Leão XIV criticou esta segunda-feira, 8 de junho, a “constante desqualificação do adversário”, defendendo “uma delimitação justa do poder público”, naquele que foi o primeiro discurso de um papa perante o Congresso dos Deputados de Espanha. A intervenção do líder da Igreja Católica durou cerca de meia hora e recebeu no final sete minutos de aplausos, tendo sido, segundo o El País, uma das mais longas ovação jamais vistas neste hemiciclo, com direito a gritos de “Viva o Papa!”. “Dentro das próprias sociedades é urgente construir uma cultura de reciprocidade. A pluralidade política não deveria degenerar em desqualificação permanente do adversário. Numa convivência madura, até o conflito pode transformar-se em caminho para a paz”, afirmou o Sumo Pontífice. Dirigindo-se diretamente aos deputados espanhóis, Leão XIV lançou o desafio para que “desarmem a sua linguagem”, defendendo que a “firmeza não exige desprezo, a discrepância não implica humilhação”. E sublinhou ainda que “as palavras podem abrir ou fechar caminhos, pode iluminar ou deformar a realidade”.O papa apelou ainda a “uma justa delimitação do poder público”, referindo que “ser livre não significa unicamente estar livre de coações ou dispor de muitas possibilidades de eleição, mas também poder reconhecer o bem e aderir a ele responsavelmente”. “Por isso, toda a sociedade efetivamente livre requer também uma justa delimitação do poder público, de modo a que a liberdade das pessoas, das comunidades e das associações não seja indevidamente restringida”, prosseguiu Leão XIV, alegando que “a dignidade humana não pode estar subordinada a consensos sociais mutáveis ou ao vaivém das maiorias de cada momento”. O sucessor de Francisco condenou ainda com “uma palavra serena e firme” o aborto e a eutanásia, bem como a exclusão das pessoas migrantes, tendo este último tema merecido grande atenção por parte do papa no seu discurso, referindo que “o drama trágico da migração desafia a consciência das nações de hoje e o fundamento ético da ordem internacional”. “A situação dos migrantes e refugiados exige uma resposta que olhe para as pessoas, que aborde as causas profundas que as obrigam a partir e que vá para além da mera gestão dos fluxos”, afirmou, apelando a “caminhos seguros e legais, acolhimento respeitoso e oportunidades reais de integração; e, ao mesmo tempo, à promoção do direito de permanecer na própria terra”. Depois do Congresso, Leão XIV encontrou-se na Conferência Episcopal com os bispos espanhóis, mostrando uma mudança de abordagem ao silêncio do seu antecessor perante o escândalo de abusos sexuais que tem abalado a igreja de Espanha, que classificou de “praga”, embora não tenha utilizado as palavras “abuso sexual” ou “vítimas”. Uma investigação do El País, que contabiliza 1622 arguidos e mais de 3000 vítimas, revelou que pelo menos 64 bispos e 26 superiores religiosos foram acusados de ocultar ou encobrir casos de abusos sexuais. “Perante esta praga, a comunidade eclesiástica está chamada a responder com a escuta, a verdade, a justiça, a reparação e um compromisso cada vez mais decidido na prevenção e na cultura de cuidado”, declarou, sublinhado que “cada pessoa ferida deve poder encontrar escuta sincera, aceitação, proteção e verdadeira cura”. .Papa visita Espanha e garante que continuará combate aos abusos sexuais na Igreja, "uma chaga ainda aberta".P&R. Discurso no Congresso, Sagrada Família e migrantes: o que espera o papa em Espanha?