O ex-diretor funerário Robert Bush, de 48 anos, foi condenado esta sexta-feira (31 de julho) pelo Tribunal de Hull (Hull Crown Court) a uma pena de 20 anos de prisão, após ter sido considerado culpado de violar a confiança de centenas de famílias "a uma escala quase industrial".Proprietário da Legacy Independent Funeral Directors, Bush deixou dezenas de corpos a apodrecer nas suas instalações durante meses em vez de os cremar ou enterrar, reutilizou caixões já pagos pelas famílias e misturou cinzas de vários mortos para criar um "stock" de recurso que entregava de forma fraudulenta a familiares que pressionavam pela devolução dos restos mortais.Entre as descobertas que chocaram o país esteve o corpo de um nado-morto, deixado num saco de papel nas instalações da empresa durante quase dois anos.Fraude descoberta por acasoO esquema começou a desmoronar-se em março de 2024, enquanto Bush se encontrava de férias no Arizona, segundo noticia o The Telegraph. Um funcionário da agência revelou a profissionais de outra empresa funerária que no interior do edifício se encontravam corpos armazenados "há anos", descrevendo o local como uma verdadeira "cena de terror".A Polícia de Humberside foi alertada e, ao inspecionar a agência, encontrou corpos empilhados em prateleiras e no chão, a maioria sem qualquer cobertura e em adiantado estado de decomposição. Para poupar na fatura da eletricidade, Bush mantinha os cadáveres fora de áreas refrigeradas. A inspeção revelou ainda caixas cobertas de bolor com cinzas humanas espalhadas pelo chão, fotografias e joias que deveriam ter sido devolvidas às famílias.A investigação revelou ainda um enorme esquema de fraude financeira. Bush vendeu planos funerários a mais de 220 pessoas, arrecadando mais de 500.000 libras (cerca de 580 mil euros) que nunca cumpriu. Além disso, desviou doações recolhidas durante as cerimónias fúnebres destinadas a 12 instituições de solidariedade social, como a Salvation Army, a Macmillan Cancer Support e a Royal National Lifeboat Institution (RNLI).A auditoria às suas finanças provou que, ao longo de sete anos, Bush usou o dinheiro extorquido para financiar um estilo de vida de luxo, gastando 42.000 libras em viagens, 21.000 libras em corridas de motociclismo e 17.400 libras em remodelações na sua própria casa.Nenhuma família pode ter a certeza de que recebeu os restos mortais certos, disse juizAo proferir a sentença, o juiz Hilliard sublinhou que Bush agiu movido por uma "ganância financeira e uma frieza de ânimo chocantes", acrescentando que nenhuma família que tenha recorrido aos seus serviços entre 2017 e 2024 pode ter a certeza de ter recebido as cinzas corretas dos seus entes queridos.O desfecho do julgamento gerou revolta entre os familiares das vítimas, que consideraram a pena de 20 anos insuficiente perante a dimensão dos crimes. O impacto do caso levou o primeiro-ministro britânico a afirmar que o Governo irá avançar com medidas para reforçar a forma como a regulamentação sobre agências funerárias e morgues no Reino Unido é aplicada.