Volodymyr Zelensky sentou-se ao lado do francês Emmanuel Macron e do canadiano Mark Carney à mesa da cimeira do Grupo dos 7, o conjunto de países mais ricos no qual em tempos participava Vladimir Putin ou o seu fiel representante Dmitri Medvedev. O então G8 morreu em resultado da anexação da Crimeia, em 2014, apesar das repetidas declarações de Donald Trump de que a Rússia deveria ser readmitida. Desta vez, porém, o presidente dos Estados Unidos não deixou palavras simpáticas para o líder russo e admitiu restituir em breve as sanções contra o petróleo russo, juntando-se aos restantes líderes na pressão para que a Rússia acabe com a guerra. “Os líderes concordam em aumentar a pressão sobre a Rússia, nomeadamente através de sanções ao petróleo e ao gás”, disse uma fonte diplomática à Agência France-Presse no final da sessão dedicada à Ucrânia. O G7 vai também “apoiar a dinâmica [favorável de Kiev no terreno] fornecendo à Ucrânia meios de defesa antiaérea, meios para se proteger melhor, meios para consolidar os ganhos”, acrescentou a fonte da presidência rotativa, que recebeu os restantes dirigentes e convidados em Évian-les-Bains. Quanto ao pré-acordo com Teerão, Trump preferiu destacar que o Irão fica privado de ter uma arma nuclear e voltou a carregar contra o primeiro-ministro israelita.“Vamos poder fazê-lo porque agora o petróleo jorra à vontade. Tínhamos suspenso algumas sanções porque obviamente não queríamos penalizar os Estados Unidos”, disse o presidente dos EUA sobre as sanções relacionados com o petróleo russo, aliviadas para tentar contrariar a subida dos preços do crude devido à guerra com o Irão e o bloqueio do estreito de Ormuz . “Em breve estaremos em condições para fazê-lo”, concluiu. Cerco aperta à RússiaNo mesmo dia, o Canadá e o Reino Unido anunciaram novas sanções, um dia depois de o Conselho da UE ter adotado uma nova ronda de sanções, visando as receitas do setor energético, o complexo militar-industrial e os propagandistas russos. Mas há mais: depois da sua avaliação anual, a UE prolongou as medidas restritivas impostas em resposta à anexação da Crimeia e as sanções vão continuar em vigor pelo menos até junho de 2027. Bruxelas também tem estado a preparar o 21.º pacote de sanções, que deverá abranger mais de 80 pessoas e empresas russas. Além do setor da energia, serão alvo serviços financeiros, de criptomoedas, do comércio e das pescas. Entre as futuras medidas a entrar em vigor está a proibição de entrada na UE de ex-militares russos que tenham combatido contra a Ucrânia. .Além da reunião à mesa com os representantes do G7, Zelensky reuniu-se a sós com Trump durante 20 minutos - e tal deve repetir-se nesta quarta-feira. Para o presidente norte-americano o encontro foi “muito bom” e disse que “a Rússia devia chegar a um acordo”, tendo destacado, a propósito, que o país invasor “perdeu imensa gente, tal como a Ucrânia”. O norte-americano crê que a questão tornou-se mais difícil porque os dois líderes nutrem “muita antipatia” recíproca. Mas agora a atenção dos EUA vai voltar à guerra na Ucrânia, porque estavam “focados no Irão”, reconheceu. “Sim, vou fazer tudo o que puder”, disse, sobre a intenção de pôr fim ao conflito iniciado em 2014.Estas declarações são recebidas com prudência na Europa. “Ter Trump distraído não era necessariamente algo mau”, disse um diplomata da UE ao Politico. Teme-se que, apesar de ter estado em harmonia com os restantes líderes do G7, possa vir a deixar os europeus de lado e voltar a apoiar uma proposta russa.. Zelensky, que manteve outras reuniões em paralelo, disse que os líderes do G7 estão unidos na visão de que a Rússia não está a vencer a guerra contra a Ucrânia e está a sofrer pesadas perdas. Na reunião com Trump, o ucraniano afirmou ter discutido a possibilidade de reforçar a defesa aérea da Ucrânia. Segundo a Reuters, Zelensky também mostrou a Trump fotos das consequências do recente ataque russo à catedral de Kiev.Questionado se a Ucrânia tinha cartas na mão (em referência às declarações, há meses, de que Zelensky não tinha cartas para negociar), o líder ucraniano disse que a situação no campo de batalha está em vias de mudar. “A Rússia perdeu a iniciativa em numerosas frentes”, respondeu. Pelo seu lado, destacou que o país vai produzir este ano 10 milhões de drones e que o apoio da UE em conjunto com as sanções estão a fazer efeito.Em paralelo, e para reforçar a pressão exercida à Rússia, drones ucranianos atingiram a refinaria da Gazprom junto de Moscovo. Segundo a Reuters, a principal unidade de processamento ficou danificada e a produção foi suspensa. A refinaria é a principal fornecedora de combustível para a região da capital russa.Novas críticas a NetanyahuO outro tema que dominou a cimeira foi o entendimento entre os EUA e o Irão, e que irá ser assinado na sexta-feira. Segundo o Wall Street Journal, o texto prevê que o Irão possa vender petróleo de imediato. Além disso, o memorando de entendimento contém isenções de sanções sobre a atividade de bancos, transportes e seguros, o que permitirá a Teerão facilitar estas vendas. O vice-presidente J.D. Vance explicou que o acordo ainda não foi tornado público porque os mediadores e o lado iraniano assim pediram.As palavras de maior impacto de Trump sobre o tema foram dirigidos a Netanyahu. “Tive uma boa relação com