Uniforme, espada, luvas brancas e, ao lado, uma coroa. É assim que Jonas Lauwiner, de 31 anos surge na fotografia do seu site oficial. O autoproclamado “rei da Suíça” podia não passar de um excêntrico que decidiu dizer ao mundo que é o monarca de uma das mais antigas repúblicas do mundo, mas há um aspeto do seu “reinado” que está a preocupar as autoridades helvéticas. Lauwiner tem aproveitado uma lacuna na lei suíça para adquirir terrenos “sem dono” um pouco por todo o país - e mesmo cobrar uma “taxa de passagem ou de manutenção” em alguns. O cantão de Jura foi o último a tomar medidas para alterar a sua legislação e evitar assim qualquer nova apropriação destas parcelas abandonadas. Ao todo são mais de 140 terrenos que Lauwiner adquiriu nos últimos anos - a troco de uma quantia de 200 a 300 francos (214 a 320 euros) -, em nove dos 26 cantões suíços. Um “império” de apenas 100 mil m2 ao todo, mas que inclui parcelas de florestas e mais de 80 estradas privadas, cuja importância estratégia, sobretudo em termos de acessos, ultrapassar bem a sua dimensão.Tudo começou, explicou o próprio numa entrevista ao jornal Blick, com um terreno que o pai lhe ofereceu no seu 20.º aniversário. Para adquirir mais parcelas, Lauwiner procura especificamente terrenos sem proprietário e regista a sua reivindicação no Registo Predial. Um procedimento legal. “Não compro os terrenos nem os tiro a ninguém. Apenas registo a minha reivindicação no Registo Predial”, explica.Nascido em 1994 em Unterseen, no cantão de Berna, Jonas Lauwiner cresceu em Interlaken, antes de se mudar para a capital onde estudou Engenharia Eletrónica e de Automação. Filho de um suíço e de uma marroquina, segundo o seu site oficial, desenvolve a sua atividade profissional nas “áreas de Tecnologia de Informação e automação, nomeadamente em funções especializadas e de gestão de projetos”.Entretanto, deu os primeiros passos na política helvéticas, tendo sido eleito em 2025 para o conselho municipal de Burgdorf. A ideia de começar um “império” terá nascido com aquele primeiro terreno oferecido pelo pai e em 2019 o informático autoproclamou-se rei da Suíça. E levou mesmo a encenação mais longe, organizando uma “coroação”, com ajuda dos amigos e de alguns atores, numa igreja de Berna. O momento foi registado em vídeo e pode ser visto no YouTube..Desde então, Jonas I, como se intitulou, criou todo um universo em torno do seu reino, com a sua própria bandeira, a sua própria moeda e o seu próprio hino nacional. Não falta sequer um “castelo” e um “exército” constituído pelos amigos, chamado de Legião Imperial Lauwiner. Inicialmente apelidado de rei de Burgdorf, à medida que o seu “império” foi crescendo, o “monarca” estendeu a sua reivindicação à Suíça toda. “É claro que não estou oficialmente registado como rei e não tenho qualquer poder político. Mas sou o rei da Suíça. De qualquer forma, não se pode dizer que não o sou. Afinal, quem mais o seria? Ninguém reivindicou esse título, além de mim”, afirmou na entrevista ao Blick. Mas se tem bandeira e hino, Lauwiner garante mesmo assim: “Não sou um cidadão do Império. Respeito as leis e amo o meu país.”No seu site, na mensagem aos “súbditos”, Jonas I explica: “Sou cidadão suíço, nasci e cresci neste país único que me proporcionou segurança, prosperidade e uma qualidade de vida inigualável. A diversidade das nossas paisagens - as montanhas majestosas, os lagos límpidos, as florestas e as cidades - enche-me de gratidão todos os dias. O que temos não tem preço e merece ser cuidadosamente preservado.” E deixa a promessa: “O meu objetivo é preservar a força do nosso país - no mundo, na Europa e nas nossas próprias comunidades. Cada pessoa na Suíça é importante para mim. Cada voto conta. E é exatamente isso que torna o nosso país tão notável: aqui, cada cidadão é um rei.”Quanto às propriedades,na já referida entrevista ao Blick, garante que “é preciso assumir a responsabilidade por elas. Tenho de cuidar delas. Outros podem deixar as suas propriedades a deteriorar-se. Mas eu não.”Os seus métodos é que têm sido contestados. Em finais de 2025, um jurista de Lucerna apresentou uma queixa criminal contra Lauwiner por “exploração abusiva com fins lucrativos”, após este ter pedido 150 mil francos às autoridades da aldeia de Geuensee para recuperar um caminho que adquirira. A resposta do “Rei da Suíça” não tardou: “Não sou Jesus Cristo, não dou tudo de graça. Sou um empresário. É lógico que tenha de ganhar dinheiro de algum lado, pois a aquisição destes terrenos também me custou dinheiro”, disse à RTS, Rádio e Televisão Suíça. Agora, com o Jura a juntar-se a cantões como Vaud e Valais na decisão de mudar a lei para o impedir de adquirir mais parcelas, Lauwiner bem pode garantir que apresentar-se como rei não passa de um “jogo”, mas as autoridades suíças parecem estar a cansar-se da brincadeira..Suíça vai a referendo para decidir se limita a população a dez milhões de habitantes