Pedido de desculpas pela escravatura? Reino Unido "aberto" a uma retratação, mas sem reparações financeiras
O Reino Unido poderá vir a pedir desculpas pelo seu papel no tráfico transatlântico de pessoas escravizadas. Em um artigo de opinião publicado no The Guardian este sábado, 31 de outubro, o primeiro-ministro, o trabalhista Andy Burnham, disse estar "aberto" a "ouvir os apelos por um pedido formal de desculpas em nome do Estado britânico".
No entanto, embora admita a possibilidade de reconhecer o papel do país neste crime histórico, qualquer manifestação oficial não deve envolver reparações financeiras. "Não creio que o povo britânico de hoje possa ser responsabilizado por erros históricos, por mais hediondos que sejam, que ocorreram numa época diferente, sob leis diferentes e nos quais não tiveram qualquer participação pessoal", escreveu Andy Burnham.
Este domingo, 1º de novembro, o ministro das Finanças, John Healey, reforçou o argumento do premiê. Numa entrevista à BBC, Healey disse que "considerar um pedido formal de desculpas não significa aceitar que os britânicos atuais devam assumir a responsabilidade financeira por atos ocorridos há centenas de anos, nos quais não tiveram qualquer participação.
Dados oficiais do Reino Unido mostram que durante 250 anos, de meados do século XVI a finais do XIX, mais de três milhões de homens, mulheres e crianças de países africanos foram traficados em navios britânicos, levados para as colónias nas Caraíbas. Apenas em 1833 a escravatura foi abolida pelo parlamento, altura em que havia mais de 800 mil pessoas escravizadas naquelas plantações.
O Governo britânico nunca pagou qualquer inmdenização às pessoas que foram escravizadas, nem aos países afetados, mas a abolição da escravatura só avançou porque os donos dos escravos foram recompensados pelo seu 'prejuízo'. O montante de 20 milhões de libras da altura foi resultado de um empréstimo e equivale a quase 3,7 mil milhões de euros nos dias de hoje, dívida que só foi totalmente quitada em 2015.
A manifestação do premiê e do ministro das Finanças surge no momento em que o rei, Carlos III, está numa viagem às Caraíbas. A visita antecede a realização da cimeira da Commonwealth, em Antígua e Barbuda, a partir desta segunda-feira, 2 de novembro.
O tema das reparações históricas é prioritário para os países da região, que aliaram-se a constituir a Caribbean Reparations Commissiom - Caricom. O rei tem dado sinais de que é sensível ao tema. Durante um discurso nas Bahamas logo no arranque da visita, Carlos, citado pela Reuters, afirmou que é “justo” reconhecer “o enorme sofrimento e as injustiças do passado nestas ilhas e para além delas”. No passado, o rei já tinha manifestado a sua “tristeza pessoal” e descreveu esse tráfico como uma “atrocidade chocante” que “mancha para sempre a nossa história”.
Esta viagem surge depois de as Nações Unidas terem aprovado uma resolução, apresentada pelo Gana (que faz parte da Commonwealth), que declara o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas o crime mais grave contra a humanidade e apela a uma justiça reparadora. A Jamaica já fez uma petição formal de reparações ao rei, que deverá ser analisada em março de 2027.
A secretária-geral da Commonwealth, Shirley Botchwey, defendeu que este é o momento de discutir as reparações. Questionada pela Sky News se o rei deveria pedir desculpa, disse: “Não faria mal se isso acontecesse.”

