Emmanuel Macron começou ontem em Berlim aquela que é a primeira visita de Estado de um presidente francês à Alemanha em 24 anos e leva na agenda tentar amenizar as tensões entre Paris e Berlim e passar uma imagem de união, mas também discutir os perigos da extrema-direita, que está em alta nos dois países, nas vésperas das eleições europeias. .O eixo franco-alemão, visto por muitos como o motor da União Europeia, já viveu melhores dias, graças ao estilo muito diferente dos seus dois atuais líderes, mas também a desacordos públicos como a possibilidade lançada por Macron, e recusada pelo chanceler alemão, Olaf Scholz, de enviar para a Ucrânia tropas ocidentais. Ao mesmo tempo, têm conseguido alguns compromissos dentro da União Europeia em temas como reforma fiscal e subsídios para o mercado energético, concordando igualmente no alargamento do bloco europeu para leste. .“A relação franco-alemã consiste em discordar e tentar encontrar formas de compromisso”, explicou à AFP Hélène Miard-Delacroix, especialista na relação franco-alemã na Universidade Sorbonne. “Existem tensões na relação franco-alemã, mas em parte porque têm de lidar com alguns tópicos difíceis”, referiu também, à Reuters, Yann Wernert, do Instituto Jacques Delors em Berlim. Já Mujtaba Rahman, diretor para a Europa da empresa de análise de risco Eurasia Group, as relações entre a França e a Alemanha “continuam estranhas, beirando o hostil”. “Nas grandes questões, deve-se esperar pouco progresso”, escreveu este especialista na rede social X..Numa sessão de perguntas e respostas nas redes sociais com jovens, realizada já este mês, Emmanuel Macron recorreu à ajuda de Scholz quando lhe perguntaram se o “casal” franco-alemão ainda funcionava. “Olá, queridos amigos, viva a amizade franco-alemã!”, respondeu Scholz em francês num vídeo na página de Macron na rede social X. “Obrigado, Olaf! Concordo plenamente contigo”, respondeu Macron em alemão..Apesar de Emmanuel Macron - tal como aconteceu com os seus antecessores François Hollande e Nicolas Sarkozy - viajar frequentemente até Berlim, esta é a primeira visita de Estado de um presidente francês à Alemanha desde Jacques Chirac em 2000 e apenas a sexta no pós-guerra, uma tradição iniciada por Charles de Gaulle em 1962. .Este domingo o presidente francês encontrou-se em Berlim com o seu homólogo alemão, Frank-Walter Steinmeier, cujo papel é em grande parte cerimonial. Hoje à tarde, viajará para Dresden, na antiga Alemanha de Leste, para fazer um discurso sobre a Europa num festival europeu. Amanhã está marcado para Meseberg, nos arredores de Berlim, um encontro com Scholz e um Conselho de Ministros conjunto, onde as duas partes deverão tentar encontrar um entendimento nos dois assuntos que mais os têm dividido: Defesa e Competitividade. .Macron e Steinmeier participaram num festival de democracia, onde o francês alertou para uma “forma de fascínio pelo autoritarismo que está a crescer” nos dois principais países da UE. “Esquecemos muitas vezes que é uma luta” para proteger a democracia, acrescentou Macron. “Precisamos de uma aliança de democratas na Europa”, disse, por seu turno, Steinmeier, referindo que Macron “apontou com razão que as condições hoje antes das eleições europeias são diferentes das eleições anteriores, muita coisa aconteceu”..Esta visita de Estado ocorre precisamente duas semanas antes das eleições europeias, com as sondagens em França a apontarem para um grande constrangimento potencial de Macron - as mais recentes dão uma vantagem média de 15 pontos ao partido de extrema-direita de Marine Le Pen e não garantem que a coligação do presidente francês seja a segunda força mais votada. Já na Alemanha, a sucessão de escândalos no seio do partido de extrema-direita AfD tem-se refletido nas sondagens - em dezembro, apareciam com 25% das intenções de voto, tendo baixado para os 14% numa sondagem feita na semana passada. .O discurso marcado para Dresden, uma cidade onde a AfD tem um apoio considerável, deverá ser aproveitado por Macron para alertar para o perigo que a extrema-direita representa para a Europa. Em abril, o francês lançou um alerta sobre as ameaças à Europa num mundo em mudança, na sequência da invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. “A nossa Europa, hoje, é mortal e pode morrer”, afirmou então o líder francês. “Ela pode morrer e isso depende apenas das nossas escolhas”..ana.meireles@dn.pt