O Dakota, uma breve nota

Talvez fosse um luxo anómalo, um gasto sumptuário, mas o certo é que, entre as muitas e belas coisas que Portugal perdeu nos últimos anos, além da vergonha e da decência, conta-se um espaçoso apartamento de oito assoalhadas no Dakota Building, com três lareiras, galeria, biblioteca e varanda aberta para o Central Park.

Vendido em 2012 por quase dez milhões de euros, fora adquirido em 1971 para servir de residência ao nosso embaixador na ONU e, depois, ao cônsul-geral de Portugal em Nova Iorque. Tristemente, não deixámos por lá boas lembranças. A crer num apaixonante livro de Stephen Birmingham, Life at the Dakota. New York's Most Unusual Address, os embaixadores lusos tinham por hábito trazer consigo o pessoal doméstico, das profundezas do Portugal migrante, e, quando partiam para novo posto, deixavam os conterrâneos a viver por lá, na sonhada América, nas mansardas esconsas do imponente Dakota, muitos deles sem pagar renda alguma. Graças a este porreirismo diplomático, armou-se uma aldeia portuguesa em pleno coração de Manhattan, com fados pungentes, fartas e viris bigodaças, velhas de lenço à cabeça e buço no beiço e um persistente e terrível smell a fritos que, diz Stephen Birmingham, para nosso opróbrio, castigava sem piedade os vizinhos dos dois pisos superiores do edifício, coitados.

Foi essa a memória odorífera que, pelos vistos, deixámos num dos mais emblemáticos edifícios do mundo, construído nos finais do século XIX (mais precisamente, entre 1880 e 1884), naquela que era considerada uma área remota da cidade de Nova Iorque, indigna para servir de morada às fortunas recém-feitas, que preferiam o snobismo do East End e, mais ainda, que achavam moralmente impróprio viver num prédio de apartamentos. Para os ricos do Novo Mundo, era aceitável que um rapaz jovem ou um solteirão empedernido morassem num hotel ou condomínio, mas uma família com crianças e, sobretudo, uma rapariga solteira jamais deviam deixar-se seduzir pela moda dos prédios de apartamentos nascida na Europa, e aí já há muito estabelecida, sem escândalo algum.

Um homem clarividente, porém, percebera que a cidade, cercada nos dois flancos pelas águas do Hudson River, teria fatalmente de se expandir para norte e para oeste e que o Upper West Side, na altura um território inóspito, iria ser a zona privilegiada dessa expansão. Os críticos consideravam que a fantasia imobiliária de Edward Cabot Clark, assim se chamava o visionário, ficava tão longe do centro do mundo como o longínquo estado do Dakota, e Clark, uma vez mais perspicaz, não só não se importou com o epíteto pejorativo como o usou para baptizar o novo edifício, desenhado pelo arquitecto Henry Janeawy Hardenbergh num estilo peculiar, geralmente classificado de "German Renaissance", mas que alguns, mais maldosos, logo etiquetaram como "Pseudo-European", "Victorian Kremlin", "Victorian Château" ou mesmo "Middle European Post Office".

Edward Clark era um abastado advogado nova-iorquino que enriquecera fabulosamente devido ao felicíssimo acaso de ter conhecido um dia um judeu de origem alemã, Isaac Merritt Singer, o qual, além de uma vida sentimental bastante agitada e poliamorosa (teve vários casamentos, alguns dos quais simultâneos, e mais de 20 filhos de várias mulheres), inventara uma máquina de costura sem rival nem par. A máquina, todavia, utilizava componentes já patenteados por outros e, no árduo processo de registo, foi necessário obter as licenças de dezenas de inventores, tão ou mais gananciosos e ávidos como Singer, e o advogado Clark, perspicaz como sempre, em vez de cobrar honorários exigiu ao cliente 50% das acções da companhia que iria comercializar a nova maravilha. Então, Clark lançou uma genial campanha de marketing, começando por lançar o engenho, imagine-se, junto das esposas dos párocos locais, cuja posição de liderança comunitária serviria de exemplo para as demais senhoras. Depois de campanhas publicitárias e de vendas especificamente dirigidas a esse público pio, reunido em clubes de costura abençoados pelas igrejas, Clark visou outro alvo, os chefes de família dos lares americanos, pois eram estes, não as mulheres, quem decidia em exclusivo o que se devia comprar em casa. Com promessas de aumento da felicidade conjugal, de mais tempo disponível que as esposas teriam para cuidar dos filhos e do marido, de incremento do rendimento doméstico em serviços de costura para fora (mais de mil dólares por ano, anunciava-se), Clark conseguiu seduzir milhares de compradores das Singer, a que se seguiu uma intensa campanha, em várias cidades de todo o país, de demonstrações das fantásticas vantagens da nova máquina, com lições grátis levadas a cabo por raparigas criteriosamente escolhidas. Graças a isso, e a um método inovador e mais fácil de pagamento, as máquinas Singer impuseram-se em absoluto, com vendas milionárias, e, se agora as temos nas nossas casas, tal deve-se ao génio de Edward Cabot Clark, o pai do Dakota Building. Sem ele, Isaac Singer teria sido um inventor talentoso, provavelmente hoje esquecido, um pai prolífico e um marido de várias mulheres, entre as quais a bela francesa Isabella Eugénie Boyer, que, diz-se, serviu de modelo a Bartholdi para a escultura da Estátua da Liberdade. Devido a Clark, Isaac prosperou e pôde comprar uma mansão sumptuosa na 5.ª Avenida e um dos seus filhos, o dândi Paris Singer, durante muitos anos o principal amante da bailarina Isadora Duncan, pôde transformar Palm Beach, até então um vilarejo perdido na Florida, no local de luxo e duvidoso gosto que hoje conhecemos. Em troca, foi devido a Singer, e às suas máquinas de costura, que Clark enriqueceu à larga e pôde erguer um edifício como o Dakota, frente a um descampado imenso (na altura, ainda não fora construído o Central Park), rodeado por casebres, cujos donos criavam porcos, cabras, vacas e galinhas.

