Democratas fizeram a festa em Nova Iorque.
Democratas fizeram a festa em Nova Iorque.Foto: EPA/Olga Fedorova

Onda azul nos EUA. Democratas conquistam Câmara e Senado. Trump admite trabalhar com oposição, mas ameaça com "veto"

Presidente reconheceu a derrota, mas prometeu lutar nos seus dois últimos anos de mandato, numa noite em que o Partido Democrata recuperou o controlo de ambas as câmaras do Congresso.
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Facilmente reeleito no seu 8.º distrito de Nova Iorque, Hakeem Jeffries resumiu a noite eleitoral nos EUA com um "hoje começa a grande recuperação americana". O atual líder da minoria democrata na Câmara dos Representantes tem fortes probabilidades de se tornar, em janeiro, no primeiro speaker negro da história dos EUA. O democrata de Brooklyn comentava assim a onda azul que varreu a América, numas eleições intercalares que confirmaram as sondagens e mostraram o descontentamento dos americanos com as políticas do presidente Donald Trump. 

Do Kansas ao Maine, do Texas à Geórgia, a noite foi dos democratas que garantiram algumas vitórias que pareciam tudo menos certas. Desta vez as sondagens mostraram-se certeiras. E se tudo já indicava que a Câmara dos Representantes fosse conquistada pelos democratas, rapidamente se percebeu que o partido garantira também a maioria no Senado. 

Neste momento a grande incógnita é qual a dimensão da vantagem democrata, sobretudo na Câmara.

Pelo menos seis estados elegeram o seu primeiro senador democrata em décadas, como lembrou o New York Times. No Kansas, Adam Hamilton tornou-se o primeiro senador democrata eleito desde 1932. No Texas e no Maine, os eleitores não escolhiam um democrata desde 1988. Na Carolina do Sul, não elegiam um desde 1998. No Iowa e na Carolina do Norte, os americanos elegeram pela última vez um senador democrata em 2008.

E houve vários feitos inéditos. O New Hampshire concedeu a vitória a Chris Pappas, tornando-o no primeiro homem assumidamente gay eleito para o Senado. O Minnesota escolheu Peggy Flanagan, tornando-a a primeira mulher nativa americana eleita para o Senado. 

Mas os "primeiros" não se ficaram por aqui. No Texas, a deputada estadual e advogada democrata Gina Hinojosa é a nova governadora do estado, tendo derrotado o governador republicano em exercício Greg Abbott, que procurava garantir um quarto mandato consecutivo. Aos 52 anos, Hinojosa atinge múltiplos marcos históricos: torna-se a primeira mulher de origem hispânica a governar o Texas e a primeira democrata a liderar o executivo estadual desde a icónica Ann Richards em 1990 — sendo apenas a terceira mulher a ocupar o gabinete na história do estado.

Na Carolina do Sul, Annie Andrews tornou-se a primeira senadora eleita nesse estado (Darline Graham foi nomeada para o Senado após a morte do irmão, Lindsey Graham), e o Iowa elegeu Josh Turek, que deverá tornar-se o primeiro ex-atleta paralímpico a ocupar um lugar no Senado dos EUA.

Um dos grandes vencedores da noite foi James Talarico. Dirigindo-se aos seus apoiantes, num comício em Austin, depois de ter sido eleito senador, este garantiu: "Acabámos de reconquistar o Texas". Sob fortes aplausos. o primeiro senador democrata do Texas em mais de três décadas afirmou: "Acabámos de mostrar que a política da divisão não faz frente à política do amor."

Talarico, de 37 anos, disse ainda que sempre "apostou nos jovens", "apostou nos imigrantes" e "apostou nos mais desfavorecidos", e que a sua campanha teve como objetivo enviar uma mensagem aos bilionários doadores de campanha de que "o poder pertence ao povo".

"Estarei sempre ao vosso serviço, lutarei sempre por vós", rematou.

Outra vitória em destaque foi a de Abdul El-Sayed no Michigan. Ainda antes de a AP confirmar que derrotara o republicano Mike Rogers, o candidato democrata já agradecera aos eleitores. "Apostaram no candidato mais improvável", afirmou diante de uma multidão de apoiantes.

"Michigan, mal posso esperar para vos servir", disse, passando a atacar o adversário, Mike Rogers, por ter conduzido uma campanha que fez da sua fé muçulmana uma questão central.

El-Sayed, um democrata progressista e crítico ferrenho de Israel, mantém assim o domínio do seu partido sobre um lugar crucial num estado disputado, apesar do apoio de última hora da sua rival nas primárias democratas, Haley Stevens, ao candidato republicano.

Abdul El-Sayed, de 42 anos, torna-se assim no primeiro senador muçulmano dos EUA quando assumir o cargo em janeiro.

Trump entre o tom conciliatório e ameaças de "veto"

Diante das projeções eleitorais que confirmaram a vitória do Partido Democrata e a perda republicana de ambas as câmaras do Congresso, o presidente Trump interveio telefonicamente na transmissão em direto da noite eleitoral do portal Politico.

Num tom contido, o atual inquilino da Casa Branca garantiu que a administração vai procurar pontes com a nova maioria: "Bem, vamos trabalhar com os democratas para garantir que as coisas correm bem para o nosso país. É muito importante."

Numa espécie de ronda pelos meios de comunicação americanos, Trump falou também à Fox News, tendo-se mostrado “um pouco surpreendido” com a dimensão da derrota republicana. 

Assumindo um tom conciliador, o presidente garantiu que há "muitas, muitas coisas" em que pode colaborar com os democratas no Congresso.

Trump admitiu que a guerra no Irão foi "parcialmente" responsável pela derrota republicana, admitindo que os preços dos combustíveis prejudicaram o partido durante a campanha – afirmando que as pessoas "não gostaram" de ter de pagar mais pela gasolina.

Mas na sua rede Truth Social, o tom de Trump foi menos conciliador. Depois de afirmar: "Eu não estava nos boletins de voto e, se estivesse, teríamos ganho POR MAIORIA ESMAGADORA!", o presidente publicou a foto de um dos seus famosos bonés vermelhos em que substituiu a sigla MAGA (Make America Great Again) por "VETO". Uma mensagem de que pretende bloquear a maioria democrata no Congresso com o veto presidencial.  

Do lado democrata, o líder da, até agora, minoria democrata no Senado dos EUA, Chuck Schumer, prometeu aos americanos que a "ajuda está a caminho" após a vitória histórica do partido nas intercalares.

Schumer afirmou que o partido não tenciona ceder aos desígnios de Donald Trump nem às ameaças do presidente americano sobre o poder de exercer o veto executivo contra qualquer projeto aprovado pelos democratas no parlamento.

"As pessoas votaram pela mudança e agora os democratas têm de cumprir a palavra. E vamos cumpri-la, com ou sem o presidente", advertiu o senador veterano de Nova Iorque.

Lusodescendentes. Costa eleito, Valadao em risco

O lusodescendente democrata Jim Costa foi reeleito para a Câmara dos Representantes dos EUA pelo 21º distrito da Califórnia, enquanto o republicano David Valadão está em risco de derrota no 22º distrito.

Jim Costa foi declarado vencedor quando estavam reportados menos de 40% dos votos, dada a vantagem que conseguiu quase de imediato sobre o candidato republicano, Kyle Kirkland. 

O lusodescendente, neto de imigrantes da ilha Terceira, nos Açores, está no Congresso desde 2005, já esteve em vários comités importantes e tem sido sempre reeleito por um eleitorado fiel.

Tanto Costa como Valadão representam distritos com uma forte população de origem portuguesa.

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