Retrato de Mao na entrada da Cidade Proibida
Retrato de Mao na entrada da Cidade ProibidaDR

Nos 50 anos depois da morte de Mao, mudou quase tudo na China exceto o PCC mandar

Fundador do regime comunista é popular entre o povo, e na liderança política os feitos são exaltados e os erros minimizados. Mas a China que Xi Jinping governa resulta sobretudo da prosperidade gerada pelas reformas de Deng Xiaoping depois da morte de Mao Tsé-tung.
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Mao Tsé-tung teria dificuldade em reconhecer a China de 2026, basta pensar que quando morreu, a 9 de setembro de 1976, faz esta quarta-feira 50 anos, o país era conhecido como o “Reino das Bicicletas” e hoje há um boom em Pequim ou Xangai dos carros elétricos, e a ligar as cidades existem comboios de alta velocidade. Em termos de viagens aéreas, a China é já a número dois, só atrás dos Estados Unidos. Aliás, o PIB é também o segundo mais alto, enquanto há meio século era o nono mundial.

Foi em 2010, culminando vários anos de crescimento de dois digitos, que a China atingiu esse segundo lugar na hierarquia das economias, ultrapassando o Japão. Hoje o crescimento é mais modesto, mesmo assim com previsão de 5% em 2026, para um PIB acima dos 20 biliões de dólares (20 trillions anglosaxónicos).

O fundador da República Popular da China, proclamada em 1949, só não estranharia quem está no comando do país. Continua a ser o Partido Comunista Chinês (PCC), aquele que sob a sua liderança enfrentou os japoneses e derrotou o Kuomintang de Chiang Kai-shek.

As reformas económicas a partir de 1978/1979 nasceram de Deng Xiaoping, que foi seu companheiro de guerrilha. E Xi Jinping, atual presidente, é filho de um outro guerrilheiro, Xi Zhongxun, que depois, como responsável na província de Guangdong, incentivou Deng a criar as Zonas Económicas Especiais que serviram de base para a nova lógica económica. A Deng é atribuída a frase, “não interessa se o gato é preto ou branco desde que cace ratos”, uma metáfora para a nova flexibilidade ideológica.

Na Praça de Tiananmen, na entrada da Cidade Proibida, continua o retrato de Mao. Assim como, perto, está o Mausoléu. Não é tabu que o Grande Timoneiro fez erros (seletivamente admitidos), mas são realçados os feitos. O maior deles terá sido devolver a dignidade à China depois do “século de humilhação”, iniciado com a Guerra do Ópio (1839-1842), em que os britânicos se apoderaram de Hong Kong.

Produtos Mao vendem-se bem na China
Produtos Mao vendem-se bem na ChinaWU HAO

“A memória do presidente Mao é bem preservada em todos os níveis. Em 2023, por ocasião dos 130 anos do nascimento desse grande homem, Xi Jinping fez um discurso enaltecendo minuciosamente as suas façanhas, além de confirmar: ‘A melhor homenagem ao camarada Mao Tsé-tung é continuar a fazer avançar a causa iniciada por ele.’ O seu retrato confinua a figurar em órgãos institucionais e nas notas chinesas. A partir dos anos 90, em muitas famílias, até nas camionetas e táxis, o retrato de Mao é pendurado como amuleto. E nos últimos anos, surgiram bastantes obras audiovisuais sobre Mao, a provar o seu peso no coração do povo”, diz Wang Suoying, professora chinesa radicada em Portugal.

A presidente da Associação dos Amigos da Cultura Chinesa, nascida em Xangai, vivia na China quando foi anunciada a morte de Mao. “Nesse dia mais negro de 1976 o país ficou abalado pela música fúnebre da Rádio com a dolorosa notícia da morte do presidente Mao. Uma enorme tristeza, com choros e soluços incontroláveis, encheu logo o campus onde eu estudava. Por iniciativa dos alunos, foram montadas salas com o retrato de Mao guarnecido de pano preto e feitas braçadeiras pretas em sinal de luto. No dia 18, fui com colegas à Praça Tianan- men para a grande cerimónia de luto, com um milhão de participantes. Até hoje não consigo conter lágrimas ao recordar tudo isso”, relembra Wang Suoying.

Aquele Ano do Dragão, segundo o horóscopo chinês, foi especialmente trágico, com vários líderes históricos a morrer e a natureza a revelar-se indomável. Wang Suoying recorda-o: “Vivi o ano de 1976, Ano do Dragão, sobressaltada por notícias inesperadas, com enormes tristezas, dores e esperanças, entrelaçadas, o que deixou marcas indeléveis na minha memória: morte de Chu En-lai, a 8 de janeiro; chuva de meteoritos no Nordeste, a 8 de março, com a maior pedra a pesar mais de 1700 quilos; dois terramotos em Yunnan, a 29 de maio; morte de Zhu De, a 6 de julho; terramoto em Tangshan, a 28 de julho, com 242 mil mortos (na altura eu estava em Pequim e acordei com o abalo do prédio); e finalmente, a 9 de setembro, morte do presidente Mao. Depois o Bando dos Quatro foi eliminado, acabando com a Grande Revolução Cultural, com a China a entrar numa nova fase.”

