”No sniper finlandês Simo há algo 
 de heroico, de mitológico e de propagandístico”
FOTO: Leonardo Negrão

”No sniper finlandês Simo há algo de heroico, de mitológico e de propagandístico”

O romancista francês Olivier Norek, que foi trabalhador humanitário na ex-Jugoslávia e oficial da polícia, fez uma profunda recolha de testemunhos e de informação para reconstruir a Guerra de Inverno (1939-1940), em que a Finlândia resistiu à invasão pela União Soviética.
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Comecemos por Simo Häyhä, protagonista deste Os Guerreiros de Inverno. Por que é este sniper uma figura tão excecional, não só na Finlândia, mas também a nível internacional?

Em primeiro lugar, por causa da sua origem. Simo não é um assassino, não é um homicida. É um agricultor que cuida da família, da quinta e da floresta. As suas presas são os lobos e os ursos que atacam os animais dele. Um dia, descobre que os lobos e os ursos mudaram: agora chamam-se russos e estão a atacar o seu país. Então terá de se tornar soldado. Quando se escreve um livro, procura-se um herói, e é preciso elevá-lo, sublimá-lo: ele é pequeno e vai tornar-se gigantesco. Normalmente é preciso inventá-lo, porque os heróis são raríssimos. Aqui, eu tinha diante de mim a própria imagem de um herói: um agricultor que se tornou o pesadelo de toda a Rússia. Um país pequeno, com 3 milhões de habitantes, e dentro dele Simo, que vai assustar 171 milhões de pessoas num país do tamanho de um continente. O que também é muito interessante é que usava uma espingarda de caça, não uma arma de sniper, e não usava mira telescópica, por causa do reflexo do sol. Inventou as primeiras técnicas do atirador de elite: punha neve na boca, para que o vapor da respiração não o denunciasse, e cinza no cano da arma, para evitar o reflexo do sol. Com uma espingarda de caça matou 542 russos. Há atiradores que mataram mais, mas Simo foi um dos primeiros. É por isso que é o atirador de elite mais famoso do mundo.

Fez realmente Simo a diferença na linha da frente, na Guerra de Inverno de 1939-1940, ou foi sobretudo o medo gerado nos russos, alimentado pela propaganda finlandesa, que teve impacto?

Isso é muito interessante. Há sempre propaganda. Se Simo mata alguém, conta-se a história: estava frio, estava sozinho, havia 50 inimigos à frente dele. Mesmo quando um país é atacado, faz propaganda. A Ucrânia faz propaganda, a Rússia faz propaganda, porque a guerra não se trava só no campo de batalha, mas também nas cidades, nos governos, na imprensa, na rádio. A guerra precisava de ser contada como heroica. Mas, mesmo com a propaganda, Simo não deixa de ser uma figura incrível. Fez disparos que hoje são considerados impossíveis: sem mira telescópica, acertava a 500 metros. Quando estive na Lapónia finlandesa, na neve, aluguei uma pequena cabana, virei-lhe as costas e caminhei 500 metros. Quando me voltei, já não conseguia ver a cabana. E Simo acertava a essa distância. Conseguia ficar deitado na neve durante horas. Eu experimentei e aguentei 15 minutos. É um herói, mas é quase um mito, quase uma lenda, e na palavra mito há algo de sobrenatural. Há nele algo de heroico, de mitológico e de propagandístico. É uma mistura dos três.

Outra personagem interessante é Aarne Juutilainen, um militar profissional, essencial para guiar soldados que eram civis armados?

Sim, porque precisamos sempre de um chefe. O Exército não tem uma estrutura horizontal; é vertical. Juutilainen não é o melhor chefe, é um pouco louco. É aquilo a que se chama um cão de guerra: pessoas que vivem em harmonia com o caos e com a violência. Quando as coisas explodem, quando há tiros por todo o lado, enquanto nós estaríamos a tremer, Juutilainen mantém a mão firme. Em tempo de paz, não sabemos o que fazer com estas pessoas. Mas, em tempo de guerra, os cães raivosos tornam-se muito importantes. Quando Juutilainen dizia “ao ataque”, ia com os soldados. Era um chefe, mas também um líder dos seus homens. E o incrível, para mim, numa visão mais pessoal, é que Juutilainen foi legionário. Serviu na Legião Estrangeira francesa, em Marrocos, e ao fim de cinco anos obteve a nacionalidade francesa. O meu avô também foi legionário em Marrocos. Eu não sabia disso antes de ir à Finlândia. Um dia liguei ao meu pai e disse-lhe: “Conheci alguém incrível. Chama-se Juutilainen, chamam-lhe o Terror de Marrocos.” E o meu pai respondeu: “Mas o teu avô também foi legionário em Marrocos.” Enviei-lhe uma fotografia de Juutilainen, o meu pai vasculhou as caixas e encontrámos fotografias do meu avô e de Juutilainen. O mais louco é que se pode contar qualquer história em qualquer país: se puxarmos o fio à meada o suficiente, encontramos sempre um primo, um avô, porque o mundo é feito de movimentos de populações. A minha família é francesa há 80 anos; os Norek, em França, são um fenómeno muito recente. É graças ao meu avô que somos franceses. E foi também graças a ele, por se ter cruzado com Juutilainen, que tive coragem de terminar este livro, porque, ao contar esta história, estava também a contar uma parte da minha.

