Em 2012, Navalny durante a onda de manifestações populares contra o resultado das eleições que levou Putin de volta à presidência.  James Hill/The New York Times
Em 2012, Navalny durante a onda de manifestações populares contra o resultado das eleições que levou Putin de volta à presidência. James Hill/The New York Times

Navalny. O opositor destemido juntou-se à lista de quem fez frente ao “czar da corrupção”

Alexei Navalny é o mais recente adversário do Kremlin a desaparecer, depois de ter sido considerado o homem que Vladimir Putin mais temia. Morreu enquanto enfrentava uma longa pena de prisão, embora na véspera mantivesse o humor e o espírito combativo.
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O líder do movimento que ao longo de anos expôs a corrupção endémica do regime russo morreu na colónia penal de Kharp, no extremo norte da Rússia. Alexei Navalny, de 47 anos, “sentiu-se mal” após uma caminhada, “perdendo quase imediatamente a consciência”, disseram as autoridades. Nem oficial nem oficiosamente se sabe mais sobre o que levou diretamente à morte do homem que quis candidatar-se à presidência russa. Porém, a responsabilidade política já foi atribuída. No Ocidente, a Vladimir Putin. Em Moscovo, a crer nas palavras do presidente da Duma, a vários líderes estrangeiros. Seja qual for o grau de responsabilidade, o facto é que ao “czar da corrupção”, epíteto com que Navalny brindou Putin, não há adversário político que sobreviva. 

Ao longo dos anos Alexei Navalny foi visto a preto e branco pelos meios de comunicação ocidentais: ora um cavaleiro impoluto numa cruzada contra um sistema corrupto gerido a partir do Kremlin, ora um perigoso nacionalista que flirtou com grupos xenófobos e de extrema-direita (a Amnistia Internacional chegou a retirar o estatuto de “prisioneiro de consciência”, e depois arrependeu-se), ora ainda um populista que tentou captar primeiro as simpatias mais à direita e anos depois mais à esquerda.

Coautor da biografia Navalny: Putin’s Nemesis, Russia’s Future?, para Ben Noble as inflexões do ativista russo podem ser qualificadas de oportunistas, mas acima de tudo “refletem a disponibilidade de Navalny para subordinar tanto as táticas como as exigências de fundo à única coisa em que tem sido notavelmente coerente, e que é a necessidade de lutar contra um sistema autoritário que usa a corrupção e a repressão para garantir o seu poder”. 

Através de documentários publicados no YouTube, a Fundação Anticorrupção de Navalny fez o que nenhum outro opositor se atreveu, ao acusar o atual e o anterior presidente Dmitri Medvedev de corrupção. Em O Palácio de Putin os russos ficaram a saber de uma propriedade situada em Krasnodar, no sul do país, e que terá custado mil milhões de dólares.

O preço a pagar foi primeiro o da sua liberdade, ao enfrentar sucessivas condenações e acusações (desde desvio de fundos a extremismo), por fim a morte. Mas o regime russo não o vergou. Na quinta-feira, durante uma audiência por videoconferência, gracejou com o juiz. “Meritíssimo, estou à espera. Vou enviar-lhe o número da minha conta pessoal, para que possa usar o seu enorme salário de juiz federal para alimentar a minha conta pessoal”, disse a rir-se. “Porque o meu dinheiro está a acabar e, graças às suas decisões, vai acabar ainda mais depressa. Por isso, por favor, mandem-me alguma coisa. E vocês, nos centros de detenção, contribuam também.” 

O coro de condenações a Putin em reação à morte deste laureado com o Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento enquadra-se na perseguição política a Navalny que diversas ONG têm denunciado, numa sociedade onde a repressão foi aumentando desde a eleição e consequentes protestos maciços de 2012.

No entanto, para o presidente da câmara baixa do Parlamento russo, Vyacheslav Volodin, “Washington e Bruxelas são os culpados pela morte de Navalny”, tendo dito que são estes quem beneficia - do secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, aos líderes americanos, do alemão Olaf Scholz, ao britânico Rishi Sunak e ao ucraniano Volodymyr Zelensky, “todos são culpados pela morte de Navalny”, declarou Volodin.