O Bando dos Quatro, liderado pela viúva de Mao, Jiang Qing, tentou assumir o maoismo, mas fracassou. E depois de uma efémera liderança de Hua Guofeng, Deng assumia as rédeas. Os excessos da Revolução Cultural foram criticados, mas o nome de Mao tem sido preservado. A legitimidade do partido vem da sua história, e Deng, que até foi uma das vítimas da Revolução Cultural, percebeu isso. Numa entrevista ao DN este ano, Jung Chang, famosa por Cisnes Selvagens e autora de uma biografia muito crítica de Mao, afirmou que “Deng era um libertador. Iniciou as reformas. Mas cometeu um erro: recusou-se a denunciar Mao”.

Hoje a legitimidade do PCC depende desse património histórico revolucionário, mas igualmente da capacidade de gerar prosperidade para os mais de 1400 milhões de chineses, que vivem numa sociedade mais rica mas cheia de desigualdades, mesmo que o pico tenha sido há uma década. O PCC reforçou o combate à corrupção dos quadros e tenta manter a classe empresarial dentro de certos limites.

Crachás com Mao
Crachás com MaoWU HAO

Do ponto de vista externo, o internacionalismo ideológico da era de Mao cedeu ao pragmatismo comercial, agora através da Iniciativa Uma Faixa, Uma Rota. Numa entrevista ao DN a propósito da republicação do seu livro As Rotas da Seda, o historiador britânico Peter Frankopan relembrou que “o enquadramento, a ambição e o alcance global da Iniciativa Uma Faixa , Uma Rota foram de Xi - e é graças a ele que esta faz agora parte da Constituição formal do Partido Comunista da China. É, na minha opinião, uma jogada inteligente, pois é fácil de compreender e deixa claro que a China está a tentar falar a linguagem do comércio e da cooperação. Isto é bem recebido não só na Ásia Central e no Sudeste Asiático, mas também noutros locais”. Através do comércio, e do investimento, a China consegue aliados importantes para a sua ambição de superpotência, que passa por desafio calculado aos Estados Unidos de Donald Trump e aliança de conveniência com a Rússia de Vladimir Putin.

O PIB chinês representa hoje perto de 20% do global, resultado extraordinário comparando com o período prévio às reformas, quando a governação de Mao fazia erros como o do Grande Salto em Frente (no final dos anos 1950, que trouxe grande fome, e ainda hoje é pouco falado), mas mesmo assim aquém da riqueza de outrora. Contas de Angus Maddison, historiador económico reputado pelos cálculos para épocas antigas, apontam para a China representar um terço do PIB mundial no século XVIII, na era do imperador Qianlong.

Fazer a China aproximar-se o mais possível dessa percentagem é uma ambição para a liderança chinesa, tal como o é, depois da devolução de Hong Kong e de Macau, a reunificação com Taiwan, a ilha onde Chiang se refugiou no final da guerra civil. Mao ficaria surpreendido por o Kuomintang não a governar.

Luís Cunha, especialista em geopolítica da China, realça a importância da ligação do partido ao fundador do regime: “Alguns ditadores nunca morrem. Meio século volvido sobre o seu desaparecimento, a memória de Mao Tsé-Tung continua viva na China. Para o poder instalado em Pequim, negar a memória de Mao seria colocar em causa a própria sobrevivência do PCC. As páginas mais negras da China comunista, assinadas pelo Timoneiro que, depois de ter levado o PCC ao poder, acabou por colocá-lo à beira do abismo, foram arquivadas no baú da história. Ainda assim, pese embora as trepidações traumáticas como a Revolução Cultural ou a repressão estudantil em Tiananmen, o PCC evidenciou uma notável resiliência. Os sucessores de Mao colocariam a China numa trajetória desenvolvimentista que surpreendeu o mundo e os próprios chineses. O Estado utópico deu lugar a um influente Estado estratégico. Os resultados estão à vista de todos.”

Destaca ainda Luís Cunha: “Uma sondagem recente do Pew Research Center indicou que, pela primeira vez em 20 anos, os inquiridos em vários países têm uma perceção da China e do seu líder mais favorável, por comparação com os Estado Unidos e o atual ocupante da Casa Branca.” E conclui: “Mao gostaria de saber que o seu herdeiro ideológico ocupa agora o ‘centro do palco mundial’ como projetado pelo Partido que domina.”

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