Joaquim Barbosa é candidato à presidência da República. Se esta notícia fosse há cerca de 12 anos, entre 2012 e 2014, seria a bomba política do ano. Como é desta semana, surpreende mas não deve ter especial impacto numa corrida eleitoral, até ver, dominada pela recandidatura do presidente Lula da Silva e da candidatura do senador Flávio Bolsonaro, primogénito de Jair Bolsonaro.Barbosa, hoje com 71 anos, foi o juiz do Supremo Tribunal Federal (STF) encarregado do relatório do julgamento sobre o escândalo de compra de deputados do primeiro mandato de Lula, de 2002 a 2006, conhecido como Mensalão. Implacável na aplicação de penas a José Dirceu, José Genoino e a outros barões do Partido dos Trabalhadores (PT), assumiu o papel de incorruptível justiceiro que Sergio Moro, juiz de primeira instância, assumiria anos depois na Operação Lava-Jato. Mas se Moro se decidiu mesmo pela carreira política, como superministro de Bolsonaro, como pré-candidato falhado à presidência, como senador eleito e hoje como aspirante ao governo do Paraná, Barbosa recusou no auge da popularidade ir a votos, frustrando uma meia dúzia de partidos que o cobiçavam.Em 2013, ano marcado por manifestações em junho, durante a Taça das Confederações de futebol organizada pelo país, com uma agenda difusa que unia grupos anarco-comunistas de extrema esquerda, como os Black Bloc, a palavras de ordem de extrema direita gritadas por defensores do regresso da ditadura militar, uma pesquisa de opinião do instituto Datafolha entre manifestantes dava conta do prestígio do juiz do STF à época: 30% dos participantes na maior dessas manifestações, a 21 de junho, na Avenida Paulista, em São Paulo, votariam Barbosa. Naquele ano a revista Time elegeu-o entre as 100 pessoas mais influentes do mundo e a BBC Brasil entre os 10 brasileiros que foram notícia. Numa sondagem mais formal realizada semanas antes, Dilma Rousseff (PT), a então presidente reeleita no ano seguinte, somava 40%, acima de Aécio Neves (PSDB), com 16%, que quase bateu Dilma na segunda volta, de Marina Silva (Rede), com 15%, e de Barbosa, mesmo sem partido nem disposição de se arriscar, com 11%. Eduardo Campos (PSB), que acabaria por morrer em campanha num acidente aéreo, tinha 5%. Dilma venceu e caiu, substituída pelo vice-presidente Michel Temer, e o segundo classificado Aécio, visto como favorito para 2018, foi enredado no Petrolão, escândalo que engoliu nas manchetes o julgamento do Mensalão, dizimou os chamados políticos tradicionais e elevou inesperadamente o radical Jair Bolsonaro à presidência. Barbosa, que entretanto se reformou do STF e se dedicou à advocacia privada, desapareceu do noticiário.Até nos últimos últimos dias ter sido anunciado pelo Democracia Cristã (DC), partido de direita sem senadores, nem deputados e apenas um prefeito mas que concorreu de 1998 a 2022 às presidenciais através do empresário e deputado constituinte José Maria Eymael. O mais estranho, entretanto, é que o DC já tinha candidato: Aldo Rebelo, 70 anos, que foi ministro de Lula, ocupou três pastas nos governos de Dilma, incluindo o da Defesa e o do Desporto durante o Mundial organizado pelo Brasil, e ainda em 2017 pertencia ao Partido Comunista do Brasil mas foi derivando para a direita até chegar aos democratas-cristãos.Agora, Rebelo, que foi substituído por decisão do presidente do partido, João Caldas, sob a alegação de que “a candidatura não decolou nas sondagens”, ameaça levar a questão aos tribunais. “Quem decide a candidatura é a convenção e essa convenção não aconteceu, eu sou pré-candidato a convite do presidente do partido, o outro presumível pré-candidato, Joaquim Barbosa, nem se manifestou”, reagiu Rebelo. “A minha candidatura não serve apenas interesses partidários, ela serve também o interesse nacional”, finalizou.Caldas, porém, está decidido: “Joaquim Barbosa representa a possibilidade de união nacional e reconstrução de confiança do povo brasileiro nas instituições”. Em nota, o partido sustenta que a mudança surge devido à performance negativa de Rebelo e que ficou previamente acordado que o pré-candidato passaria por um período de teste de três meses. Barbosa, primeiro negro a presidir ao STF, filho de pedreiro e dona de casa, que se formou em Brasília e doutorou em Paris, ainda não foi testado em sondagens mas espera-se que pontue melhor do que Rebelo. José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça de Dilma, considerou “polémica” a candidatura do ex-juiz. E acredita que ele “não arranhará” as possibilidades de Lula, uma vez que “desde o escândalo do Mensalão, de 2005”, o atual presidente “já se reelegeu, ajudou a eleger e reeleger Dilma e foi eleito outra vez há quatro anos”. “Esta candidatura é mais para marcar posição”, disse o ex-ministro à CNN Brasil.Vinícius Poit, deputado pelo partido Novo, de direita liberal, também vê o ex-juiz com “possibilidades reduzidas” mas lembra que “Barbosa vem de baixo, tem história aguerrida e a política é como as nuvens, você olha e está de um jeito, você olha outra vez e já está de outro”. .Lula e anti-Lula