Primeira página do DN com invasão das ilhas Malvinas
Primeira página do DN com invasão das ilhas Malvinas

Malvinas/Falklands: do “quem não salta é um inglês” ao “um jogo de futebol é melhor do que uma guerra”

Cientista político argentino Andrés Malamud e historiador inglês Kenneth Maxwell desvalorizam hipótese de nova guerra por causa das ilhas. Bastou a de 1982.
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"As Malvinas são uma causa nacional de alta intensidade emotiva mas baixo impacto geopolítico. A Argentina não tem forças armadas operativas (perdeu a capacidade submarina depois do afundamento do ARA San Juan em 2017 e apenas acaba de recuperar a capacidade supersónica, mas os F16 comprados à Dinamarca carecem de armamento). Em qualquer caso, já ninguém reivindica a recuperação das ilhas pela via militar. Porém, o folclore exige mencioná-las nos cantos da torcida e a Inglaterra é o grande rival histórico: a arenga de estádio mais famosa é ‘el que no salta es un inglés’”, diz Andrés Malamud, cientista político argentino, do ICS da Universidade de Lisboa.

Se o impacto geopolítico é hoje baixo, a disputa entre Buenos Aires e Londres pela soberania das Malvinas, arquipélago a que os ingleses chamam Falklands, mostra a tal alta intensidade emotiva sempre que se aproxima um jogo de futebol entre a Argentina e a Inglaterra, como acontece nesta quarta-feira, em Atlanta, para as meias-finais do Mundial. E apesar de já ter havido outros embates futebolísticos entre os dois países, vem sempre à memória o jogo do Mundial de 1986, na Cidade do México. Explica Malamud que “foi o jogo mais importante da história argentina a seguir às três finais. No êxtase, não acreditámos que o primeiro golo tivesse sido com a mão, mas soubemos logo que o segundo seria o melhor do século. Foi a revanche pacífica mas catártica pela derrota das Malvinas, e para os politizados, também a primeira vitória da democracia (o Mundial 1978 tínhamos ganho sob ditadura e nem todos celebraram)”. Maradona marcou os dois golos.

As ilhas são disputadas desde o século XIX, com a nova Argentina independente a reivindicar um direito histórico por ser a sucessora de Espanha e pela proximidade geográfica, enquanto o Reino Unido argumentou ter sido pioneiro no território e que a população se sente britânica. Em 1982, um desembarque a 2 de abril nas ilhas pela Argentina foi bem sucedido de início, até que uma armada britânica fez 13 mil quilómetros e expulsou os invasores ao fim de dois meses de guerra. A ditadura militar argentina caiu, desacreditada, abrindo portas à democracia, enquanto a primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher, obteria nas eleições seguintes uma estrondosa vitória.

Morreram nessa Guerra das Malvinas, que o DN noticiou logo na primeira página a 3 de abril de 1982, cerca de 900 militares, dois terços deles argentinos. Morreram três ilhéus também.

“Lembro a atuação de Diego Maradona em 1986, que foi uma ação catastrófica para os ingleses [1-2]. Mas, é curioso, eu acho que, em geral, os argentinos são mais engajados nesta disputa do que os ingleses. E a recente declaração do ministro dos Negócios Estrangeiros argentino sobre as Malvinas, sobre as ilhas Falkland, foi um tipo de provocação. Acho que os ingleses estão mesmo mais engajados no jogo de futebol, na atuação de astros ingleses, como Bellingham e Rashford e Kane, contra Messi”, afirma Kenneth Maxwell. O historiador inglês recorda que, em 1982, quando “Margaret Thatcher decidiu enviar a armada foi muito apoiada pelos ingleses. Mas, e esta é uma questão importante, agora os ingleses não têm a mesma capacidade de chegar ao Atlântico Sul”. Também a situação geopolítica mudou, sublinha Maxwell, lembrando que na época Thatcher e Ronald Reagan tinham muito boa relação, “enquanto hoje Donald Trump está na Casa Branca e está muito engajado com Javier Milei, presidente da Argentina, e tem esta ideia de um hemisfério ocidental para os americanos”.

Nas ilhas, que contam com cerca de 3500 habitantes, ao contrário do que acontecia em 1982, há hoje uma presença militar permanente britânica, inclusive com caças Eurofighter Typhoon.

O historiador acrescenta que “a maioria dos britânicos considera as Falklands suas”, mas que é um assunto distante: “A intensidade argentina é muito mais alta do que a inglesa. E mesmo se alguns políticos podem utilizar a questão, em geral, não tem uma repercussão muito grande entre as pessoas. O povo está mais engajado com o futebol. Quer um jogo excecional, que eu acho que vai ser muito competitivo. E isso, na minha opinião, é uma coisa boa. Que estejam ingleses e argentinos engajados num jogo de futebol e não com a guerra. Uma guerra no campo de futebol é melhor solução”.

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