Obama em Lisboa: "Precisamos de mais líderes jovens porque líderes velhos não sabem como usar o telemóvel"
Foi uma Meo Arena cheia que recebeu Barack Obama nesta tarde de sábado. De fato cinzento e sem gravata, o antigo presidente dos EUA veio falar de liderança e resiliência e deixou uma mensagem clara: num mundo em mudança acelerada, "precisamos de mais líderes jovens porque os líderes velhos não sabem como usar o telemóvel". Choveram aplausos.
Orador principal na sexta edição do Game Changers Forum, em Lisboa, Obama sublinhou a importância de incutir "ética, valores, regras e respeito pelos outros" às novas gerações de líderes. Um trabalho que desenvolve não só na Fundação Obama, mas agora também através do Centro Presidencial Barack Obama, inaugurado em junho em Chicago.
"O mundo está mais pequeno e mais rápido. Historicamente, quando há grande disrupções, as pessoas sentem-se inseguras", recordou o antigo presidente, que partilhou o palco com Ricardo Parreira, fundador e ex-CEO da PHC Software, esta tarde no papel de moderador. E deixou o alerta: "Nessas alturas, as pessoas tendem a cair no radicalismo, no sectarismo".
Diante de uma plateia onde se viam algumas T-Shirts com o seu rosto, incluindo a imagem que se tornou mundialmente famosa nos cartaz com o slogan Yes We Can, Obama lembrou que a democracia é um regime muito recente se pensarmos na História da Humanidade. E que por isso é tão importante reafirmá-la e defendê-la.
"O radical na democracia é que todos são iguais aos olhos da lei. Todos temos votos, todos temos dignidade".
Sem nunca pronunciar o nome de Donald Trump, o seu sucessor na Casa Branca, Obama foi mesmo assim dizendo que "há uma força nos nossos países para recuperar as velhas castas", sublinhando que "nos EUA vende-se a ideia de 'verdadeiros americanos'", ou seja, de um regresso aos tempos em que "os negros estavam calados e as mulheres ficavam na cozinha".
Mas Obama também não poupou os liberais e a esquerda no geral, que acusou de serem muitas vezes "tecnocráticos e burocráticos" quando as pessoas procuram respostas às suas preocupações do dia. Perante o descontentamento das pessoas, não só "temos de ter novas instituições que funcionem mais depressa" como a esquerda não pode limitar-se a "falar de ideais bonitos mas muitas vezes sem conseguir apresentar soluções".
Filho de um queniano e de uma americana branca do Kansas, Obama fez história em 2008 ao tornar-se no primeiro afro-americano eleito presidente dos EUA. Nascido no Havai, criado pela mãe e pelos avós maternos, Obama passou ainda parte da infância na Indonésia depois de a mãe se mudar para esse país com o segundo marido. Aluno brilhante, foi o primeiro presidente negro da Harvard Law Review. Formado em Direito, foi durante um estágio num escritório de advogados em Chicago que conheceu a futura mulher, Michelle, que foi sua orientadora. Eleito para o Senado estadual do Illinois em 1996, oito anos depois ganha projeção nacional com o seu discurso na Convenção Nacional Democrata que confirma a escolha de John Kerry como candidato presidencial frente a George W. Bush.
Nesse mesmo ano é eleito para representar o Illinois no Senado federal. E apenas quatro anos depois protagonizou uma fulgurante corrida à presidência, durante a qual teve oportunidade de pôr em prática todos os seus dotes de orador em torno de uma mensagem de esperança e do slogan Yes We Can (Sim, podemos). Depois de derrotar a ex-primeira dama e senadora de Nova Iorque Hillary Clinton nas primárias democratas, viria a bater o veterano senador republicano John McCain nas urnas em novembro de 2008.
Em Lisboa, Obama começou por recordar que quando esteve na Casa Branca se rodeou de lusodescendentes. E enumerou: "O meu diretor político, o meu secretário da Energia, o fotógrafo", referindo-se a David Simas, Ernest Moniz e Pete Souza. E, "mais importante", disse, com um sorriso, os dois cães de água portugueses - Bo e Sunny.
Questionado sobre o que os líderes têm de perceber agora para garantir que a tecnologia, sobretudo a Inteligência Artificial, gera mais oportunidades do que cria desigualdades, Obama sublinhou que a mudança da IA "vai dar-se em dez anos, e não em 30 ou 50". O perigo disso é que "a tecnologia avança rapidamente, mas os governos e as sociedades mudam lentamente".
Perante este cenário, o homem que entre janeiro de 2009 e janeiro de 2017 se sentou na Sala Oval afirmou que "temos de criar um conjunto de regras para garantir a segurança" de todos. E para tal, é preciso começar pelos dois países mais poderosos do mundo: os EUA e a China. Uma tarefa difícil, sobretudo devido à "desconfiança" entre Washington e Pequim. Mas Obama não tem dúvidas: "temos de encontrar maneira de coordenar a regulação" entre EUA e China.
Olhando para os seus dois mandatos presidenciais, Obama recordou alguns dos momentos em que teve de tomar decisões difíceis. Um deles foi quando acabou por não ordenar um ataque à Síria mesmo depois de ter afirmado que o uso de armas químicas pelo regime de Bashar al-Assad ultrapassaria uma "linha vermelha".
