Polónia quer ver um exército europeu nascer a leste
As palavras são do ministro dos Negócios Estrangeiros, Radoslaw Sikorski, ao participar esta terça-feira no Fórum de Segurança de Varsóvia: "Creio que até ao final desta década teremos um exército combinado, mesmo que seja apenas na região do Báltico e na frente oriental, e Putin teria de estar louco para o atacar." O ministro não se referia à presença da NATO.
Não é a primeira vez que Sikorski menciona a necessidade da criação de um exército comum. Em agosto, em entrevista ao jornal grego Kathimerini, advogou por algo ligeiramente diferente, uma legião europeia. "Enquanto União Europeia, precisamos de uma integração militar muito mais profunda. É por isso que defendo com veemência a criação de uma Legião Europeia, uma força permanente e especializada que poderia recrutar profissionais experientes do conjunto mais amplo da família europeia, incluindo veteranos ucranianos", disse.
Ao justificar esta aparente duplicação de meios, afirmou que "os interesses são complementares, não contraditórios" e para construir "um pilar europeu mais sólido dentro de uma NATO mais forte".
Na sequência da mais recente crise entre os Estados Unidos de Trump e a Europa, quando as ameaças da anexação da Gronelândia levaram os dinamarqueses e franceses a correr com meios militares para dissuadir que o mais poderoso aliado invadisse outro, o tema de um exército europeu voltou à ordem do dia. Mas foi de pronto rejeitado pela chefe da diplomacia europeia. "Aqueles que afirmam que precisamos de um exército europeu, talvez não tenham realmente refletido sobre isto de forma prática", disse Kaja Kallas. "Se já se faz parte da NATO, então não se pode criar um exército separado. E se, por exemplo, existisse o exército europeu e depois o da NATO, então a responsabilidade acabaria por se perder entre as partes. E isto é extremamente, extremamente perigoso", considerou a dirigente estónia.
A França é o país europeu que historicamente mais tem pugnado pela estratégia de autonomia europeia. A sua mais recente iniciativa, de cooperação nuclear, reuniu outros sete países, Polónia incluída. Mas nem Paris (nem outra capital) tem defendido a criação de um exército europeu.
A anexação da Crimeia e a guerra no Donbass transformaram a paisagem de segurança europeia, com a NATO a adaptar-se a uma hipotética ameaça russa. Primeiro, em 2017, com a formação de quatro grupos de combate multinacionais na Estónia, Letónia, Lituânia e Polónia. Após a invasão russa à Ucrânia, em 2022, foram criados mais quatro grupos, na Eslováquia, Hungria, Roménia e Bulgária. Enquanto alguns destes foram crescendo de batalhões para brigadas, foi criado um nono grupo de combate, na Finlândia. Portugal tem participado em várias missões de reforço militar, seja na Lituânia, Roménia ou Eslováquia, com meios terrestres e aéreos, quer ainda no Mar Báltico.
A Polónia tem vivido anos de tensões políticas internas entre o ultraconservadorismo nacionalista e eurocético, representado na figura do atual presidente, Karol Nawrocki, e o centro-direita europeísta do primeiro-ministro Donald Tusk. Mas tem havido unanimidade na prioridade da reconversão das forças armadas. Ao ponto de, em agosto, Tusk ter anunciado que o seu país terá o maior exército europeu. "O nosso exército, as nossas forças armadas, vão em breve ser os maiores da Europa. Estamos a construir uma força que vai decidir o destino da região com a sua modernidade e com o seu imenso número, e o mundo inteiro valoriza isso, especialmente os nossos aliados."
Varsóvia mais do que duplicou o número de militares de 2014 para cá (de 100 mil para 220 mil) e tem como meta 300 mil no ativo e 200 mil na reserva. Além disso, tem investido em meios de combate como aviões de caça ou tanques de guerra (irá ter, em 2032, 1600 tanques, mais do que Alemanha, França, Itália e Reino Unido em conjunto) para que Moscovo não equacione invadir o país.
No mês passado, o chefe da diplomacia polaca foi notícia por ter afirmado que as forças europeias da NATO, excluindo portanto os EUA, poderiam "derrotar a Rússia de forma bastante rápida" em caso de ataque de Moscovo. Nikolai Patrushev, conselheiro de Vladimir Putin, retrucou: "Caso a Polónia participe em ações militares contra a Rússia, o nosso país utilizará todo o arsenal de forças e meios à sua disposição e o Estado polaco deixaria de existir em dois ou três dias."

