O ‘império’ contra-atacou mas o mundo nunca mais foi o mesmo
Um ataque pior ainda do que o de Pearl Harbor, por ser contra o coração da América, teve a inevitável resposta da superpotência. Naquele 11 de setembro de 2001, a Al-Qaeda matou quase três mil pessoas num golpe terrorista surpreendente. Com as imagens do colapso das Torres Gémeas depois do impacto dos aviões desviados a serem vistas em direto pelo mundo, George W. Bush lançou a Guerra ao Terror. Esta implicou ações na sombra, mas também logo a invasão do Afeganistão, lógica, e em 2003 a do Iraque, polémica. Os regimes talibã e de Saddam Hussein foram derrubados, mas seguiu-se um caos propício a extremismos, que se virou contra os próprios americanos.
Terá o contra-ataque deixado a nu os limites do poder do império, com lições a tirar hoje? “Mostrou as enormes capacidades militares aliadas à enorme vontade política da parte dos EUA, sustentada pela própria opinião pública (americana e até internacional)”, afirma João Vieira Borges. O general acrescenta: “Julgo que não mostrou os limites do poder por estas razões, mas também pela conjuntura internacional (de hegemonia dos EUA - com o apoio das organizações internacionais como ONU, NATO e UE) e pela relação de poder com a Federação Russa e a China, à época muito favorável a Washington”.
Passados 25 anos, sublinha o autor de A Guerra que Aí Vem, “uma das lições que dura, é a de que nenhuma potência está imune a ataques ao seu território, em especial com os novos sistemas de armas (caso dos drones) ou no âmbito de ataques cibernéticos a infraestruturas críticas. Uma segunda lição é a de que a manutenção de forças americanas no exterior em ambiente de conflitualidade (nem paz, nem guerra) tem elevados custos militares e financeiros, mas também políticos (a nível interno e externo). Uma terceira lição, apreendida à posteriori, é a de que só com tropas no terreno (a par da diplomacia e do investimento no desenvolvimento e na educação) é que se mantêm no poder os novos regimes impostos ao abrigo dos “valores ocidentais”, caso contrário, voltam com maior repressão os regimes autocráticos dominados por organizações terroristas (caso do Afeganistão, após a retirada das tropas americanas a 30 de agosto de 2021)”.
Luís Tomé, especialista em relações internacionais, sublinha que o poder americano estava no auge em 2001, quando foi desafiado pelo jihadismo internacional, e as razões que levaram russos e chineses a apoiarem a retaliação contra os talibãs protetores de Osama Bin Laden tinha que ver com sentirem a ameaça jihadista, mas não só. “Moscovo apoiava há anos a Aliança do Norte contra os talibãs no Afeganistão e lutava contra a Al-Qaeda no Cáucaso e na Ásia Central, capitalizando também a Guerra ao Terror para acabar com as críticas ocidentais à brutal campanha na Chechénia e à repressão na Federação Russa. De igual modo, Pequim já incluía os separatistas uigures do Xinjiang na ameaça jihadista, e tentou colocar a questão do Tibete e certos movimentos dissidentes sob o chapéu da luta contra o terrorismo”.
O professor da Universidade Autónoma de Lisboa admite que a Guerra ao Terror distraiu a América da ascensão da China e do ressurgimento da Rússia sob Putin: “Em particular, a guerra contra a Al-Qaeda e, mais tarde, contra o Estado Islâmico, a que se somam as invasões e ocupações duradouras do Afeganistão e do Iraque, desviaram atenções, mobilizaram tremendos recursos financeiros, militares e de intelligence e implicaram ainda novas estratégias e diligências diplomáticas, incluindo cooperação de Washington com Pequim e Moscovo. Por outro lado, certas dimensões da Guerra ao Terror e, sobretudo, a invasão do Iraque, dividiram os Aliados NATO e degradaram a imagem global dos EUA e da pax americana, o que se agravou pela incapacidade de estabilizar quer o Iraque quer o Afeganistão. Tudo isto favoreceu a ascensão do poder nacional abrangente relativo da China e as ambições expansionistas da Rússia, tornando Pequim e Moscovo mais audazes na contestação da ordem americana’”.
Esta contestação é hoje transparente no caso da Rússia, que em 2022 invadiu a Ucrânia, mas opaca no caso da China, que evita desafiar abertamente os EUA de Donald Trump, sem deixar de apoiar à sua maneira a Rússia e o Irão.
A resposta americana em setembro de 2001 era inevitável. A rede terrorista criada por Bin Laden, primeiro virada contra os soviéticos no Afeganistão e depois motivada pelo ódio ao Ocidente, mostrava-se ameaçadora. “Arrisco dizer que foi o ato performativo mais eficaz de um atentado terrorista. Combinou violência, destruição, impacto simbólico e efeito comunicacional. Foi paradigmático. Com uma arma da idade do bronze (os x-atos utilizados para sequestrar os aviões) um ator não-estatal pôs em causa a húbris da maior potência. Houve um ataque aos poderes financeiro (World Trade Center), militar (Pentágono) e político (um quarto avião iria para o Capitólio). Foi a maior ofensiva aos EUA desde Pearl Harbor. Foi uma imediatez mediada - a performance perfeita. E no dia seguinte a Al-Qaeda fazia parte do nosso quotidiano”, afirma Felipe Pathé Duarte, professor na NOVA School of Law.
