França vai aumentar número de ogivas. Macron anuncia uma "era de armas nucleares"
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França vai aumentar número de ogivas. Macron anuncia uma "era de armas nucleares"

O presidente francês discursou a partir da base militar de Ïle Longue, em Brest e lembrou que a Europa tem de ser capaz de se defender sozinha.
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Depois de ser recebido ao som da Marselhesa na base militar de Ïle Longue, em Brest, e de ter passado revista às tropas, Emmanuel Macron começou o seu discurso a anunciar que a França entrou "no caminho do que eu chamaria a dissuasão nuclear avançada". O presidente francês explicou ainda ter ordenado "o aumento do número de ogivas do nosso arsenal". E que a partir de agora a França deixará de comunicar os números do seu arsenal nuclear, ao contrário do que acontecia no passado.

Segundo os últimos números disponibilizados pelo Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI) a França terá perto de 300 ogivas nucleares, possuindo o quarto maior arsenal do mundo, atrás da Rússia (4300), dos EUA (3700) e da China (600). Depois da França, segue-se o Reino Unido, com 225 ogivas.

Quase a terminar um discurso que durou mais de 40 minutos, Macron lembrou que desde que chegou à presidência, em 2017, tem-se "comprometido firmemente com a renovação das nossas forças estratégicas, e continuarei a empenhar-me nisso até ao final deste mandato", que termina em 2027. Tudo porque, segundo ele, "a próxima metade do século será uma era de armas nucleares".

O presidente francês lamentou a posição europeia em matéria de defesa. "Sim, os europeus habituaram-se a que a sua segurança dependa de regras estabelecidas por terceiros", lembrou, antes de garantir que "a nossa época exige outro método. Temos de reconstruir um conjunto de regras". Macron apelou aos parceiros "para que se juntem aos primeiros trabalhos que iniciámos [sobre a estabilidade da Europa] com os alemães e os britânicos". E acrescentou: "O que eu desejo acima de tudo, como compreenderão, é que os europeus retomem o controlo do seu próprio destino."

Única potência nuclear na União Europeia desde a saída do Reino Unido, França fez da autonomia e independência um pilar central da sua política de defesa desde o general De Gaulle. Este defendia que a segurança da França não podia depender dos EUA ou da NATO, desenvolvendo uma força de dissuasão com base em tecnologia totalmente nacional.

O chefe de Estado sublinhou que a França deve "reforçar a sua dissuasão nuclear face à combinação de ameaças". "E devemos pensar na nossa estratégia de dissuasão no interior do continente europeu, no pleno respeito pela nossa soberania. Com a implementação progressiva daquilo a que eu chamaria uma dissuasão avançada", prosseguiu. E explicou: "Vivemos atualmente, no plano geopolítico, um período de rutura cheio de riscos", o que "justifica um endurecimento" do modelo de dissuasão francês.

Mais de quatro anos depois da invasão russa da Ucrânia, num momento em que os EUA e Israel estão a atacar o Irão, sem esquecer a crescente violência na fronteira entre Afeganistão e Paquistão, Macron lembrou que "estamos a assistir, simultaneamente, a um aumento do risco de os conflitos ultrapassarem o limiar nuclear e a uma intensificação desses conflitos".

O presidente francês confirmou ainda a construção de mais um submarino nuclear de mísseis balísticos, o Invincible, que deverá estar operacional em 2036.

Voltando à ideia de dissuasão avançada, Macron explicou que esta contém "uma abordagem progressiva" que "oferece aos parceiros a possibilidade de participar nos exercícios de dissuasão". O presidente francês garantiu que a nova doutrina nuclear francesa "poderá prever o destacamento de meios estratégicos dos nossos aliados».

Segundo ele, oito países europeus já aceitaram participar na dissuasão avançada proposta pela França: a Alemanha, o Reino Unido, a Polónia, os Países Baixos, a Bélgica, a Grécia, a Suécia e a Dinamarca. Todos eles participarão no "apoio", ou seja, na parte convencional da manobra. Estes países poderão acolher "forças estratégicas" da Força Aérea Francesa, que poderão assim "espalhar-se pela profundidade do continente europeu" para "complicar os cálculos dos nossos adversários."

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Número de ogivas nucleares utilizáveis está a aumentar

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