No que toca a travar a entrada de migrantes em França, Marine Le Pen e Jordan Bardella falam a uma só voz. Mas quando a questão é a economia, as diferenças entre os dois líderes do Reagrupamento Nacional (RN) são ideológicas e começam a deixar marca no partido com ambição de poder a menos de um ano das presidenciais.Um deles será candidato ao Eliseu em 2027, estando o partido dependente da decisão judicial sobre Le Pen. Enquanto isso, Bardella espera (mas vai dando palpites).A brecha entre ambos tinha começado a surgir com a diferença de opinião em relação ao imposto sobre lucros extraordinários das gigantes petrolíferas, como a Total. Le Pen apoia esta medida, que vê como sendo de "justiça social" diante de lucros que surgem devido a circunstâncias externas tendo como pano de fundo a guerra no Médio Oriente, mas Bardella, com uma posição mais favorável aos negócios, opõe-se, questionando a "prioridade de inventar novos impostos e taxas".Depois veio a questão da reforma das pensões, um tema sensível em França. Numa entrevista a um jornal alemão (o Frankfurter Allgemeine), Bardella disse que o partido estava "a analisar a questão" sobre a possibilidade de aumentar a idade de reforma, alegando mais tarde que o que tinha que ser analisado eram os anos de contribuição.Le Pen tem defendido sempre que a idade de reforma deve continuar nos 62 anos (60 no caso de carreiras contributivas mais longas), diante dos que querem que suba para os 64,4 anos já em 2030 e chegue aos 67,5 anos em 2070. Uma proposta que a coloca mais próximo da classe trabalhadora, cujos votos necessita para poder chegar ao Eliseu.A atual líder parlamentar "herdou" o partido do pai (Jean-Marie Le Pen) em 2011 e liderou-o até 2021, fazendo-lhe uma lavagem de cara para afastar posturas mais racistas ou antissemitas (entre as quais a do próprio pai) e tornando-o mais "convencional" e "elegível". Marine Le Pen, de 57 anos, encabeçou três candidaturas presidenciais (em 2012, 2017 e 2022), ficando nas duas últimas em segundo lugar.O Reagrupamento Nacional (antiga Frente Nacional, extrema-direita) é favorito nas sondagens para as presidenciais de abril de 2027, mas a quarta candidatura de Marine Le Pen depende de uma decisão judicial, esperada a 7 de julho. Em causa o processo dos falsos assessores no Parlamento Europeu, em que foi condenada em primeira instância a quatro anos de prisão (dois deles efetiva) pelo desvio de mais de três milhões de euros. A sentença previa ainda proibição de ocupar cargos públicos durante cinco anos. Le Pen pediu recurso da decisão..Marine Le Pen com “esperança” num desfecho positivo .Mas o eurodeputado Jordan Bardella, atualmente com 30 anos, parece estar impaciente com a espera. Presidente do RN desde novembro de 2021, assumindo o cargo depois de Le Pen ter saído para se dedicar à candidatura às presidenciais de 2022, é a alternativa do partido caso ela não possa ser candidata. E tem procurado cultivar cada vez mais a sua imagem de candidato – mesmo que o seu recente romance com Maria Carolina de Bourbon-Duas Sicílias não seja do agrado de todos, pondo também em causa a ideia de partido popular.O Reagrupamento Nacional está entretanto a querer evitar a imagem de desunião entre os dois líderes. "A mensagem que estamos a passar é: ‘Quando estão na oposição, são o Pai Natal, mas assim que se aproximam do poder, tornam-se o papão’", disse um deputado do RN, sob anonimato, citado pela AFP.Na sexta-feira (12 de junho), terá havido uma reunião para tentar afinar estratégias. Uma reunião de progresso "muito básica" para discutir a "estratégia e organização política", dando seguimento a um encontro inicial em meados de abril, segundo disse um dos participantes à agência de notícia francesa.A nível das sondagens, o RN está destacado em primeiro – independentemente se a candidata acabar por ser Le Pen ou se esta tiver que passar o testemunho a Bardella. Numa sondagem Ipsos de final de maio, Bardella tinha 34% das intenções de voto, contra 13,5% de Jean-Luc Mélenchon, da França Insubmissa (esquerda radical), e de Édouard Philippe, do centrista Horizontes. Na mesma sondagem, no caso de Le Pen ser a candidata, teria 32%, com Philippe a surgir com 14,5% e Mélenchon com 13,5%.