Para este especialista no fenómeno terrorista, a morte de Bin Laden, numa operação especial em 2011, já na presidência de Barack Obama, pouco mudou a ameaça: “Foi a confirmação de que o centro de gravidade do jihadismo não depende de líderes, nem de cadeias de comando. A narrativa é o foco central. E por isso permitiu que a Al-Qaeda (e outras organizações jihadistas) se mantenham e tenham capacidade de recrutamento. Bin Laden ou Al-Zawahiri são mártires e exemplos. Inspiram. Nos últimos 15 anos passou a privilegiar ações individuais por inspiração ideológica, menos sofisticadas, mas mais difíceis de monitorizar. E em Estados menos estruturados, fundiu-se com agendas de contestação local”.
Numa época em que a Europa voltou a ter uma guerra, e em que no Médio Oriente assiste-se a um enfrentamento direto entre os Estados Unidos e o Irão, Pathé Duarte alerta para a necessidade de manter a vigilância perante a Al-Qaeda ou o Estado Islâmico. “O terrorismo jihadista continua a constituir uma ameaça, embora menos visível e mais fragmentada. Não desapareceu: adaptou-se e mantém bolsas de forte implantação em África, no Médio Oriente e no Afeganistão, ao mesmo tempo que explora o espaço digital para radicalização. A menor incidência de atentados no Ocidente não significa recuo, mas sim uma ameaça resiliente e adaptável. O grande risco reside precisamente na normalização desta ameaça e na desatenção política e social que ela suscita”, sublinha.
Se grande parte do mundo mostrou solidariedade com os Estados Unidos, os próprios americanos mostraram uma unidade que fez esquecer as controversas eleições de 2000, quando Bush filho venceu Al Gore sem terminar a recontagem de votos na Florida. Esta celebração hoje poderá trazer certa unidade de novo, numa América mais dividida até do que há 25 anos, e que ainda vive ao ritmo das transformações da época.
“O 11 de Setembro marcou um novo ciclo na sociedade americana e continua bem vivo na memória dos norte-americanos, de tal forma que nada é como dantes dessa data e isso está evidenciado na criação de novos departamentos de segurança, de legislação mais rígida em pontos estratégicos, designadamente aeroportos, em estabelecimentos governamentais públicos, com uma vigilância e controlo de fronteiras de forma permanente e, além disso, a data é lembrada todos os anos com cerimónias solenes. Portanto: um acontecimento incontornável na história contemporânea dos EUA, e para o mundo em geral, tendo ainda despertado um claro sentimento de união e patriotismo em toda a sociedade americana, independentemente da sua orientação política ou religiosa”, diz Francisco Resendes, diretor do Portuguese Times, um jornal de New Bedford destinado à comunidade luso-americana. Entre as vitimas dos atentados de 2001 estavam cinco portugueses.
Dennis Redmont, jornalista americano a viver em Portugal, lembra em tom pessimista que depois da intervenção no Afeganistão houve a polémica invasão do Iraque, e que “a lição dos últimos 25 anos após o 11 de Setembro é a necessidade de uma população bem informada. Ainda estamos longe de ter uma população esclarecida nos EUA. E fora deles. Esta atitude alimentou o mito da ‘invulnerabilidade’ dos EUA no pós-guerra. As administrações americanas, e não apenas as republicanas, aproveitaram-se disso. Os Estados Unidos entraram em guerra no Iraque sob o falso pretexto de que estavam, de alguma forma, a vingar as vítimas da Al-Qaeda. Uma sondagem do Washington Post realizada dois anos após o 11 de Setembro ilustrou dramaticamente a situação: 69% dos norte-americanos da altura acreditavam que Saddam estava ‘pessoalmente’ envolvido nos ataques. Ainda mais impressionante, 82% acreditavam que Saddam tinha prestado assistência a Bin Laden. Ambas as afirmações eram completamente falsas. Bush pode ter feito os seus compatriotas sentirem-se momentaneamente bem, mas quem sabe o que restará daí? Mais uma vez, só um público informado e disposto a investir o seu tempo pode oferecer mecanismos de controlo para este comportamento. Algo para recordar durante estes tempos sombrios”.
Atentados vistos pelos romances, filmes e ensaios
“Não foram poucas as obras literárias inspiradas pelo 11 de Setembro, entre as quais surgem as de conceituados escritores contemporâneos como Don DeLillo (Falling Man) ou Paul Auster (Man in the Dark, uma distopia emergente do cenário político e cultural após o 11 de Setembro), e emergentes como Amy Waldman (The Submission) ou Claire Messud (The Emperor’s Children)”, sublinha Mário Avelar, professor catedrático na Universidade de LIsboa. “Também o cinema concebeu narrativas que exploram circunstâncias dramáticas então vividas (por exemplo, 9/11, sobre um grupo de pessoas enclausuradas num elevador durante os ataques), e documentários onde ecoam agendas políticas explícitas (Fahrenheit 9/11, da Michael Moore) ou algo subliminares (World Trade Center, de Oliver Stone), acrescenta. Diz ainda o académico, que “será porventura a nível ensaístico que a polémica em torno do 11 de Setembro terá sido mais apaixonada e intensa, o que não significa mais esclarecedora. Creio que à semelhança do que sucedeu com a edificação da realidade cultural americana, em que devemos a um pensador francês, Alexis de Tocqueville a mais arguta e profética desmontagem daquela realidade, também agora é a um pensador francês que devemos a catalogação de hipóteses de leitura que nos permitem hoje a sua mais lúcida compreensão; refiro-me a L’esprit du térrorisme, de Jean Baudrillard.”