Seria fastidioso enumerar as enormidades da obra, bastando dizer que, num dos apartamentos, existia um salão de baile de 14 metros de comprimento, com lareiras nas duas extremidades e candelabros de cristal Baccarat, ou que existiam, e talvez ainda hoje existiam, casas com 40 divisões, e até mais. Ou que o Dakota tinha uma sala de jantar privada, fechada após a Segunda Guerra, que servia diariamente refeições de caviar, ostras e champanhe, que podiam também ser entregues no apartamento de quem o pedisse. O imóvel ocupava mais de 150 empregados a tempo inteiro, que incluíam, entre o mais, uma governanta para as empregadas domésticas de cada morador, um carpinteiro e dois pintores, um electricista e um canalizador, moços de estrebaria para as carruagens e os landaus. Os elevadores eram regidos por um grupo de senhoras irlandesas, discretíssimas, trajadas com farda própria. Todas as tardes, era colocada debaixo da porta de cada apartamento a ementa do jantar, para que os moradores, se quisessem, telefonassem a uma funcionária exclusivamente dedicada a atender-lhe os pedidos. Além de um alfaiate masculino permanente, o prédio dispunha de um serviço de lavandaria que todas as manhãs recolhia as roupas colocadas à porta secundária dos apartamentos em cestos especiais e as entregava a meio da tarde lavadas e passadas, com cada peça num envelope de papel-seda cor-de-rosa.

Nem isso cativou os mais escandalosamente ricos - os Rockefeller, os Harriman, os Frick, os Morgan ou os Vanderbilt - nem era esse, de resto, o público-alvo de Edward Clark quando lançou o empreendimento. Ainda assim, com o passar do tempo, e mesmo sem poder ombrear com o histórico Albany, de Londres (morada de Byron, Graham Greene, Isaiah Berlin, Bruce Chatwin, Aldous Huxley, Norman Foster, Roger Scruton, etc., etc.), o Dakota conquistou uma impressionante lista de moradores notáveis, entre os quais se contavam várias estrelas, como a arrogante Lauren Bacall, José Ferrer, Judy Garland, Jack Palance ou Boris Karloff (cuja fácies aterrorizava os que com ele se cruzavam nos seus passeios nocturnos pelo Central Park), o fugidio Rudolf Nureyev e, claro, John Lennon e Yoko Ono, cuja entrada no condomínio foi vista com as maiores reservas, o mesmo sucedendo, por abominável racismo, com a cantora negra Roberta Flack, a qual, diga-se, viria a revelar-se uma hóspede insuportável.

Além das aparições cíclicas de fantasmas (uma dos quais no apartamento dos Lennon, claro), o Dakota ficou marcado por ter servido de cenário ao bizarro filme de Polansky A Semente do Diabo e, sobretudo, por à sua porta John Lennon ter sido alvejado mortalmente na noite de 8 de Dezembro de 1980, quando regressava de uma sessão de gravação do próximo disco.

Quanto ao resto, um vendaval de memórias: a idosa rica que tinha um cavalo empalhado na sala de estar, junto à janela, visível do Central Park; Lauren Bacall a usar todo o seu charme para convencer, com êxito, as entidades camarárias a autorizarem-na a colocar um aparelho de ar condicionado em casa, privilégio negado aos outros moradores (o edifício é classificado desde 1969); John Lennon a fugir dos fãs pelo elevador de serviço; as obras de renovação que descobriram uma piscina no piso de um apartamento, onde a anterior proprietária, diz-se, tomava faraónicos banhos de leite. Também Portugal por lá deixou a sua inconfundível marca, uma lembrança bem cheirosa, aliás: refogadinhos pela manhã, fritadas de peixe às tardes.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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