Três meses depois de os EUA (junto com Israel) terem lançado a Operação Fúria Épica, nem o programa nuclear iraniano foi destruído ao ponto de não ter retorno, nem foram criadas as condições para uma mudança de regime em Teerão. Pior: o Irão ganhou um trunfo - o Estreito de Ormuz - que deixa em suspenso não apenas a região, mas toda a economia mundial. E a dúvida é saber se o presidente norte-americano, Donald Trump, é capaz de traduzir todos os sucessos militares no terreno numa vitória. Três meses depois do início da guerra, e sete semanas após ter sido declarado o cessar-fogo, o foco centra-se agora num “memorando de entendimento” que abra as portas a um acordo de paz. As negociações indiretas prosseguem, apesar dos ataques de “autodefesa” que os EUA realizaram na segunda-feira à noite no sul do Irão, sempre com a ameaça de Trump de que ou haverá um bom acordo ou não haverá acordo. E a ameaça constante do retomar dos bombardeamentos, com Teerão a ameaçar retaliar por toda a região.Numa guerra que é também de palavras, a televisão estatal iraniana revelou esta quarta-feira (27 de maio) ter tido acesso ao “rascunho” do memorando. Segundo esta fonte, o texto previa a retirada das forças norte-americanas das proximidades do Irão e o levantamento do bloqueio aos portos iranianos em troca da reabertura, por parte de Teerão, do Estreito de Ormuz no prazo de um mês. O Irão ficaria responsável pela gestão do tráfego marítimo nesta zona, por onde, antes da guerra, passava 20% do petróleo mundial. A Casa Branca denunciou uma “invenção total”, dizendo que não se deve acreditar no que os meios estatais iranianos divulgam.No início da reunião da sua Administração (que afinal não se realizou em Camp David porque Trump alegou que ia estar mau tempo), o presidente repetiu a mensagem de sempre. Os líderes iranianos “desejam muito chegar a um acordo”, mas pensaram que o poderiam “superar” nessa tarefa. “Eles só querem fechar um acordo. Não acho que tenham outra escolha”, disse o autor do livro A Arte da Negociação (1987). Trump avisou ainda que se os iranianos acham que podem fazê-lo esperar, por causa das eleições intercalares de novembro, podem esquecer essa ideia. “Não me importo com as eleições intercalares”, afirmou, dizendo que ainda não está “satisfeito” com a proposta em cima da mesa.Mas afinal, o que conseguiram os EUA nos três meses desde o lançamento da Operação Fúria Épica? “Vamos garantir que o Irão não obtém uma arma nuclear”, prometeu Trump num discurso a 28 de fevereiro, após lançar a operação militar, especificando um dos principais objetivos no Irão. E “quando terminarmos, assumam o controlo do vosso governo”, disse aos iranianos, assegurando que este seria deles. Nuclear e mísseisMenos de oito meses depois de dizer que tinha “obliterado” o programa nuclear iraniano nos bombardeamentos históricos de junho de 2025, o facto de Trump ter usado como argumento para a nova operação militar a necessidade de garantir que o Irão não tinha uma arma nuclear foi desde logo uma contradição. O presidente acabou por se focar na questão do que apelidou de “pó nuclear”, os cerca de 400 quilos de urânio altamente enriquecido que Teerão tinha e cujo paradeiro é desconhecido - chegou a falar-se numa operação terrestre para assegurar o seu controlo.Três meses depois, o memorando de entendimento que estará em cima da mesa inclui o compromisso de Teerão de que nunca irá desenvolver uma arma nuclear - na prática, o regime sempre disse que não queria ter essa arma, usando como argumento uma alegada fatwa (decreto religioso) do grande líder Ali Khamenei. E também o compromisso de negociar a entrega do “pó nuclear” e a suspensão do programa de enriquecimento, com os EUA a aceitar negociar o levantamento de sanções e o descongelar dos fundos iranianos. Teerão tem insistido no seu direito “inabalável” de enriquecer urânio para fins civis, abaixo dos níveis que poderiam ser usados para uma arma, não sendo claro se isso está ou não contemplado no acordo. E apesar de muitas instalações nucleares poderem ter sido destruídas nos bombardeamentos e de muitos cientistas nucleares terem sido mortos por Israel, o saber não se perdeu. Uma outra preocupação, especialmente para Israel, prende-se com o programa de mísseis balísticos de Teerão, não surgindo qualquer referência a ele nas várias fugas de informação sobre o memorando de entendimento.Mudança de regimeNo primeiro dia da operação militar, os bombardeamentos norte-americanos e israelitas mataram o líder supremo iraniano, Ali Khamenei, e feriram o seu filho - entretanto designado sucessor, Mojtaba Khamenei (que ainda não foi visto