Ficou surpreendido com a preferência dos Estados Unidos, depois da captura de Nicolás Maduro, em lidar com os chavistas ainda no poder na Venezuela do que promover a oposição? Penso que havia entre a diáspora venezuelana, os venezuelanos que vivem fora, uma expectativa irrealista sobre a possibilidade de instalar María Corina Machado no poder depois de derrubado Maduro. A Venezuela passou por um processo de uma escalada autoritária de longo prazo, então as instituições estão completamente esvaziadas, destruídas em todas as esferas - o sistema judicial, as Forças Armadas, a Administração Pública -, então realmente penso que aquilo teria sido uma receita para o caos e de conflito interno mesmo. Tive muitos debates com venezuelanos que ficaram bravos comigo, dizendo que a Venezuela simplesmente tinha que permitir a chegada dela e pronto. Acho que Trump compreendeu isso, que a democratização na Venezuela será um processo de longo prazo e requer muito apoio internacional, sobretudo dos Estados Unidos, porque foram os Estados Unidos que removeram Maduro. Isso é um processo longo, complexo, caro, etc. Então Trump não quer isso nesse momento, porque é um processo muito incerto, e isso não é uma de suas principais motivações, como ficou claro na retórica dele. Se o principal objetivo é facilitar o acesso ao petróleo, então realmente faz mais sentido manter a velha guarda por enquanto e ver o que acontece. A situação é muito incerta, pode ser que Delcy Rodríguez seja derrubada por outros atores internos do regime, mas Trump acabou sendo mais prudente nesse sentido, e a retórica dele sugere, obviamente, que não tem planos de ajudar María Corina Machado a se tornar presidente. Isso achei um pouco surpreendente, sim. Ou seja, achei que ele falaria: “Olhe, por enquanto temos que manter o regime, mas vamos já iniciar aqui um processo para que realmente lá na frente haja eleições, ou para que Edmundo González possa tornar-se presidente.” Nem sequer mencionou Edmundo González.Esta intervenção na Venezuela é de um tipo totalmente novo ou o que aconteceu no Panamá em 1989, com intervenção militar americana e prisão do general Manuel Noriega, pode dar-nos pistas para o que se vai seguir?O Panamá foi um caso muito atípico. É um país pequeno, um país tradicionalmente dependente dos Estados Unidos. A Venezuela é muito diferente. Então penso que o caso do Panamá, realmente, é um caso ideal, mas é muito, muito pouco provável que o Panamá seja um modelo para entender ou planear o cenário na Venezuela. É a primeira vez na História que os Estados Unidos usam a força abertamente para derrubar um presidente sul-americano - já houve ações tipo covert action, essas ações secretas, financiamento, envio de armamentos, mas, assim, soldados americanos em solo sul-americano para derrubar um presidente, é a primeira vez. Então é realmente um momento histórico, para uma situação sem precedentes na História sul-americana.O chamado Corolário Trump da Doutrina Monroe é algo pessoal do presidente dos EUA ou resulta de uma verdadeira preocupação com a crescente influência chinesa na América Latina? Há anos que existe nos Estados Unidos uma preocupação com a crescente influência chinesa na América Latina. Então, a articulação do corolário Trump certamente é, em parte, motivada por isso. E isso será, ao meu ver, uma das principais fontes de fricção, porque até governos ideologicamente aliados a Trump, como a Argentina ou agora o Chile, dificilmente vão querer abrir mão de seus laços económicos com a China. Porque isso é estrutural, ou seja, mesmo no governo Bolsonaro o Brasil não reduziu os seus laços económicos e comerciais com a China. Inclusive, durante o governo Bolsonaro o comércio entre Brasil e China cresceu. Mas, certamente, a contenção ou até reversão da influência chinesa no hemisfério ocidental é um dos objetivos do corolário Trump. E a grande pergunta é até que ponto os Estados Unidos estão dispostos a pressionar governos da região a se afastarem da China. A meu ver, a estratégia de Trump é uma boa notícia para a China, na verdade, porque vai acabar aproximando a América do Sul, sobretudo, da China, porque vai buscar ampliar seus laços para se defender, ou seja, para reduzir a sua vulnerabilidade e exposição aos Estados Unidos..Senado aprova resolução que pode limitar os poderes de guerra de Trump. Venezuela liberta presos políticos.Europa discute resposta aos EUA em caso de anexação da Gronelândia