Livrarias em França usam montras para combater extrema-direita e despertar consciências
ALAIN JOCARD / AFP

Livrarias em França usam montras para combater extrema-direita e despertar consciências

Quando faltam três dias para a primeira volta das eleições legislativas em França, as sondagens mais recentes dão uma vitória ao partido da extrema-direita União Nacional, com a possibilidade de obter a maioria absoluta.
Publicado a
Atualizado a

Colocando lado a lado livros sobre o nazismo, "a nova internacional fascista" ou biografias de Jordan Bardella, livrarias francesas estão a utilizar as suas montras para tentar combater a extrema-direita e despertar consciências, a três dias das legislativas.

"Temos o dever de ser um templo do conhecimento, da curiosidade, do questionamento e do combate", diz à Lusa Léa, da Librairie des Savoirs, no Quartier Latin, em Paris, que, sem o apoio da gerência da livraria e por iniciativa própria, decidiu organizar a montra principal para mostrar a "futilidade de muitos argumentos" da extrema-direita.

Quem passa à frente do número 21 da Rue des Écoles, no bairro histórico de estudantes de Paris, vê assim, lado a lado, uma biografia sobre a "face escondida" do líder da União Nacional (Rassemblement National, em francês), Jordan Bardella, um manual sobre a "arte da resistência" e a "necessidade de desobedecer", ou livros sobre os franceses que colaboraram com a Alemanha nazi durante a ocupação do país na Segunda Guerra Mundial.

"Temos de participar no debate e procurar despertar consciências, mesmo que seja de forma subtil", diz Léa.

A três dias da primeira volta das eleições legislativas - que, segundo as sondagens mais recentes, dão uma vitória à União Nacional, com a possibilidade de obter a maioria absoluta -, há centenas de livrarias em França que estão a procurar utilizar as suas montras e espaços interiores para conter a vaga da extrema-direita que parece estar a assolar todo o país.

"À nossa pequena escala, podemos propor outros imaginários que permitam combater a extrema-direita", defende Julie, da Librairie à la Marge, no bairro de Montreuil, no leste de Paris, que assume que decidiu organizar uma "montra antifascista", onde constam bandas desenhadas sobre "a história popular de França", jogos de tabuleiro sobre o "antifascismo" ou ensaios de do escritor britânico George Orwell sobre o nacionalismo.

"A montra é a primeira imagem da livraria e esta, em particular, está a funcionar muito bem, estamos a conseguir vender bem os livros que lá estão. Não sei se vai mudar alguma coisa no resultado das eleições, mas, infelizmente, é a única coisa que podemos fazer", diz.

No total, há já mais de 200 livrarias independentes em França que se estão a mobilizar para combater a União Nacional e que se reuniram à volta de um manifesto em que pedem que se "contrariem os imaginários da extrema-direita através da divulgação de outras narrativas" e se vote na Nova Frente Popular (Nouveau Front Populaire, em francês), uma coligação que une vários partidos de esquerda, como os socialistas, ecologistas, comunistas e a França Insubmissa.

No 13.º bairro de Paris, a livraria Le Chat se Livre, foi uma das signatárias do manifesto e, à Lusa, o gerente Tristan diz que, apesar de não ter organizado nenhuma montra para interpelar quem passa na rua, alterou a oferta de livros que vende ao público.

"Nós não vendemos livros do Eric Zemmour", candidato de extrema-direita, que criou o partido Reconquista]", exemplifica Tristan que, no seu balcão, propõe livros sobre "o que é ser racista", a laicidade ou o patriarcado.

No entanto, este livreiro considera que já é "tarde demais para conseguir despertar consciências" e recusa que o seu papel seja o de "convencer as pessoas a não votarem na União Nacional", apesar de salientar que, caso os clientes queiram discutir política, dará a sua opinião.

Para muitas destas livrarias, o combate à extrema-direita é uma forma de sobrevivência, em particular numa altura em que o multimilionário Vincent Bolloré - que apoia a coligação das direitas que junta os Republicanos e a União Nacional nestas eleições - está a investir massivamente no setor editorial, tendo adquirido recentemente a editora Hachette.

Julie diz que, caso a União Nacional ganhe nestas eleições, vai haver uma aceleração da tendência que já se está a verificar atualmente, e que consiste numa "tal concentração do mercado editorial", que vai deixar de ser "neutro" e terá um grande impacto nos livros que são propostos ao público.

"Isso é muito mais preocupante do que saber se nos vão obrigar a fechar ou não. Posso estar enganada, mas não acredito que uma milícia de extrema-direita chegue aqui e nos obrigue a fechar a livraria", refere.

Isolada na sua livraria na tentativa de tentar "fazer um pouco" para combater o crescimento da extrema-direita, Léa diz que, caso a União Nacional vença estas legislativas, as livrarias terão de passar a ser um "espaço de resistência".

"Vamos ter de continuar a propor pluralidade onde deixará de haver, um espaço de segurança para as pessoas que se manifestam e um espaço de liberdade cultural e de debate", defende

Diário de Notícias
www.dn.pt