As autoridades cubanas iniciaram, nas primeiras horas deste domingo, 22 de março, uma operação crítica para tentar restabelecer o fornecimento de energia em toda a ilha, foi noticiado pela agência Reuters. Este esforço, surge após o Sistema Elétrico Nacional (SEN) ter sofrido o seu segundo colapso total no espaço de uma semana, mergulhando o país numa paralisia quase absoluta e agravando a já severa crise humanitária e económica.As equipas técnicas do Ministério de Energia e Minas (Minem), de acordo com a mesma fonte, estão a trabalhar na sincronização das principais centrais termoelétricas do país. O processo é descrito como extremamente complexo, tratando-se de um "arranque a frio" do sistema, em que a carga deve ser introduzida de forma gradual para evitar que a instabilidade da rede provoque um novo curto-circuito em cascata - tal como aconteceu em Portugal, aquando do ‘Apagão’ de 2024, em que a totalidade do processo demorou entre 8-10 horas.O governo cubano, através dos seus canais oficiais e do jornal Granma, confirmou que a prioridade imediata é alimentar os serviços básicos, como hospitais e sistemas de bombagem de água, que foram severamente afetados pelo apagão generalizado.O Minem anunciou, na madrugada deste domingo, que conseguiu montar pequenos circuitos elétricos autónomos em todas as províncias, uma solução de emergência que permite garantir o funcionamento de serviços essenciais — dos hospitais ao abastecimento de água, passando pela distribuição de alimentos.A tutela acrescentou que as duas centrais a gás geridas pela Energas já operavam em Varadero e Boca de Jaruco, e que a energia tinha começado a chegar à central a fuelóleo de Santa Cruz, situada na mesma zona. A atualização foi divulgada através das plataformas oficiais do ministério.Em Havana, segundo descreveu a Reuters, o amanhecer encontrou as ruas cheias de moradores sentados à porta de casa, a trocar desabafos com os vizinhos enquanto tentavam afastar mosquitos. O céu limpo e o ar fresco contrastavam com o desalento generalizado perante a situação.Infraestrutura obsoletaSegundo a Reuters, este novo colapso deve-se a uma infraestrutura energética visivelmente degradada, com muitas das centrais térmicas de Cuba a ultrapassarem os 40 anos de operação e a carecerem de manutenção de fundo devido à falta de peças de substituição e divisas estrangeiras.Esta insuficiência de moeda forte conduz a que o país não consiga abastecer-se de combustíveis nos mercados fornecedores seus aliados, como a China, e alimenta a narrativa do regime de que a situação extrema que Cuba atravessa se deve ao "bloqueio petrolífero dos EUA". Seja como for, o escasso combustível é essencial para alimentar o sistema elétrico, o que agrava ainda mais as carências técnicas já existentes.Fontes diplomáticas e observadores internacionais, incluindo análises da AFP e da Al Jazeera, sublinham que a dependência de Cuba em relação a aliados como a Venezuela e a Rússia tornou-se um ponto de vulnerabilidade, uma vez que o fluxo de petróleo destes países tem sofrido interrupções por razões logísticas e geopolíticas.Vida em suspensoEnquanto a rede não estabiliza, o governo de Miguel Díaz-Canel mantém a suspensão de todas as atividades económicas não-essenciais. As escolas permanecem fechadas e os Serviços Administrativos limitados ao mínimo.Nas ruas, o descontentamento social é palpável, com a população a enfrentar dificuldades extremas para conservar alimentos e aceder a bens de primeira necessidade num clima de incerteza sobre quando a luz voltará a ser uma constante.Especialistas em energia consultados por órgãos como a BBC indicam que, mesmo que a rede seja reposta este domingo, o sistema permanecerá "em estado crítico" e sujeito a novos cortes se não houver uma injeção imediata de combustível e investimento técnico.