"Quando era presidente, a maior parte das decisões que tomei não era óbvias. E tomei decisões que não foram as melhores para mim, politicamente, mas eram as melhores para o país". Quanto à Síria, recordou que "nos EUA o presidente não pode iniciar uma guerra sem aprovação do Congresso". A alusão ao presente não escapou ao público, que de novo recebeu as palavras de Obama com aplausos. Na altura, Obama autorizou ataques militares e operações aéreas na Síria, embora tenha evitado uma intervenção em larga escala contra o regime de Bashar al-Assad.
Neste sentido, o antigo presidente voltou à IA e ao facto de termos máquinas e algoritmos a tomar decisões em vez de humanos. "Pessoalmente acho que devíamos viver num mundo sem armas nucleares. Mas enquanto isso não acontece, não podemos ter uma máquina a decidir sobre lançar uma bomba nuclear. Tem de ser uma decisão humana e não só de uma pessoa, de várias", garantiu, insistindo que há ocasiões em que nenhuma tecnologia pode superar o discernimento e a capacidade de decisão humanas.
Ainda em relação às nova tecnologias, Obama recordou como quando foi presidente conheceu os líderes das grandes empresas tecnológicas quando estavam no início - recordou Mark Zuckerberg como um jovem de capuz num canto de uma sala e Elon Musk no lançamento do primeiro foguetão da Space X em Cabo Canaveral, na Florida. E se destacou que "são muito inteligentes", lançou também algumas farpas: "Não leem romances, não ouvem música. Essa estreiteza de pensamento reflete-se na tecnologia que constroem".
Perante isso, deixou a receita para o futuro: "Por isso é tão importante elevar as artes, elevar a cultura."
Com a ironia e sentido de humor a que habituou o mundo nos seus oito anos na presidência, Obama recordou os seus primeiros tempos na política, quando entrou para o Senado do Illinois. "Cheguei lá e comecei a ouvir os outros políticos e percebi que era como o liceu outra vez. Havia os miúdos maus, os populares, os que achavam que eram melhores que os outros. Depois cheguei ao Senado federal e percebi que era como o liceu. E finalmente, quando fui eleito presidente e cheguei ao G20 pensei: isto é como o liceu!"
Presidente entre janeiro de 2009 e janeiro de 2017, nos seus dois mandatos na Casa Branca Barack Obama teve de lidar com as consequências da crise financeira de 2008 e conseguiu fazer aprovar o Affordable Care Act, a lei conhecida como Obamacare, que alargou a cobertura de saúde a mais milhões de americanos, além de alguns avanços nos direitos civis e igualdades. Já em termos de política externa, Obama protagonizou a reaproximação a Cuba, assinou os Acordo de Paris sobre o Clima e negociou o acordo nuclear com o Irão. Tudo políticas que o seu sucessor, o republicano Donald Trump, iria reverter.
Em 2011, dez anos depois dos atentados de 11 de Setembro que fizeram quase três mil mortos nos EUA, uma operação militar americana no Paquistão matou Osama bin Laden, o líder da Al-Qaeda e cérebro dos ataques contra as Torres Gémeas em Nova Iorque e contra o Pentágono (um outro avião desviado pelos piratas do ar despenhou-se num campo na Pensilvânia após a revolta dos passageiros, pensa-se que se dirigia para o Capitólio). Foi um marco central da política antiterrorista da administração
Mas a Administração Obama não foi imune a críticas. Em termos de política externa, a intervenção na Líbia, onde o regime de Muammar Kadhafi caiu mas faltou estabilizar o país, ou a retirada do Iraque, de onde mandou sair a maioria das tropas em 2011, apenas para reforçar a presença militar em 2014 com a ascensão do Estado Islâmico são algumas das suas decisões mais controversas.
Em termos de política interna, não só o Obamacare não resolveu o problema dos elevados custos da saúde nos EUA, como, sobretudo, a era Obama (foi reeleito em 2012), apesar da recuperação económica, não eliminou as disparidades de rendimento e riqueza. Esse sentimento de desigualdade e uma profunda polarização política entre democratas e republicanos estaria em boa parte em 2016 na origem da chegada ao poder de Donald Trump.
Desde que deixou a Casa Branca, Obama tem mantido algumas intervenções políticas, como quando em 2024 esteve da Convenção Democrata a apoiar Kamala Harris, mas dedicou-se sobretudo à sua fundação, que promove programas para formar jovens líderes, apoiar iniciativas comunitárias e incentivar a participação cívica. Em junho passado inaugurou o Centro Presidencial Barack Obama, em Chicago. Mais do que uma biblioteca presidencial, este centro cívico e de reflexão demorou uma década a ser construído e custou 850 milhões de dólares.
Além de participar na produção de filmes, documentários e outros conteúdos através da produtora Higher Ground, fundada com Michelle, Obama, que logo em 2009 recebeu o Nobel da Paz pelos "esforços extraordinários para reforçar a diplomacia internacional e a cooperação entre os povos", escreveu o primeiro volume das suas memórias presidenciais. Uma Terra Prometida foi publicado em 2020 e editado em Portugal pela Objectiva.
Este sábado, Barack Obama foi o orador principal na sexta edição do Game Changers Forum, em Lisboa. O encontro juntou mais de 30 personalidades nacionais e internacionais em debates sobre os mundos da política, economia, tecnologia, empreendedorismo e inovação, terminando com um diálogo com o antigo presidente democrata, a menos de um mês das eleições intercalares nos EUA.
Enquanto chefe de Estado, Obama esteve em Portugal em novembro de 2010 para participar nas cimeiras União Europeia-EUA e da NATO. Voltou a parar em Portugal, em novembro de 2016, numa escala técnica na Base das Lajes, na ilha Terceira, Açores, numa viagem entre a Alemanha e o Peru.