o Bibi, mas agora o Bibi tem de ser mais responsável em relação ao Líbano.” Disse também que “se não fosse os EUA não existiria Israel”. Isto no dia em que se soube que Washington negou partilhar o conteúdo do acordo com o governo israelita. Trump também sugeriu que a Síria deveria “cuidar” do Hezbollah porque Israel tem combatido o grupo apoiado pelo Irão há “tempo demais” e a Síria “faria um trabalho melhor”.Do lado iraniano, o chefe da diplomacia insistiu na necessidade de Israel retirar do sul do Líbano como condição para o plano resultar. Para Abbas Aragchi, a guerra no Líbano está “ligada e interdependente” com a guerra dos EUA. “Desde o primeiro dia, a República Islâmica do Irão considerou que o fim da guerra no Líbano era uma das condições para terminar a guerra", afirmou. E que o acordo, apesar de assinado entre EUA e Irão, é visto como sendo entre “Estados Unidos e Israel de um lado e, do outro, Irão e Hezbollah”. Pelo que, "sem a retirada das forças israelitas dos territórios que ocuparam durante esta guerra, a cessação da guerra não será completa”, concluiu.Atentado frustrado, diz FBIO diretor do FBI Kash Patel anunciou que “vários indivíduos” foram detidos em conexão com um ataque alegadamente planeado para matar Donald Trump no seu aniversário, coincidindo com o espetáculo de luta de artes marciais mistas, que se realizou na Casa Branca, no domingo. Disse ainda que o FBI e o Departamento de Justiça trabalharam com outros órgãos de segurança numa operação entre vários estados e que os “ataques alegadamente planeados foram interrompidos de imediato”. Segundo o documento do FBI entregue em tribunal, o plano foi discutido por 19 pessoas e envolvia o uso de drones carregados de explosivos e atiradores furtivos. Segundo a Fox News, 23 pessoas foram identificadas e cinco detidas. Questionado se tinha sido informado sobre o alegado plano para atacá-lo, Trump disse desconhecer. “Os ataques que eu vi foi entre os lutadores”, disse aos jornalistas em Évian.À margemRevelado local suíço Bürgenstock é o nome da localidade suíça que vai acolher a cerimónia da assinatura do memorando de entendimento entre os Estados Unidos e o Irão, revelou o Ministério dos Negócios Estrangeiros helvético. O local foi proposto pelos mediadores, Paquistão e Qatar, e teve o aval dos EUA, disse ainda o referido ministério. As questões de segurança deverão ter pesado de forma decisiva por Bürgenstock em vez de Genebra ou Zurique, uma vez que a estância de montanha fica situada num penhasco a mais de mil metros de altitude, com acessos limitados. Alta segurançaA cimeira do G7 mobilizou, só em Évian, 16 mil agentes das forças policiais para uma localidade com menos de 10 mil habitantes. Ainda assim, alguns danos foram provocados, mas no ciberespaço. Um grupo de hackers pró-russos reivindicou um ciberataque a vários sites institucionais no departamento francês da Alta Saboia.Três declaraçõesNa terça-feira, o G7 emitiu três comunicados conjuntos, todas sobre temas de fácil consenso: uma declaração sobre parcerias internacionais de benefício mútuo; um apelo para uma resposta coordenada ao surto de ébola; e um apelo para o reforço da luta contra o cancro.Jantar em VersalhesTerminada a cimeira, Emmanuel Macron e Donald Trump seguem esta quarta-feira da estância termal de Évian-les-Bains, na fronteira com a Suíça, para o castelo de Versalhes, junto de Paris, para um jantar comemorativo dos 250 anos da independência dos EUA. Esta iniciativa foi vista como uma forma de manter o presidente norte-americano na cimeira. No ano passado, Trump saiu abruptamente a meio do G7 que decorreu no Canadá. Kamala critica TrumpA candidata derrotada por Donald Trump nas últimas eleições presidenciais considerou que o memorando de entendimento entre EUA e Irão “é na realidade um projeto de acordo” e que, a concretizar-se, irá levar ao ponto de 2015, isto é, quando o Irão assinou o acordo nuclear com algumas potências mundiais. Kamala Harris, que falava ao lado de Arnold Schwarzenegger numa conferência organizada por este em Viena, disse que este conflito foi “uma guerra de escolha” e que, se estivesse na Casa Branca, não a teria desencadeado. A ex-vice-presidente de Joe Biden qualificou ainda a administração Trump “a mais desapiedada, corrupta e incompetente” de sempre, e expressou esperança de que o Partido Democrata vença as eleições intercalares.Putin marca legislativasO presidente russo marcou as próximas eleições legislativas para 20 de setembro. Na segunda-feira, o líder ucraniano, Volodymyr Zelensky publicou uma mensagem com uma sondagem que situava as intenções de voto dos russos no partido de Putin (Rússia Unida) nos 22%. Nas últimas legislativas, em 2021, obteve quase 50%. O partido que mais cresceu é o Gente Nova, criado em 2020, e que tem 17% das intenções de voto. No entanto, não é visto como um verdadeiro partido da oposição como o Yabloko (sem representação parlamentar e cujos dirigentes têm sido perseguidos). Fragata russa disparaA fragata russa Almirante Grigorovich disparou tiros de aviso para um iate inglês no canal da Mancha. É o segundo incidente a envolver a Rússia naquelas águas depois de o petroleiro Smyrtos, da frota fantasma russa, ter sido apresado pela Marinha britânica, no domingo..Dúvidas persistem sobre pormenores do acordo entre os EUA e Irão