As vias de saída de Beirute encheram-se ontem de carros e motas dos residentes da capital libanesa - sobretudo do bairro de Dahiyeh, no sul da cidade, visto como um reduto do Hezbollah, o grupo xiita libanês apoiado e financiado pelo Irão - que tentavam fugir perante as ameaças de novos ataques de Israel. Horas antes, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirmara que os “alvos terroristas” naquele subúrbio seriam atacados em resposta aos ataques com rockets e drones contra civis no norte de Israel e outras violações do cessar-fogo (em vigor desde 17 de abril, mas que não conseguiu pôr fim aos combates). Ao fim da tarde, o presidente dos EUA, Donald Trump, veio serenar os ânimos com uma mensagem na Truth Social, garantindo que o Hezbollah aceitou não atacar Israel e que, após um telefonema para Netanyahu, este se comprometera a que as Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) não entrem em Beirute. .Trump garante que não haverá mais ataques entre Israel e o Hezbollah e que o cessar-fogo será respeitado.Segundo o site israelita Ynet, perante a pressão dos EUA, Neranyahu terá aceitado adiar os ataques. As ameaças e depois o recuo de Netanyahu surgiram um dia depois de Israel ter anunciado a ocupação do castelo Beaufort, uma fortaleza do tempo dos Cruzados, que foi crucial em 1982, tendo sido palco de ferozes batalhas entre Israel, os combatentes palestinianos e os seus aliados libaneses. No final da guerra de 1982, Israel ocupou o castelo, só dali saindo em 2000. Mas no domingo voltou a ocupar a posição, para além do rio Litani e que constitui a mais profunda incursão das IDF em território libanês em 26 anos.Ontem a manhã começou com filas de residentes a deixar o subúrbio de Dahiyeh, na mais recente onda de deslocados num conflito que já desalojou mais de um milhão de pessoas.“Não haverá nenhuma situação em que o Hezbollah ataque as nossas cidades e os nossos cidadãos, e o seu quartel-general terrorista em Beirute, em Dahiyeh, permaneça fora dos limites”, afirmou Netanyahu numa declaração em vídeo.Zeina Khodr, jornalista da Al-Jazeera em Beirute, dava conta ao final da manhã que muitos residentes tinham começado a arrumar os seus pertences logo depois das ameaças de Israel. Mas que, neste momento, “já não há muitos sítios para onde ir, uma vez que os abrigos geridos pelo governo já estão lotados, e muitas pessoas vão ficar nos seus carros, à espera para ver o que vai acontecer.”Amontoadas em carros repletos de malas, cobertores e todos os pertences que conseguiam levar, muitas famílias saíram em massa dos subúrbios, juntando-se aos milhares que fugiam em direção às montanhas, à medida que aumentavam os receios de mais violência.Depois de ter bombardeado os subúrbios sul de Beirute nas primeiras semanas da guerra, Israel realizou apenas dois ataques na zona desde que o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou um cessar-fogo no Líbano, em abril, apesar de as hostilidades terem continuado no sul, junto à fronteira com Israel.Este mais recente conflito entre os dois países teve início a 2 de março, quando o Hezbollah disparou rockets contra o norte de Israel em solidariedade com o Irão, que estava a ser alvo de ataques por parte dos EUA e de Israel desde 28 de fevereiro.As conversações entre altos responsáveis de Israel e do Líbano tiveram início em abril, em Washington, sendo as primeiras em mais de três décadas entre os dois países, que não têm relações diplomáticas formais. Estava previsto que essas conversações prosseguissem esta semana. O Hezbollah não participou e afirmou que não aceitaria quaisquer resultados.No domingo o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, falou ao telefone com Netanyahu e com o presidente libanês, Joseph Aoun , sobre um plano de “desescalada gradual”. Este tinha como primeiro passo que o Hezbollah cessaria todos os ataques contra Israel e, em troca, Israel abster-se-ia de uma escalada em Beirute. Mas este teria sido travado pelo presidente do Parlamento libanês, o xiita Nabih Berri, próximo do Hezbollah. O Hezbollah ainda mantém forte apoio nos seus redutos, incluindo no sul de Beirute. Mas mesmo no resto do pais, o descontentamento com o avanço das tropas israelitas tem vindo a aumentar..Beaufort, o castelo dos Cruzados que Israel ocupou para ter controlo sobre sul do Líbano