A Polónia é membro da NATO desde 1999, aderiu à União Europeia em 2004 e, recentemente, o PIB ultrapassou a fasquia do bilião de dólares. Isso colocou-a mesmo à porta do G20, o grupo das 20 maiores economias do mundo. Podemos dizer que a Polónia é hoje um país bem-sucedido?Sim, tenho consciência que a Polónia tem uma imagem cada vez melhor devido a um grande sucesso. A Polónia era um país comunista após a Segunda Guerra Mundial e no final da década de 80 iniciámos o processo de transformação. Reorientámos a política externa da Polónia de Leste para Oeste. Naturalmente, os nossos objetivos estratégicos eram a adesão à NATO e à União Europeia. Trabalhámos muito e, de um modo geral, a sociedade polaca é uma sociedade de trabalhadores esforçados. A Polónia foi um dos países que mais cresceu nas últimas três décadas.Ao observarmos o sucesso da Polónia pós-comunismo, olhamos também para leste e sobretudo para a Rússia, um inimigo histórico. A relação com a Rússia continua a ser um desafio para a Polónia?Sim, a Polónia tem uma localização geopolítica muito especial. Historicamente, sempre estivemos entre grandes potências. Hoje, felizmente, estamos juntos com a Alemanha na União Europeia e na NATO. Mas a Rússia ainda representa um desafio. Infelizmente, na década de 90, quando a Rússia iniciou a guerra na Chechénia, deixámos de acreditar no sucesso da democratização na Rússia. Depois disso, foram guerras e mais guerras. É claro que, especialmente agora, quando a Rússia é um país agressor, que atacou a Ucrânia, primeiro anexando a Crimeia em 2014 e atacando-a novamente em 2022, afirmamos abertamente que a Rússia representa uma ameaça não só para a Polónia, mas para toda a Europa.Ao analisar a situação geopolítica da Polónia, é evidente a grande importância da União Europeia, bem como a relação com os Estados Unidos. Os polacos têm procurado manter uma relação muito amigável com os Estados Unidos. Os EUA continuam muito importantes para a segurança da Polónia?Se perguntar sobre a sociedade, preciso de dizer que ela está a mudar. No ano passado, as sondagens mostraram que os polacos deixaram de confiar tanto nos EUA como antes. No passado, pode dizer-se que os polacos formavam uma das sociedades mais pró-americanas. Mas, infelizmente, tendo em conta a nova estratégia dos EUA e a imprevisibilidade da administração de Donald Trump, a situação alterou-se. Contudo, é claro que para o governo, para o presidente, os EUA continuam a ser os parceiros mais importantes da Polónia. A Polónia não quer ter de escolher entre os EUA e a UE. Em vez disso, precisamos de encontrar uma harmonia estratégica. Queremos fazer o nosso melhor para ter as melhores relações possíveis com os EUA e, claro, com os nossos parceiros europeus.Permita-me mudar um pouco de assunto e abordar a Polónia como potência cultural. Por exemplo, trata-se de um país com cerca de 40 milhões de habitantes, mas tem cinco prémios Nobel da Literatura. Será isto uma prova da vitalidade da cultura na Polónia?Pessoalmente, é claro que sou muito ligada à cultura polaca. Quando penso na cultura polaca, na literatura polaca, creio que, em certa medida, é produto da nossa difícil história. Os melhores poemas e romances polacos foram o resultado da nossa experiência. Nomes como Adam Mickiewicz ou Juliusz Słowacki foram relevantes na altura em que a Polónia estava apagada do mapa, dividida entre grandes potências. Essa partição inspirou os artistas a pintar e os escritores a produzir literatura. Por isso, a literatura polaca fala muito sobre sofrimento.Olhando para a história, é difícil compreender como foi possível, no final do século XVIII, o desaparecimento da Polónia, quando o território foi dividido entre as três potências vizinhas, Rússia, Áustria e Prússia. Sobretudo porque, apenas um século antes, a Polónia era tão forte que Jan Sobieski estava à frente do seu exército a salvar Viena do cerco dos otomanos. Esta partição entre as potências vizinhas, que só terminou no fim da Primeira Guerra Mundial, é ainda um trauma que marca a nação polaca?Sim, acredito que seja. E é por isso que tenho tanto medo dos populistas, que utilizam frequentemente a noção de soberania no contexto da União Europeia, entre outros. Certamente, tendo em conta que as forças da Polónia tiveram de esperar pela independência. A Polónia foi, sem dúvida, historicamente um Estado muito bem sucedido, que depois desapareceu durante 123 anos, seguindo-se a Primeira Guerra Mundial, a Segunda Guerra Mundial e o período comunista. Por isso, a noção de soberania e independência é muito importante para a Polónia. Além disso, considero que hoje, quando comparamos em sondagens a postura em relação a uma possível defesa do país, a percentagem de polacos dispostos a fazê-lo é muito maior do que noutros países europeus. Este