O Presidente da Argentina, Javier Milei
O Presidente da Argentina, Javier MileiEPA/Esteban Garay

Disputa pela soberania. Milei ameaça empresas que operem nas Malvinas e anuncia base naval no sul da Argentina

Presidente argentino diz que no "mundo sopram ventos de mudança favoráveis" à reivindicação de soberania, referindo-se à disponibilidade de Trump para "rever" a posição de neutralidade de Washington.
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O Presidente da Argentina, Javier Milei, anunciou quinta-feira, 4 de setembro, sanções contra as empresas que explorarem recursos naturais nas Ilhas Malvinas e a construção de uma base militar num dos pontos continentais mais próximos do arquipélago do Atlântico Sul.

"Iremos proibir as empresas envolvidas, direta ou indiretamente, em projetos nas Ilhas Malvinas sem autorização argentina de operar em território argentino", afirmou Milei numa mensagem transmitida pela televisão nacional.

O chefe de Estado anunciou ainda a assinatura de um decreto para aumentar os recursos do Ministério da Defesa com o "objetivo prioritário" de construir uma base naval integrada na província da Terra do Fogo, cujo território a Argentina considera que inclui as Malvinas, sob ocupação britânica e cuja soberania é reivindicada pelo país sul-americano.

"Esta base tornar-nos-á o polo logístico mais importante do Atlântico Sul e será fundamental para a projeção geopolítica da Argentina", afirmou.

Milei anunciou que assinará um decreto para acelerar a aplicação de sanções às empresas que operam nas Malvinas, aos seus acionistas, dirigentes e fornecedores, e que enviará ao Parlamento um projeto de lei para endurecer as penas contra essas empresas, as quais não poderão operar no território continental argentino e poderão ser sujeitas a julgamentos à revelia.

Milei referiu-se, em particular, ao projeto do consórcio formado pela empresa israelita Navitas (65%) e da britânica Rockhopper (35%) de extração de petróleo bruto nas ilhas, que poderá marcar o início da exploração petrolífera no arquipélago ocupado pelo Reino Unido desde 1833.

"Se hoje não agirmos com firmeza e rapidez, dentro de poucos meses terão a capacidade material de se apropriarem das reservas de petróleo que se encontram sob o nosso mar, algo que nunca tinha acontecido até agora", afirmou Milei.

A Argentina já impôs sanções à Rockhopper em 2013 e à Navitas em 2022. A petrolífera britânica Borders & Southern e a canadiana JHI também detêm licenças de exploração petrolífera nas ilhas.

Milei antecipou que procurará que as sanções se apliquem a outras atividades nas Malvinas, cuja economia se baseia na pesca, turismo de cruzeiros e na criação de ovinos.

O Presidente argentino explicou que o projeto de lei que irá apresentar criará também um Conselho de Segurança Nacional, que "estabelecerá um quadro para a proteção das infraestruturas críticas e para a proteção aeroespacial e marítima" da Argentina.

"Um país pobre e sem Forças Armadas dificilmente poderá avançar de forma eficaz nas suas reivindicações soberanas", afirmou Milei, acrescentando que "proteger o Atlântico Sul é também uma questão de segurança nacional".

O chefe de Estado afirmou ainda que as grandes nações irão competir pelos recursos necessários "para alimentar o crescimento que a era da inteligência artificial trará" e que, "nessa disputa, a Antártida será um dos principais focos de interesse e concorrência".

No "mundo sopram ventos de mudança favoráveis" à reivindicação argentina de soberania, disse Milei, referindo-se às recentes declarações do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que disse estar disposto a "rever" a posição de neutralidade de Washington na disputa entre a Argentina e o Reino Unido.

"Trump declarou que os Estados Unidos estão a reavaliar a sua posição histórica em relação às Malvinas", sublinhou. "Esta ameaça não é inofensiva. Os Estados Unidos estão a ponderar essa mudança de posição porque sabem que têm na Argentina um parceiro de confiança, alinhado com os valores ocidentais, numa posição de relevância estratégica, que pode ser um aliado valioso nas próximas décadas", acrescentou.

O Reino Unido, segundo o Presidente argentino, enfrenta "múltiplas crises de natureza migratória, demográfica e económica, que dificilmente terão solução", considerando "evidente que [o país] está a percorrer um caminho de declínio". Pelo contrário, na sua opinião, "o futuro da Argentina é próspero e irá prevalecer".

Entretanto, o ministro da Defesa do Reino Unido respondeu esta sexta-feira às declarações de Milei, sublinhando que o compromisso de Londres com as ilhas, que os britânicos designam como Falkland, “é absoluto e inabalável”.

"A declaração de Milei durante a noite revela mais sobre a política interna da Argentina do que sobre as ilhas Falklands. As Falklands são britânicas porque os habitantes das Ilhas Falklands escolhem ser britânicos. O nosso compromisso com as Falklands é absoluto e inabalável", vincou, numa publicação na rede social X.

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