O que é verdade e o que é ficção no livro?

Absolutamente tudo é verdade. Se alguém vira à esquerda na página 230, é porque nos livros de História vira à esquerda. Trabalhei com historiadores, entre eles um francês e um finlandês que como que torturei durante dois anos. Depois, soldados, atiradores, veteranos, finlandeses que me abriram as suas casas e as suas caixas e me disseram: “Aqui estão todas as fotografias, todas as cartas.” Durante um ano e meio não fiz mais nada senão pesquisar. Tudo no livro é verdade, porque esta não é a minha história, não são os meus irmãos de armas, não é a minha herança. Se me dedico à História da Finlândia, sou obrigado a contar apenas a verdade. No entanto, sou um romancista policial e tenho uma forma particular de contar histórias: frases e capítulos relativamente curtos, uma narrativa que lembra um romance de aventuras ou um policial. Não escrevo como um historiador. Escrevo como um showman, para prender o leitor. Consegui fundir as duas coisas: um livro de História, mas envolvente. E, por se tratar de guerra, precisei também de poesia, de lirismo, porque senão seria apenas uma história de explosões, tiros e morte. É também uma responsabilidade, porque esta guerra é quase fundadora para a Finlândia.

FOTO: Leonardo Negrão

Sentiu essa responsabilidade?

Tive muita sorte, porque a Finlândia é um país que merece ser mais conhecido, e os próprios finlandeses falam pouco da sua história. Quando comecei a escrever este livro, foram muito simpáticos comigo. Fui recebido pela ministra dos Negócios Estrangeiros e, um mês depois, pelo ministro da Cultura, e fui condecorado pelo presidente da Finlândia. O presidente deu o meu livro ao rei Carlos, e o rei Carlos oferece-o a toda a gente que encontra. É uma história completamente louca. Nunca imaginei que esta velha guerra se tornasse o livro mais importante de toda a minha carreira.

O livro tornou-se um fenómeno de vendas, mas na Finlândia representa algo muito especial: este romance é a homenagem de um estrangeiro à Finlândia.

Está em 3.º lugar nas vendas há mais de um ano, e o presidente escreveu-me uma carta a dizer que escrevi o romance nacional do país. Acho que o disse para ser simpático. Mas os finlandeses adoram o livro, e vai ser adaptado ao cinema.

Por que é que a União Soviética falhou nessa guerra? Houve a resistência heroica finlandesa, ajudada por um dos piores invernos da história, mas também eram recentes as purgas de Estaline que deixaram o Exército Vermelho sem muitos oficiais qualificados.

