Agnieszka Bieńczyk-Missala
Agnieszka Bieńczyk-MissalaPaulo Spranger

“Para a Polónia, uma guerra com a Rússia seria uma questão existencial”

Vice-reitora da Universidade de Varsóvia, diretora do Departamento de Estudos Estratégicos e Segurança Internacional, Agnieszka Bieńczyk-Missala esteve em Portugal para o Estoril Political Forum.
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A Polónia é membro da NATO desde 1999, aderiu à União Europeia em 2004 e, recentemente, o PIB ultrapassou a fasquia do bilião de dólares. Isso colocou-a mesmo à porta do G20, o grupo das 20 maiores economias do mundo. Podemos dizer que a Polónia é hoje um país bem-sucedido?

Sim, tenho consciência que a Polónia tem uma imagem cada vez melhor devido a um grande sucesso. A Polónia era um país comunista após a Segunda Guerra Mundial e no final da década de 80 iniciámos o processo de transformação. Reorientámos a política externa da Polónia de Leste para Oeste. Naturalmente, os nossos objetivos estratégicos eram a adesão à NATO e à União Europeia. Trabalhámos muito e, de um modo geral, a sociedade polaca é uma sociedade de trabalhadores esforçados. A Polónia foi um dos países que mais cresceu nas últimas três décadas.

Ao observarmos o sucesso da Polónia pós-comunismo, olhamos também para leste e sobretudo para a Rússia, um inimigo histórico. A relação com a Rússia continua a ser um desafio para a Polónia?

Sim, a Polónia tem uma localização geopolítica muito especial. Historicamente, sempre estivemos entre grandes potências. Hoje, felizmente, estamos juntos com a Alemanha na União Europeia e na NATO. Mas a Rússia ainda representa um desafio. Infelizmente, na década de 90, quando a Rússia iniciou a guerra na Chechénia, deixámos de acreditar no sucesso da democratização na Rússia. Depois disso, foram guerras e mais guerras. É claro que, especialmente agora, quando a Rússia é um país agressor, que atacou a Ucrânia, primeiro anexando a Crimeia em 2014 e atacando-a novamente em 2022, afirmamos abertamente que a Rússia representa uma ameaça não só para a Polónia, mas para toda a Europa.

Ao analisar a situação geopolítica da Polónia, é evidente a grande importância da União Europeia, bem como a relação com os Estados Unidos. Os polacos têm procurado manter uma relação muito amigável com os Estados Unidos. Os EUA continuam muito importantes para a segurança da Polónia?

Se perguntar sobre a sociedade, preciso de dizer que ela está a mudar. No ano passado, as sondagens mostraram que os polacos deixaram de confiar tanto nos EUA como antes. No passado, pode dizer-se que os polacos formavam uma das sociedades mais pró-americanas. Mas, infelizmente, tendo em conta a nova estratégia dos EUA e a imprevisibilidade da administração de Donald Trump, a situação alterou-se. Contudo, é claro que para o governo, para o presidente, os EUA continuam a ser os parceiros mais importantes da Polónia. A Polónia não quer ter de escolher entre os EUA e a UE. Em vez disso, precisamos de encontrar uma harmonia estratégica. Queremos fazer o nosso melhor para ter as melhores relações possíveis com os EUA e, claro, com os nossos parceiros europeus.

Permita-me mudar um pouco de assunto e abordar a Polónia como potência cultural. Por exemplo, trata-se de um país com cerca de 40 milhões de habitantes, mas tem cinco prémios Nobel da Literatura. Será isto uma prova da vitalidade da cultura na Polónia?

Pessoalmente, é claro que sou muito ligada à cultura polaca. Quando penso na cultura polaca, na literatura polaca, creio que, em certa medida, é produto da nossa difícil história. Os melhores poemas e romances polacos foram o resultado da nossa experiência. Nomes como Adam Mickiewicz ou Juliusz Słowacki foram relevantes na altura em que a Polónia estava apagada do mapa, dividida entre grandes potências. Essa partição inspirou os artistas a pintar e os escritores a produzir literatura. Por isso, a literatura polaca fala muito sobre sofrimento.

Olhando para a história, é difícil compreender como foi possível, no final do século XVIII, o desaparecimento da Polónia, quando o território foi dividido entre as três potências vizinhas, Rússia, Áustria e Prússia. Sobretudo porque, apenas um século antes, a Polónia era tão forte que Jan Sobieski estava à frente do seu exército a salvar Viena do cerco dos otomanos. Esta partição entre as potências vizinhas, que só terminou no fim da Primeira Guerra Mundial, é ainda um trauma que marca a nação polaca?

Sim, acredito que seja. E é por isso que tenho tanto medo dos populistas, que utilizam frequentemente a noção de soberania no contexto da União Europeia, entre outros. Certamente, tendo em conta que as forças da Polónia tiveram de esperar pela independência. A Polónia foi, sem dúvida, historicamente um Estado muito bem sucedido, que depois desapareceu durante 123 anos, seguindo-se a Primeira Guerra Mundial, a Segunda Guerra Mundial e o período comunista. Por isso, a noção de soberania e independência é muito importante para a Polónia. Além disso, considero que hoje, quando comparamos em sondagens a postura em relação a uma possível defesa do país, a percentagem de polacos dispostos a fazê-lo é muito maior do que noutros países europeus. Este é o resultado da nossa história difícil. Além disso, claro, compreendemos a ameaça vinda do Leste.