em público desde então).Não seria o primeiro dirigente a morrer nos ataques, mas isso não provocou uma mudança de regime - mesmo que Trump tenha chegado a alegar isso, já que havia pessoas diferentes na liderança.As mortes deixaram o regime nas mãos da chamada “linha dura”, com os Guardas da Revolução e as fações ultraconservadoras a ganharem peso. E isso significa também divisão interna - o que causa exasperação nos EUA, que estão a tentar negociar com uns e deparam-se com os obstáculos criados por outros. Trump falou numa “liderança seriamente fraturada”, dizendo a certa altura estar à espera uma “proposta unificada” de Teerão. Isto ao mesmo tempo que mantém as suas posições maximalistas, não querendo ceder num acordo que seja visto como fraco ou semelhante ao que sempre criticou: o do tempo de Barack Obama, que rasgou em 2018.Entretanto, os iranianos que tiveram alguma esperança na queda do regime instalado com a Revolução de 1979, continuam a ser alvo de perseguição. Segundo um relatório da Amnistia Internacional, divulgado a 21 de maio, desde o início da guerra pelo menos 36 pessoas foram executadas após serem condenadas por crimes políticos no Irão, no seguimento de julgamentos injustos. Outros 78 estão em risco de ter o mesmo destino, incluindo 41 detidas por causa da onda de protestos em janeiro.Estreito de OrmuzOs EUA podem não ter conseguido que o Irão acabe com o programa nuclear, nem ter tido sucesso na mudança de regime, mas uma coisa conseguiram: que Teerão passasse da ameaça teórica à prática no que diz respeito ao fecho do Estreito de Ormuz. E, com isso, mexesse na economia mundial, conquistando um trunfo que agora sabe que tem capacidade para voltar usar a qualquer momento. O Irão diz que conseguirá reabrir o estreito 30 dias depois de um acordo com os EUA, mas ninguém sabe quanto tempo levará para que o tráfego marítimo volte aos níveis pré-guerra - e ao petróleo a voltar a baixar. Antes de o estreito ser fechado, 20% do petróleo e do gás natural mundial passavam por esta importante via marítima. E se os preços foram rápidos a subir, serão lentos a descer, avisam os analistas. Além disso, ainda não é claro se o Irão irá ou não cobrar uma “portagem” para os navios poderem passar (o país precisa desesperadamente de fundos) e existe sempre a ameaça de poder voltar a fechar Ormuz - mesmo que Trump insista que destruiu a Marinha iraniana, bastam pequenas embarcações para colocar minas ou ameaçar os navios. Para ajudar a retirar as minas já colocadas e que precisam de ser retiradas, vários países já estão a mobilizar-se para ajudar. Impacto regionalA resposta iraniana aos ataques dos EUA e Israel chegou aos países do Golfo, que se viram envolvidos na guerra que não era a sua (apesar de alguns a terem apoiado nos bastidores). Não só foram atacadas as bases americanas na região, como interesses energéticos - e foi abalada a imagem de “oásis” de países como os Emirados Árabes Unidos ou Qatar. No meio da guerra, o presidente norte-americano ainda defendeu que países como a Arábia Saudita e o próprio Qatar deviam aderir aos Acordos de Abraão, normalizando as relações com Israel, dando mais “força” ao acordo de paz com o Irão. Nenhum deles coloca essa possibilidade neste momento. .Trump pressiona países árabes a assinar Acordos de Abraão como parte da paz com Teerão.A situação é ainda mais grave no Líbano, depois de o Hezbollah ter reagido à morte de Khamenei retomando os ataques contra Israel e os israelitas terem lançado uma nova operação contra o país, ocupando uma parte do sul. Sob a ameaça de o memorando de entendimento entre Irão e EUA incluir o fim das hostilidades também no Líbano, Israel intensificou as operações contra o grupo xiita (que está a usar a nova geração de drones explosivos com cabos de fibra de ótica para atacar o norte de Israel).E agora?Há analistas que acreditam que Trump, diante da pressão das eleições intercalares (mesmo que diga que não se importa com elas), poderá aceitar um acordo pior do que desejava (mesmo tentando vendê-lo como bom) para poder fugir ao conflito e evitar que a situação se deteriore. Segundo a agência Reuters, há também quem veja a possibilidade de uma nova ronda de ataques - para reiterar a força dos militares dos EUA (que nunca esteve em causa) - para poder falar numa vitória final e avançar. Ou, lembra a agência de notícias, poderá tentar mudar o foco para Cuba, à procura de uma suposta vitória fácil, como a que teve com a operação na Venezuela, que levou à detenção do então presidente Nicolás Maduro..EUA acusam Raúl Castro de conspiração para matar pelo papel no derrube de dois aviões há 30 anos