“Porque projetos que mudam a vida de milhões de trabalhadores continuam parados no Congresso? Vamos falar da redução da jornada de trabalho, das 40 horas semanais? Isso significa mais equilíbrio entre trabalho e vida”. Esta sugestão legislativa não partiu de nenhum político profissional mas sim de Ana Paula Renault, a recente vencedora do BBB, o Big Brother Brasil. Ela, defensora do governo e crítica veemente de Jair Bolsonaro, chegou a ser equacionada pelo Partido dos Trabalhadores (PT), de Lula da Silva, como candidata a deputada em outubro. Não será. Mas a ideia foi lançada. Se a jornalista de 44 anos e nove milhões de seguidores só na rede social Instagram não está disponível, até por questões contratuais com o Grupo Globo, produtor do programa, outros influenciadores de esquerda vão mesmo candidatar-se pelo PT com o objetivo de transformar views em votos. A tática não é nova, pelo contrário. A novidade é estar a ser usada pela esquerda depois de a direita, ou a extrema-direita, ter abusado dela nos últimos anos.Nikolas Ferreira, meros 29 anos, consolidou-se como um dos deputados federais mais votados do país, especulado até como candidato presidencial do bolsonarismo algures na próxima década, graças a atuação permanente nas redes sociais em defesa do conservadorismo. Conhecido por vídeos enérgicos sobre segurança pública, o Sargento Fahur migrou na internet para a Câmara dos Deputados. Mário Frias, ator da novela Malhação, chegou a ministro da Cultura de Bolsonaro e daí transitou para o parlamento. Carla Zambelli era famosa nas redes antes de se tornar ícone do bolsonarismo. Uma imagem logo após a tomada de posse dos congressistas de direita para a legislatura de 2018 a 2022, aliás, tornou-se famosa: em simultâneo, dezenas deles, os influencers, gravavam vídeos para os respectivos perfis nas redes sociais perante o espanto dos pares mais tradicionais e analógicos. Entre esses pares estava a generalidade da mesma bancada do PT que agora Lula e a direção do partido querem revolucionar. Pelo menos 37 pré-candidatos ao cargo de deputado, federal ou estadual, do partido de centro-esquerda têm perfis digitais relevantes, com 100 mil seguidores pelo menos, e carreira política curta, ou nula, para já. “Desde a escola de Frankfurt que a esquerda tem o preconceito de que os meios de comunicação geram alienação e emburrecimento da população”, lembra Paulo Ramírez, professor de Ciência Política da Fundação Escola de Sociologia e História, ao DN. “Mas diante da catástrofe de 2018, quando Bolsonaro e uma série de políticos influencers de extrema-direita foram eleitos e a esquerda somou significativas derrotas, o campo progressista reviu a posição e passou a seguir mais a ideia do filósofo Walter Benjamin da politização da arte, ou seja, do uso de expressões artísticas como ferramentas de crítica, e a verdade é que o défice de participação no Congresso face à direita diminuiu um pouco”.O coordenador dessa política do PT é o professor e pesquisador Vinícius Betiol, ele próprio um desses exemplos, com quase 200 mil seguidores. “É a nova geração do partido”, afirmou, citado pelo jornal O Estado de S. Paulo. Para o secretário de comunicação do PT, Éden Valadares, “o telemóvel virou praticamente uma extensão dos nossos corpos”. “Temos por isso candidaturas fortes de pessoas que compreendem essa nova dinâmica para abrir assim uma perspectiva de crescimento do partido”.Entre os casos está Thiago dos Reis, um militante do PT de 36 anos e 1,5 milhões de seguidores, que repete métodos do “gabinete do ódio”, como ficou conhecido o núcleo de comunicação anexo ao Palácio do Planalto na era Bolsonaro, conduzido pelo segundo filho deste, Carlos Bolsonaro, com recurso permanente a agressividade e sensacionalismo. Além dele, concorrem Leonel Radde, 45 anos, que já é deputado estadual do Rio Grande do Sul e ator nas horas vagas, e Thiago Foltran, que mantém um canal dedicado a políticas públicas de esquerda com vídeos em defesa do governo e críticos da oposição bolsonarista, sobretudo do citado Nikolas Ferreira.Por falar em Nikolas Ferreira, o deputado de extrema-direita processou por difamação o mais mediático dos candidatos influenciadores de esquerda, Pedro Rousseff, sobrinho neto da antiga presidente Dilma Rousseff e atual vereador de Belo Horizonte. “Crítica política é legítima, difamação não”, disse Nikolas após enviar a denúncia relativa a insinuações sobre desvio de dinheiro público e tráfico de drogas. “É só mais um dos inúmeros processos que o Nikolas coleciona contra mim, quer dizer que o estamos incomodando”, reagiu Rousseff. “Com isso perdem-se as propostas económicas, políticas e sociais”, continua Paulo Ramírez, “basta ver que, em 2022, a esquerda chamou Bolsonaro de satanista, pedófilo e canibal em resposta às fake news da direita de 2018 de que, caso Fernando Haddad fosse eleito, os biberãos seriam em formato de pénis e que a família, a nação, a religião iriam acabar”. .Bolsonaro está inelegível mas três filhos, a mulher, a ex e o irmão são candidatos