O exercício de Volodin esbarra nos factos. Não é preciso citar o presidente norte-americano Joe Biden, que em tempos chamou “assassino” a Putin, contra quem o Tribunal Penal Internacional emitiu um mandado de detenção pela “deportação e transferência ilegais de crianças ucranianas das zonas ocupadas da Ucrânia para a Federação Russa”. Durante a sua presidência morreram 21 jornalistas, desde o caso mais conhecido, Anna Politkosvkaya, abatida a tiro depois de expor os abusos na Chechénia ao de, por exemplo, Maksim Borodin, que oficialmente se suicidou depois de ter revelado que 200 mercenários do grupo Wagner tinham sido mortos pelas forças dos EUA na Síria.

Também por aparente suicídio foi encontrado morto Boris Berezovsky, ex-oligarca que procurou refúgio em Londres. Tinha acusado Putin da morte do dissidente Alexander Litvinenko, envenenado com polónio em 2006. Ainda em terras britânicas, o ex-agente secreto Sergei Skripal sobreviveu a um ataque com Novichok. 

Sem sermos exaustivos, além de Politkovskaya, foram mortos a tiro outros críticos como o então líder da oposição Boris Nemtsov (a metros do Kremlin), o político Sergei Yushenkov, a defensora dos direitos humanos Natasha Estemirova, de uma só vez o advogado ativista Stanislav Markelov e a jornalista Anastasia Baburova. Sergei Magnitsky foi agredido até à morte na prisão depois de ter revelado um esquema de corrupção estatal. E antigas pessoas próximas de Putin, como Roman Stepov (chá envenenado) ou Yevgeny Prigozhin (desastre de avião), não ficam para contar a história.

Numa audiência por videoconferência relacionada com as acusações de extremismo, em maio de 2023.

Cronologia

Suburbano
Filho de um oficial do Exército Vermelho e de uma contabilista, Alexei Anatolyevich Navalny nasceu em 1976, durante o consulado de Brejnev. Cresceu em Obnisnk, nos subúrbios dos subúrbios de Moscovo.

Advogado e investidor
Na década de 90, já com os pais dedicados à iniciativa privada, Navalny licencia-se em Direito e, já advogado, dedicou-se ao estudo de mercados de valores mobiliários. Foi como investidor de ações e títulos que mais tarde comprovou a falta de transparência da economia russa. 

Nacionalista
Membro do partido liberal Yabloko entre 2000 e 2006, saiu em divergência por apoiar uma marcha nacionalista. No ano seguinte foi cofundador de um movimento contra a imigração. Em 2010 frequentou uma formação sobre liderança em Yale, EUA, o que terá ajudado a moderar-se.  

Bloguista
Da participação nas assembleias de acionistas das empresas de energia em que investiu nasceu um blogue no qual  denunciou a opacidade e a corrupção. O seu sucesso levou-o a criar uma equipa de investigação sobre outras denúncias. 

Ativista
Em 2011 foi detido pela primeira vez ao protestar contra a fraude eleitoral nas parlamentares. No ano seguinte, o mesmo aconteceu durante as manifestações contra a eleição de Putin. Em 2013 concorreu à Câmara de Moscovo: teve 27% contra o então e atual presidente Sobyanin. 

Opositor
Em 2016 anunciou a candidatura à presidência, mas foi impedido por ter sido condenado por desvio de dinheiro anteriormente. Isto apesar de o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem ter concluído que Navalny não teve direito a um julgamento justo. 

Mártir
Atacado com ácido na cara em 2017 e com Novichok em 2020, e em ambas as vezes tratado no estrangeiro, escolheu regressar e enfrentar o destino. Não sem antes publicar o vídeo sobre o palácio secreto de Putin e desmascarar os autores do atentado em que envenenaram as suas cuecas.

Reações

Joe Biden EPA/YURI GRIPAS / POOL

“Estou literalmente não surpreendido e indignado com a notícia. Não se equivoquem, Putin é responsável pela morte de Navalny.”
Joe Biden, presidente dos EUA

“Como ninguém, Alexei Navalny era um símbolo de uma Rússia livre e democrática. Foi precisamente por essa razão que teve de morrer”. 
Annalena Baerbock
Ministra dos Negócios Estrangeiros da Alemanha

“Na Rússia de hoje os espíritos livres são enviados para o Gulag e condenados à morte.”
Emmanuel Macron
Presidente de França

“Um aviso sombrio do que Putin e o seu regime são. Vamos unir-nos na luta para salvaguardar a liberdade e a segurança daqueles que ousam opor-se à autocracia.”
Ursula von der Leyen
Presidente da Comissão Europeia  

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