Mesmo em termos de despesas militares, a Polónia gasta mais em relação ao PIB do que os outros países da NATO, já perto de 5% exigidos pelos Estados Unidos nesta segunda presidência de Donald Trump. Isto não se deve apenas à situação geopolítica, mas também a este sentido de história?

Sim. Além disso, para a Polónia, uma guerra com a Rússia seria uma questão existencial. Por isso, os polacos, assim como todos os países mais próximos da Rússia, gastam mais em defesa. Logo, para a Polónia, isto é óbvio e aceite. Estamos conscientes de que, por exemplo, os gastos sociais não são tão elevados e que poderíamos melhorar outras áreas da nossa vida pública. Mas, de um modo geral, existe um consenso na sociedade de que temos de investir na defesa neste momento.

A Segunda Guerra Mundial foi também um momento muito traumático, com a invasão dos alemães a 1 de setembro de 1939, depois dos soviéticos no espaço de duas semanas, e mais tarde a maioria dos campos de concentração nazis a serem instalados na Polónia ocupada. Temos em Jan Karski, agora homenageado no Estoril Political Forum, um herói, não só da Polónia, mas podemos dizer da humanidade, pela denúncia do Holocausto. É uma figura bem conhecida na Polónia?

Sim, é conhecido. Tenho também uma ligação pessoal com a Fundação Jan Karski. No passado, recebi uma bolsa de estudos da fundação, pelo que tive a oportunidade de estudar em Georgetown, onde Jan Karski foi professor após a Segunda Guerra Mundial. Ele é muito importante porque foi o mensageiro da resistência polaca. Forneceu informações sobre o Holocausto às potências ocidentais. Era uma pessoa que se opunha ao antissemitismo e ao racismo, sendo, por isso, um excelente exemplo para os jovens. Mas ele próprio viveu a grande indiferença das potências. Por isso, lutou arduamente para mostrar o Holocausto à comunidade internacional, mesmo se falhou. Ele disse: “Falhei, não salvei ninguém.”Ainda hoje, ele é uma fonte de inspiração para nós.

Falhou no sentido que em 1943 era ainda muito difícil acreditar naquela informação sobre o extermínio de judeus pelos nazis? Até para Felix Frankfurter, juiz do Supremo Tribunal dos EUA, ele próprio um judeu, contactado por Karski?

Sim, foi isso que o juiz Frankfurter lhe disse, explicando que não afirmou que Jan Karski mentia, mas que era muito difícil compreender e acreditar que um genocídio como aquele pudesse acontecer na Europa naquela época.

Referiu anteriormente o fim do regime comunista e a construção da Polónia democrática moderna. Muitas pessoas dizem que há duas figuras decisivas neste processo: João Paulo II e Lech Walesa. Como são vistos hoje na Polónia? Karol Wojtyla, o papa polaco, morreu em 2005, mas o eletricista líder do sindicato Solidariedade está com 82 anos.

Para a minha geração, posso dizer que estas pessoas foram as mais importantes. João Paulo II, a sua missão, como é evidente, tinha várias dimensões. Dimensão religiosa, dimensão política e também, em certa medida, dimensão cultural. Lech Walesa foi o líder do movimento Solidariedade. Com palavras simples, conseguiu liderar pessoas e criar o maior movimento social não violento da Europa, capaz de se opor ao regime comunista. Esta é uma história que a minha geração conhece bem. Também encontrei João Paulo II várias vezes. Essa foi também a minha experiência pessoal. A geração mais nova, ou seja, as pessoas que nasceram na União Europeia e não experimentaram esta transformação, provavelmente não valorizam tanto João Paulo II e Lech Walesa como a minha geração.

Só mais uma questão. Li um livro do americano George Friedman, há quase 20 anos , que era muito otimista sobre a Polónia no contexto internacional. O título do livro era Os Próximos 100 Anos. O especialista em geopolítica via a Polónia como uma futura grande potência. Não lhe pergunto se a Polónia será um dia uma grande potência, mas sim se está otimista em relação ao futuro do seu país?

Pergunta difícil, pois tenho consciência que a realidade internacional está muito complicada neste momento. A Polónia atravessa um momento extremamente difícil, sendo um país democrático ainda recente. Está nesse período pós-1989. Por um lado, temos as melhores conquistas económicas. Mas, por outro lado, há uma guerra junto das nossas fronteiras. Estamos conscientes dos desafios internos da União Europeia, do movimento populista e das tendências de desintegração. Estamos conscientes da imprevisibilidade da política dos Estados Unidos. Neste momento, temos a sensação de que o nosso ambiente internacional está em risco. É por isso que, claro, tento ser otimista, mas sei que existem grandes ameaças à nossa liberdade.

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Se a Polónia cair, ninguém na Europa está a salvo
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