Movimento estudantil vence eleições na Sérvia e afasta Aleksandar Vučić após 14 anos
As ruas de Belgrado, Novi Sad, Niš e Kragujevac foram tomadas na noite deste domingo por centenas de milhares de pessoas em celebração ruidosa, empunhando bandeiras nacionais ao som de buzinas e palavras de ordem que proclamavam o fim de uma era.
Pouco mais de hora e meia após o encerramento das urnas, o homem que dominou a política sérvia durante 14 anos surgiu perante as câmaras na sede do Partido Progressista Sérvio para reconhecer, com expressão sombria, a derrota sem apelo: "A Lista dos Estudantes venceu", admitiu Aleksandar Vučić, adiantando que a sua coligação reunira cerca de 1,7 milhões de votos, contra perto de 2,2 milhões alcançados pela candidatura adversária.
As projeções eleitorais divulgadas pelo Centro para Eleições Livres e Democracia e pela Ipsos confirmam um terramoto eleitoral no parlamento de Belgrado, atribuindo à Lista dos Estudantes cerca de 52% dos sufrágios e entre 138 e 140 dos 250 assentos da câmara legislativa.
O resultado assegura com folga a fasquia de 126 deputados necessária para governar com maioria absoluta, remetendo a coligação governamental do SNS para a oposição com 104 lugares, enquanto os mandatos restantes se distribuem por representações de minorias nacionais.
A raiz desta mudança de ciclo remonta a 1 de novembro de 2024, quando a cobertura de betão da estação ferroviária de Novi Sad desabou subitamente sobre quem passava, matando 16 pessoas. A infraestrutura tinha sido recentemente reabilitada por consórcios sob contratos opacos e inaugurada por altos responsáveis governamentais.
O luto transformou-se em indignação coletiva contra o compadrio, a falta de escrutínio e a degradação dos serviços públicos.
Ao longo do inverno seguinte, os estudantes universitários de todo o país ocuparam reitorias e faculdades, instituindo assembleias horizontais e paragens cívicas diárias de 16 minutos às 11h52, a hora exata do desastre. Recusando qualquer associação com os partidos tradicionais da oposição, que consideravam desgastados e ineficazes, os jovens transformaram o protesto local num movimento de massas que, na primavera de 2025, reuniu mais de 300 mil pessoas na capital.
Quando o poder tentou responder com concessões parciais e pressão policial, as assembleias deram um passo estratégico: deixaram de exigir apenas inquéritos pontuais e exigiram a dissolução parlamentar.
A crise arrastou-se até que, no final do verão de 2026, confrontado com a erosão de popularidade, Vučić renunciou à Presidência da República para tentar liderar a reconquista do poder executivo a partir das eleições legislativas antecipadas.
Só que a campanha da Lista dos Estudantes desconcertou o aparelho governamental através de um pacto ético singular: nenhum estudante ou líder universitário ativo integrou as listas a deputados. Ao autoexcluírem-se, os jovens esvaziaram as acusações de ambição partidária e apresentaram ao eleitorado um coletivo de 250 personalidades independentes, composto por académicos, juristas, engenheiros, agricultores e médicos.
Para contornar o controlo governamental sobre as televisões de sinal aberto e os tabloides, brigadas de estudantes percorreram aldeias e vilas rurais em bicicletas e a pé, disputando o voto porta a porta nas regiões interiores onde o regime parecia inexpugnável.
Numa declaração emocionada no fecho da contagem, o reputado cardiologista Ilija Srdanović, primeiro nome da lista agora vencedora, sublinhou a génese popular da mudança: "A juventude deste país disse que queria mudar a Sérvia e fê-lo com os pés ensanguentados, a percorrer serras e vales para espalhar a liberdade. A partir de hoje, a Sérvia nunca mais pertencerá a um só homem."
O movimento prepara-se agora para assumir o executivo com o mandato de desclassificar contratos de obras públicas, restituir a independência ao poder judicial e despartidarizar o aparelho de Estado.

