A população enfrentar dificuldades extremas para conservar alimentos e aceder a bens de primeira necessidade.
A população enfrentar dificuldades extremas para conservar alimentos e aceder a bens de primeira necessidade.Ernesto Mastrascusa / EPA / Lusa

Luta contra a escuridão: Cuba lança operação crítica para devolver luz a serviços essenciais

Atividades não-essenciais suspensas e serviços mínimos paralisam Cuba. Especialistas alertam: sem combustível ou investimento técnico, o risco de novo colapso persiste, mesmo que a rede seja reposta.
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As autoridades cubanas iniciaram, nas primeiras horas deste domingo, 22 de março, uma operação crítica para tentar restabelecer o fornecimento de energia em toda a ilha, foi noticiado pela agência Reuters. Este esforço, surge após o Sistema Elétrico Nacional (SEN) ter sofrido o seu segundo colapso total no espaço de uma semana, mergulhando o país numa paralisia quase absoluta e agravando a já severa crise humanitária e económica.

As equipas técnicas do Ministério de Energia e Minas (Minem), de acordo com a mesma fonte, estão a trabalhar na sincronização das principais centrais termoelétricas do país. O processo é descrito como extremamente complexo, tratando-se de um "arranque a frio" do sistema, em que a carga deve ser introduzida de forma gradual para evitar que a instabilidade da rede provoque um novo curto-circuito em cascata - tal como aconteceu em Portugal, aquando do ‘Apagão’ de 2024, em que a totalidade do processo demorou entre 8-10 horas.

O governo cubano, através dos seus canais oficiais e do jornal Granma, confirmou que a prioridade imediata é alimentar os serviços básicos, como hospitais e sistemas de bombagem de água, que foram severamente afetados pelo apagão generalizado.

O Minem anunciou, na madrugada deste domingo, que conseguiu montar pequenos circuitos elétricos autónomos em todas as províncias, uma solução de emergência que permite garantir o funcionamento de serviços essenciais — dos hospitais ao abastecimento de água, passando pela distribuição de alimentos.

A tutela acrescentou que as duas centrais a gás geridas pela Energas já operavam em Varadero e Boca de Jaruco, e que a energia tinha começado a chegar à central a fuelóleo de Santa Cruz, situada na mesma zona. A atualização foi divulgada através das plataformas oficiais do ministério.

Em Havana, segundo descreveu a Reuters, o amanhecer encontrou as ruas cheias de moradores sentados à porta de casa, a trocar desabafos com os vizinhos enquanto tentavam afastar mosquitos. O céu limpo e o ar fresco contrastavam com o desalento generalizado perante a situação.

Infraestrutura obsoleta

Segundo a Reuters, este novo colapso deve-se a uma infraestrutura energética visivelmente degradada, com muitas das centrais térmicas de Cuba a ultrapassarem os 40 anos de operação e a carecerem de manutenção de fundo devido à falta de peças de substituição e divisas estrangeiras.

Esta insuficiência de moeda forte conduz a que o país não consiga abastecer-se de combustíveis nos mercados fornecedores seus aliados, como a China, e alimenta a narrativa do regime de que a situação extrema que Cuba atravessa se deve ao "bloqueio petrolífero dos EUA". Seja como for, o escasso combustível é essencial para alimentar o sistema elétrico, o que agrava ainda mais as carências técnicas já existentes.

Fontes diplomáticas e observadores internacionais, incluindo análises da AFP e da Al Jazeera, sublinham que a dependência de Cuba em relação a aliados como a Venezuela e a Rússia tornou-se um ponto de vulnerabilidade, uma vez que o fluxo de petróleo destes países tem sofrido interrupções por razões logísticas e geopolíticas.

Vida em suspenso

Enquanto a rede não estabiliza, o governo de Miguel Díaz-Canel mantém a suspensão de todas as atividades económicas não-essenciais. As escolas permanecem fechadas e os Serviços Administrativos limitados ao mínimo.

Nas ruas, o descontentamento social é palpável, com a população a enfrentar dificuldades extremas para conservar alimentos e aceder a bens de primeira necessidade num clima de incerteza sobre quando a luz voltará a ser uma constante.

Especialistas em energia consultados por órgãos como a BBC indicam que, mesmo que a rede seja reposta este domingo, o sistema permanecerá "em estado crítico" e sujeito a novos cortes se não houver uma injeção imediata de combustível e investimento técnico.

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