é o resultado da nossa história difícil. Além disso, claro, compreendemos a ameaça vinda do Leste.Mesmo em termos de despesas militares, a Polónia gasta mais em relação ao PIB do que os outros países da NATO, já perto de 5% exigidos pelos Estados Unidos nesta segunda presidência de Donald Trump. Isto não se deve apenas à situação geopolítica, mas também a este sentido de história?Sim. Além disso, para a Polónia, uma guerra com a Rússia seria uma questão existencial. Por isso, os polacos, assim como todos os países mais próximos da Rússia, gastam mais em defesa. Logo, para a Polónia, isto é óbvio e aceite. Estamos conscientes de que, por exemplo, os gastos sociais não são tão elevados e que poderíamos melhorar outras áreas da nossa vida pública. Mas, de um modo geral, existe um consenso na sociedade de que temos de investir na defesa neste momento.A Segunda Guerra Mundial foi também um momento muito traumático, com a invasão dos alemães a 1 de setembro de 1939, depois dos soviéticos no espaço de duas semanas, e mais tarde a maioria dos campos de concentração nazis a serem instalados na Polónia ocupada. Temos em Jan Karski, agora homenageado no Estoril Political Forum, um herói, não só da Polónia, mas podemos dizer da humanidade, pela denúncia do Holocausto. É uma figura bem conhecida na Polónia?Sim, é conhecido. Tenho também uma ligação pessoal com a Fundação Jan Karski. No passado, recebi uma bolsa de estudos da fundação, pelo que tive a oportunidade de estudar em Georgetown, onde Jan Karski foi professor após a Segunda Guerra Mundial. Ele é muito importante porque foi o mensageiro da resistência polaca. Forneceu informações sobre o Holocausto às potências ocidentais. Era uma pessoa que se opunha ao antissemitismo e ao racismo, sendo, por isso, um excelente exemplo para os jovens. Mas ele próprio viveu a grande indiferença das potências. Por isso, lutou arduamente para mostrar o Holocausto à comunidade internacional, mesmo se falhou. Ele disse: “Falhei, não salvei ninguém.”Ainda hoje, ele é uma fonte de inspiração para nós.Falhou no sentido que em 1943 era ainda muito difícil acreditar naquela informação sobre o extermínio de judeus pelos nazis? Até para Felix Frankfurter, juiz do Supremo Tribunal dos EUA, ele próprio um judeu, contactado por Karski?Sim, foi isso que o juiz Frankfurter lhe disse, explicando que não afirmou que Jan Karski mentia, mas que era muito difícil compreender e acreditar que um genocídio como aquele pudesse acontecer na Europa naquela época.Referiu anteriormente o fim do regime comunista e a construção da Polónia democrática moderna. Muitas pessoas dizem que há duas figuras decisivas neste processo: João Paulo II e Lech Walesa. Como são vistos hoje na Polónia? Karol Wojtyla, o papa polaco, morreu em 2005, mas o eletricista líder do sindicato Solidariedade está com 82 anos.Para a minha geração, posso dizer que estas pessoas foram as mais importantes. João Paulo II, a sua missão, como é evidente, tinha várias dimensões. Dimensão religiosa, dimensão política e também, em certa medida, dimensão cultural. Lech Walesa foi o líder do movimento Solidariedade. Com palavras simples, conseguiu liderar pessoas e criar o maior movimento social não violento da Europa, capaz de se opor ao regime comunista. Esta é uma história que a minha geração conhece bem. Também encontrei João Paulo II várias vezes. Essa foi também a minha experiência pessoal. A geração mais nova, ou seja, as pessoas que nasceram na União Europeia e não experimentaram esta transformação, provavelmente não valorizam tanto João Paulo II e Lech Walesa como a minha geração.Só mais uma questão. Li um livro do americano George Friedman, há quase 20 anos , que era muito otimista sobre a Polónia no contexto internacional. O título do livro era Os Próximos 100 Anos. O especialista em geopolítica via a Polónia como uma futura grande potência. Não lhe pergunto se a Polónia será um dia uma grande potência, mas sim se está otimista em relação ao futuro do seu país?Pergunta difícil, pois tenho consciência que a realidade internacional está muito complicada neste momento. A Polónia atravessa um momento extremamente difícil, sendo um país democrático ainda recente. Está nesse período pós-1989. Por um lado, temos as melhores conquistas económicas. Mas, por outro lado, há uma guerra junto das nossas fronteiras. Estamos conscientes dos desafios internos da União Europeia, do movimento populista e das tendências de desintegração. Estamos conscientes da imprevisibilidade da política dos Estados Unidos. Neste momento, temos a sensação de que o nosso ambiente internacional está em risco. É por isso que, claro, tento ser otimista, mas sei que existem grandes ameaças à nossa liberdade. .Se a Polónia cair, ninguém na Europa está a salvo .O caminho para a prosperidade