso poderia fortalecer as hipóteses de Iván Cepeda [o candidato da esquerda]. A situação é complexa..Trump desafia Rússia e China a comprar petróleo aos EUA e diz que terá Gronelândia pela via "fácil ou difícil".María Corina Machado luta para não se tornar numa vítima colateral da queda de Maduro