Leão encontrou-se com Macron no Eliseu numa visita "apostólica" não "de Estado".
Leão encontrou-se com Macron no Eliseu numa visita "apostólica" não "de Estado".TERESA SUAREZ / POOL

Leão XIV chegou à França laica para uma visita enquanto "discípulo de Cristo"

Avião aterrou em Orly às 10h00 na hora local e o papa foi recebido pelo presidente francês. Papa defendeu fim da corrida às armas e deixou recados à adoção da eutanásia em França.
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O papa Leão XIV chegou esta sexta-feira, 25 de setembro, a França para uma visita de quatro dias ao país, a primeira de um pontífice em 18 anos e na qual deverá visitar o santuário de Lourdes e encontrar-se com Emmanuel Macron, presidente francês.

Falando lado a lado no Palácio do Eliseu, o papa Leão XIV criticou a "oferta de uma morte programada", juntando-a a outros desvios da ciência que para ele são criticáveis, como a compra de órgãos ou as modificações genéticas.

"Não esqueçamos que o respeito mútuo e a proteção da vida de qualquer pessoa humana são uma responsabilidade de cada um e de todos", acrescentou, num comentário que surge dois meses após a França ter adotado uma lei que regula a eutanásia. E sobre a oposição dos cristãos a esta lei, Leão disse ser apenas "a expressão da justa laicidade".

No seu discurso, Macron disse ser "uma honra" acolher Leão XIV e destacou a história de mais de dois mil anos de França com a Igreja Católica. Logo a seguir, o presidente defendeu a política de laicidade do Estado francês, sublinhando que não significa "a negação da religião" e lamentou os ataques crescentes por conta de crenças religiosas.

Os líderes concordaram em temas como a paz, que entendem que deve ser promovida e em temas como a inteligência artificial. Neste, Leão XIV apelou a que a humanidade não se perca "entre o paraíso das máquinas que invadem e mudam as nossas vidas diárias".

Já o presidente francês apelou à criação de uma organização internacional para a inteligência artificial, de modo a garantir que esta não é utilizada apenas para o bem de alguns. "Perante o poder da tecnologia digital, o ser humano deve manter o lugar que lhe cabe. A inteligência artificial deve ser um servo e não um senhor", acrescentou.

Leão terminou o seu discurso apelando ao fim de uma "corrida às armas", chamando a ideia de que ter mais armas nucleares é "uma garantia à segurança" é "errónea". "A justiça, a sabedoria e o sentido de humanidade exigem que se ponha fim à corrida ao armamento", sublinhou o pontifice, que apelou a que nunca "se resigne à hipótese da guerra".

Quando o avião do papa aterrou, tocaram todos os sinos de igrejas em França

O avião papal aterrou por volta das 10h00 hora local (9h00 em Lisboa) no aeroporto de Orly, nos arredores de Paris. Apesar de ter sido recebido por Macron e de se ter encontrado com ele no Palácio do Eliseu, a visita, segundo o jornal católico francês La Croix, é meramente “apostólica” e não “de estado”, pelo que não tem honras tais como um jantar diplomático.

De acordo com o órgão noticioso FranceInfo, os sinos de todas as igrejas francesas tocaram ao mesmo tempo que o avião aterrava, incluindo os da reconstruída Catedral de Notre-Dame.

Apesar de ser a primeira visita papal desde o incêndio e subsequente reconstrução de parte da icónica catedral, o jornal La Croix informou que o Vaticano terá rejeitado uma visita conjunta a Notre Dame com Macron devido ao apoio do presidente à lei da eutanásia, a que a igreja se opõe. 

Ainda assim, a visita deverá incluir uma missa vespertina em Notre-Dame, passando ainda por outros locais importantes para a igreja em França, tais como o santuário católico de Lourdes ou a cidade de Metz. Leão deverá ainda dar uma missa perante um número previsto de 600 mil fiéis na praça da Concórdia, em Paris, de acordo com a France Info.

No avião, o papa disse aos jornalistas que o acompanhavam na comitiva que iria a França “tal como a qualquer outro lugar do mundo, antes de mais nada como discípulo de Jesus Cristo, com a vontade de anunciar a paz de Cristo por todo o mundo”, noticiou o La Croix.

Para Macron, a primeira visita papal da sua Presidência surge na fase final do seu mandato, com as eleições de maio de 2027 a trazerem, obrigatoriamente, um novo presidente francês e o descontentamento com o mandato do atual chefe de Estado, especialmente com as suas políticas económicas.

"Para um presidente da República como Macron, que se encontra no final do seu mandato, pode ser importante estar ao lado do papa e aproveitar parte da sua popularidade. Não é nada de novo", contou à Associated Press Charles Mercier, diretor de estudos de História e Sociologia do catolicismo na Universidade EPHE de Paris

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