E sem oficiais só se pode dizer a Estaline o que ele quer ouvir. Se algo corre mal, não se conta a Estaline. Ele continua a errar porque ninguém se atreve a falar com ele; todos têm pavor. Há uma história no livro: Estaline quer construir um hotel. Um arquiteto apresenta duas fachadas e Estaline assina no meio. O arquiteto pergunta a Molotov: “E agora? A da esquerda ou a da direita?” Molotov responde: “Não sei, ele assinou ao meio. Queres ir perguntar-lhe?” “Não, está tudo bem.” Ainda hoje se pode olhar para o Hotel Moskva: tem duas fachadas diferentes, porque o arquiteto teve tanto medo que construiu as duas em vez de perguntar a Estaline qual queria. Este reflexo explica todas as guerras da Rússia. Quando se tem medo de falar com Estaline ou, agora, com Putin, como se pode ter um programa militar funcional? Então há a personalidade de Estaline, há as purgas e há também uma certa arrogância. Os russos estavam convencidos de que tudo terminaria em duas semanas. Enviaram saxofones e trompetes com os soldados; estavam prontos para celebrar. Subestimar o adversário é um erro enorme, e Putin fez a mesma coisa com a Ucrânia. Há outra razão muito importante. Estaline, tal como Putin, tinha um grande apreço pelos “verdadeiros russos”. Inicialmente, não enviou soldados russos, mas minorias étnicas de todas as partes. Falavam-se 27 línguas diferentes no Exército de Estaline; ninguém se entendia, e todas as ordens tinham de ser traduzidas. Havia soldados pouco dispostos a combater. E depois há aquilo a que se chama a causa justa. Quando a Rússia invade a Finlândia, os soldados russos avançam porque receberam ordens. Perguntam “porquê?” e respondem-lhes: “Cala-te e avança.” Isso não faz um bom soldado. Do outro lado, aos finlandeses diz-se: “Avancem para salvar a vossa mulher, o vosso filho, a vossa terra, a vossa cultura, a vossa quinta, o vosso país.” Quem não luta por si mesmo, mas por algo maior, pelos outros, pelo bem comum, é um herói e torna-se invencível. De um lado há soldados que lutam porque Estaline mandou, do outro há pessoas que lutam com o coração. E Mannerheim teve uma ideia completamente louca. Estrategicamente, brilhante. Em termos humanos, uma ideia que o manteve acordado à noite durante anos: decidiu que cada aldeia formaria uma unidade de combate. Isso significa que, quando há tiros por todo o lado, à esquerda está o nosso irmão, à direita o nosso primo, à frente os nossos vizinhos e atrás o nosso melhor amigo. Entre os finlandeses, quando um soldado morria, nunca era um estranho. Entre os russos, quando um soldado caía, nem se sabia quem era. Os finlandeses defendiam o país, mas também as pessoas que mais lhes importavam. Mannerheim foi um grande estratega. Parte desta guerra foi ganha por algo incrível: o amor. É uma das primeiras vezes na história da guerra que um chefe militar pensa assim: “Porque se amam, avançarão.” O amor faz parte da estratégia.

Mannerheim foi realmente alguém excecional?

Na Guerra de Inverno, é o líder capaz de unir o país e de criar a estratégia de defesa. Mannerheim aprendeu a ser soldado entre os russos, no Exército do czar. Quando os soviéticos declararam guerra à Finlândia, perceberam que o chefe militar finlandês era um soldado que eles próprios tinham formado, que conhecia os segredos, as técnicas, os métodos e a alma dos russos, a sua forma de pensar.

Mannerheim foi militar da Rússia czarista antes da independência da Finlândia.

Sim. A Rússia czarista e a Rússia soviética não eram a mesma coisa, mas o espírito permanece, e as técnicas de combate também. Em segundo lugar, Mannerheim tinha 72 anos quando a Guerra de Inverno começou e não queria ir. Escreveu à filha: “Tenho 72 anos, não quero voltar à guerra. Mas se tivermos de ir, levarei os filhos da Finlândia para serem mortos perante a gigantesca Rússia.” Fez tudo para evitar o confronto. Disse ao presidente: “Estaline quer território? Dê-lhe território. Caso contrário, vamos perder muitos finlandeses. Vai ser um massacre.” Não é esse o verdadeiro papel de um chefe de guerra? Alguém que evita a guerra ao máximo. Um chefe de guerra que quer fazer a guerra é um louco. Um verdadeiro chefe olha para o mapa e diz: “Esperem, vamos usar a diplomacia, vamos conversar.” E, se a guerra for inevitável, então está pronto. Nesse sentido, Mannerheim foi um líder muito inteligente e sensível. E, quando a guerra começou, foi o verdadeiro líder que uniu toda a Finlândia. No fim, a Rússia foi obrigada a assinar um tratado de paz. É uma vergonha para a Rússia: a gigantesca Rússia não conseguiu esmagar a Finlândia, mas anos depois derrotou Hitler. Porquê? Porque, contra Hitler, os russos defendiam a sua terra, a sua pátria. Tinham uma causa justa, e quando lhes diziam “avancem”, sabiam porquê. Uma causa justa torna-nos invencíveis. É por isso que o livro abre com a frase “por uma causa justa, com uma espada pura”, que está no túmulo de Mannerheim. Se a causa é justa, o sangue na espada não está manchado, porque é o sangue da defesa: tu atacaste-me, eu defendo-me. A Rússia falhou miseravelmente contra a Finlândia porque não tinha uma causa justa. Mas depois venceu Hitler, perdendo milhões de cidadãos. Devemos lembrar hoje o que devemos à Rússia. É claro que a Rússia assusta, mas também devemos lembrar-nos da nossa própria história.

”No sniper finlandês Simo há algo 
 de heroico, de mitológico e de propagandístico”
“Depois da Ucrânia, finlandeses perceberam que já não precisavam da neutralidade. Mudou tudo numa noite”
”No sniper finlandês Simo há algo 
 de heroico, de mitológico e de propagandístico”
“Putin está a canalizar tanto o poder Romanov como o soviético para um novo paradigma de Estado russo”
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