A líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, admitiu numa entrevista à Fox News que não fala com o presidente norte-americano, Donald Trump, desde outubro - quando foi anunciado que tinha ganho o Prémio Nobel da Paz que ele cobiçava. “Mas quero dizer hoje, em nome do povo venezuelano, o quão gratos estamos pela sua visão corajosa, pelas ações históricas contra este regime narcoterrorista, para desmantelar esta estrutura e levar Maduro à justiça”, afirmou naquele que é um dos canais de televisão preferidos de Trump, acrescentando querer “partilhar” o Nobel com ele. Depois de mais de um ano na clandestinidade na Venezuela, escondida nos arredores de Caracas, María Corina Machado foi surpreendida no estrangeiro pela operação militar norte-americana que levou à queda de Nicolás Maduro. A líder da oposição venezuelana fugiu do seu país numa perigosa operação que contou com o apoio dos norte-americanos e envolveu uma viagem de barco para Curaçau. Mas acabou por chegar demasiado tarde à cerimónia de entrega do Nobel em Oslo, a 10 de dezembro, cabendo à sua filha ler o discurso que tinha escrito. .Vão os militares venezuelanos seguir fiéis ao regime?. María Corina Machado pode ter sido surpreendida pela operação militar. Mas, tendo em conta a falta de comunicação com o presidente norte-americano (e, segundo o The New York Times, relações tensas com outros membros da administração), não terá ficado surpreendida quando Trump disse que ela era “uma mulher muito simpática, mas que não inspira respeito” e “não tem apoio dentro do país”. O presidente explicou na conferência de imprensa no sábado que os EUA iam ficar a “governar” a Venezuela, em cooperação com a até então vice-presidente e titular da pasta do Petróleo, Delcy Rodríguez, que entretanto já assumiu a liderança interina. Apesar da retórica anti-EUA e das repetidas declarações de apoio a Maduro, a nova presidente interina também falou de cooperação com Washington. E tem surgido rodeada do resto da cúpula do regime, numa aparente mostra de união para calar os que previam uma luta pelo poder.. Segundo os jornais norte-americanos The New York Times e The Wall Street Journal, foi a CIA que sugeriu que manter o resto do regime no poder, usando a ameaça de novas intervenções militares para os obrigar a cooperar, seria a melhor forma de garantir a estabilidade da Venezuela. Apostar na oposição - cujos líderes o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, lembrou estarem todos no estrangeiro sem capacidade de controlar o terreno - causaria desestabilização e obrigaria os EUA a comprometerem-se com uma presença militar dentro do país. A líder da oposição venezuelana, que durante meses tinha tentado atrair os EUA para o seu lado, acabou vítima de “fogo amigo”, lutando agora para não ser uma vítima colateral da queda de Maduro. Na entrevista à Fox News, María Corina Machado disse que o seu plano era regressar o mais rapidamente possível e garantir que a “transição” possa avançar. Quanto a Delcy Rodríguez, acusou-a de ser “a principal arquiteta da tortura, perseguição, corrupção e narcotráfico”, além de principal elo de ligação com Rússia, China ou Irão e de ser “repudiada” pelos venezuelanos.A líder da oposição mostrou-se ainda aberta a transformar a Venezuela num “hub de energia” dos EUA, depois de Trump ter deixado claro o interesse no petróleo venezuelano. Ainda esta terça-feira (6 de janeiro) o presidente disse que as empresas norte-americanas vão ser capazes de aumentar a produção na Venezuela em 18 meses - apesar de ter as maiores reservas do planeta, o país só produz um milhão de barris por dia. “Vamos impor o Estado de Direito, vamos abrir os mercados, vamos garantir a segurança dos investimentos”, disse a opositora.E Edmundo González?María Corina Machado pode ser a líder da oposição, tendo ganho as primárias da Plataforma Unitária Democrática de 2023 com mais de 90% dos votos. Mas foi impedida de concorrer às presidenciais de 2024, acabando por apoiar o antigo diplomata Edmundo González. Ela foi a força por detrás da candidatura dele, um quase desconhecido que muitos reconhecem como o verdadeiro presidente da Venezuela (incluindo os próprios EUA), com base nas atas eleitorais recolhidas nas mesas de voto pela oposição. Ao contrário de María Corina Machado, González optou por negociar o exílio com o regime de Maduro, depois de várias semanas escondido na embaixada dos Países Baixos. Vive agora em Espanha.“Os processos de transição democrática não são lineares, nem simples. Requerem experiência, visão histórica e capacidade de distinguir entre o urgente e o essencial”, escreveu no X, partilhando fotos de um encontro com o ex-primeiro-ministro espanhol Felipe González. “A democracia constrói-se com princípios firmes e decisões responsáveis, mesmo nos contextos mais complexos”, referiu.. A oposição parece preparada para esperar os próximos passos de Trump, confiantes de que quando houver eleições livres na Venezuela, María Corina Machado será eleita. “Em eleições livres e justas, vamos ganhar com mais de 90% dos votos”, disse a líder opositora à Fox News.Trump, que nunca usou a palavra democracia na conferência de imprensa de sábado, já avisou que é preciso tempo para “corrigir o país primeiro” e que não haverá eleições em 30 dias. “Vai demorar... Precisamos de cuidar para que o país recupere a saúde”, afirmou.Diante deste cenário, a oposição foca-se noutro ponto: “A liberdade dos presos políticos é o primeiro passo de uma genuína transição para a democracia na Venezuela”, escreveu María Corina Machado no X, onde também partilhou um comunicado do seu partido, Vamos Venezuela. “O processo político atualmente em curso tem um objetivo claro: a restituição do exercício da soberania aos cidadãos”, diz o texto, defendendo que “é hora de libertar os presos políticos, restabelecer a verdade e fazer prevalecer a justiça sobre a impunidade”. .María Corina Machado fugiu numa lancha, mas não chegou a tempo de receber o Nobel da Paz em Oslo.Maduro declara-se “inocente” e “prisioneiro de guerra” no tribunal de Nova Iorque