O conceito de geringonça, a propósito da aliança parlamentar em Portugal, de 2015 a 2019, entre o PS e os partidos, Bloco de Esquerda, PCP e Verdes, à sua esquerda, nunca foi fácil de explicar no Brasil. “Mas afinal o que tem isso de geringonça?”, perguntou um dia um deputado federal ao DN. De facto, na política brasileira, onde coabitam cerca de 30 partidos, parte deles sem ideologia definida, em pactos, uniões, arranjos e acordos, por vezes, contranatura, as geringonças são de outro patamar..Nas Municipais, o equivalente às Autárquicas portuguesas, essas alianças bizarras são ainda mais comuns. Por exemplo, o Partido dos Trabalhadores (PT), a formação fundada por Lula da Silva, e o Partido Liberal (PL), onde, desde 2021, milita Jair Bolsonaro, concorrem juntos a 85 das 5569 prefeituras, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral, que, porém, contemplam eventuais substituições até 16 de setembro. As eleições são a 6 de outubro, a primeira volta, e a 27 de outubro, a eventual segunda volta apenas nos 99 municípios com mais de 200 mil habitantes..Um levantamento do portal G1 mostra que essas alianças locais entre Lula e Bolsonaro estão espalhadas por todas as cinco regiões do Brasil, com especial incidência nos estados do Maranhão, reduto tradicional da esquerda, e de São Paulo, que vota mais à direita, com 22 e 12 casos, respetivamente..Em 12 cidades brasileiras, o candidato a prefeito é do PL, apoiado pelo PT, em três é do PT, apoiado pelo PL, e em 70 é de outro partido, apoiado por ambos, como em São Luís, capital do citado Maranhão, onde Duarte Junior, do PSB, a formação do vice-presidente Geraldo Alckmin, conseguiu reunir 12 formações numa coligação, entre os quais PT e PL..“Nós estamos colocando no mesmo palanque pessoas que têm ideologias que, para muitos, não dialogam, mostrando que, muito maior do que as nossas diferenças é a nossa vontade de resolver os reais problemas de São Luís”, disse o candidato na convenção que o ratificou, citado pela revista Veja..Na plateia, André Fufuca, líder maranhense do Progressistas (PP), apoiante fervoroso de Bolsonaro nas últimas eleições e... ministro do Desporto de Lula desde setembro de 2023, quando o presidente da República procurou atrair, via nomeações para o executivo, mais apoio parlamentar de partidos de centro e de direita, como o PP..Para Mayra Goulart, professora de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o facto de o bolsonarismo não estar conotado com nenhum partido ajuda a estas alianças aparentemente bizarras. “Enquanto Lula tem uma trajetória identificada com o PT desde a sua origem, Bolsonaro passou por muitos partidos e o bolsonarismo não é um movimento conotado com um partido, o PL, onde ele milita, é do [presidente partidário] Valdemar Costa Neto, cujo interesse maior nestas eleições é ganhar prefeituras”, disse ao DN..Por outro lado, a académica sublinha a distinção, muito mais forte num país de dimensões continentais do que em Portugal, entre política nacional e política local. “Quando se vota em deputados federais aqui no Brasil, o vínculo entre o eleitor e o eleito é distante, nas Municipais, pelo contrário, tanto PT como PL têm como estratégia a aproximação do eleitor com o eleito porque esse eleito é alguém que tem de trabalhar na cidade, que vive a cidade, que conhece a cidade.”.“Ou seja, nas Municipais, a não ser nas megalópoles São Paulo ou Rio de Janeiro, as temáticas mais nacionalizadas muitas vezes não encontram eco, a preferência é por lideranças, trajetórias e discursos locais, isso explica a desvinculação e a autonomia dos pleitos municipais em relação aos nacionais”, conclui..Valdemar Costa Neto, presidente do PL, um partido que esteve na base de apoio dos primeiros Governos de Lula, indicando inclusivamente o vice-presidente José Alencar, nos de Dilma Rousseff, no de Michel Temer e depois no de Bolsonaro, disse na rede social X que “não existe nenhuma hipótese de coligação com o PT” embora a realidade no terreno o desminta. Já o PT afirma que “o único veto”, decidido pela direção nacional do partido, “é para candidatos identificados com o bolsonarismo, independentemente de pertencerem ao partido de Bolsonaro.”.Entretanto, nas eleições de 2020, os dois partidos concorreram juntos em 385 cidades e venceram em 213 delas. Destas, em 21 casos, PT e PL partilharam mesmo os cargos de prefeito e de vice-prefeito. Com a entrada de Bolsonaro em 2021 no PL, porém, só sobraram sete parcerias pelo Brasil. Como em Anchieta, no estado de Santa Catarina, onde Ivan José Canci, do PT, de Lula, e Edgar José Benetti, do PL, de Bolsonaro, governam harmoniosamente, segundo reportagem do jornal O Globo..“Não há muito espaço para a polarização num município pequeno quando quem governa se preocupa com o concreto, é lógico que existem diferenças entre mim e o vice, mas elas não atrapalham o Governo. O PL daqui não é o PL do Bolsonaro, dos radicais, da extrema direita, tem uma relação mais próxima com os partidos de centro e esquerda”, resumiu o prefeito.