Espião com reputação quase lendária e estatuto de herói nacional, Kyrylo Budanov é o novo chefe de gabinete do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, substituindo o destituído Andriy Yermak, que deixou o cargo após um escândalo de corrupção que abalou o núcleo do poder em Kiev. A nomeação foi confirmada esta sexta-feira, 2 de janeiro, pelo próprio Budanov, pouco depois de o convite ter sido anunciado por Zelensky, num momento em que a Ucrânia se encontra sob forte pressão interna e externa no âmbito da guerra com a Rússia."Neste momento, a Ucrânia precisa de um maior foco nas questões de segurança, no desenvolvimento das Forças de Defesa e de Segurança da Ucrânia, bem como na via diplomática das negociações, e o Gabinete do Presidente servirá prioritariamente o cumprimento destas tarefas do Estado”, afirmou Zelensky na rede social X.. “Aceitei a proposta do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, para assumir o cargo de chefe do seu Gabinete. Continuo a servir a Ucrânia. Encaro a função de chefe do Gabinete do Presidente como mais um marco de responsabilidade para com o país. Para mim, é uma honra e uma responsabilidade, num momento histórico para a Ucrânia, concentrar-me em questões de importância crítica para a segurança estratégica do nosso Estado”, confirmou Budanov, também numa publicação nas redes sociais.Com 39 anos e até agora chefe dos serviços de informação militar (GUR), Budanov é uma das figuras mais enigmáticas e influentes do aparelho de segurança ucraniano. Conhecido como o “homem sem sorriso”, construiu uma forte reputação através de algumas operações clandestinas bem sucedidas contra a Rússia.Pouco antes da invasão russa em grande escala, em fevereiro de 2022, Budanov alertou para um ataque iminente, numa altura em que grande parte da comunidade internacional ainda duvidava das intenções de Moscovo. Entre apoiantes, é descrito como um mestre da guerra assimétrica, capaz de combinar operações militares, sabotagem e pressão psicológica, descrevem as agências internacionais.Natural de Kiev, formou-se no instituto de paraquedistas de Odessa. Em 2014, esteve envolvido nas primeiras fases do conflito no leste da Ucrânia, após a anexação da Crimeia pela Rússia. Uma das poucas operações conhecidas do seu percurso é a participação num raid na Crimeia, em 2016, que resultou na morte de agentes russos.O seu currículo inclui missões especiais, coordenação de trocas de prisioneiros e liderança de operações de alto risco. Foi ferido três vezes em serviço e sobreviveu a várias tentativas de assassinato. Carrega, aliás, no braço direito sequelas visíveis de uma ferida de bala. Em 2019, viu o seu carro explodir em Kiev, num ataque atribuído aos serviços secretos russos. Já em novembro de 2023, a sua mulher, Marianna Budanova, foi alvo de envenenamento, do qual ainda está a recuperar. Nesse mesmo ano, Moscovo chegou a acreditar ter matado Budanov num ataque, o que se provou manifestamente exagerado.Sob a sua chefia, a inteligência militar ucraniana reivindicou ataques dentro do território russo, incluindo um ataque com drones a uma refinaria de petróleo em São Petersburgo, em janeiro de 2024, longe da linha da frente, ou o afundamento de um navio de guerra russo na Crimeia, operações que aumentaram a sua popularidade junto da opinião pública ucraniana. Em setembro de 2023, numa conferência internacional em Kiev, Budanov recebeu uma ovação de pé antes mesmo de discursar; em 2024, Zelensky distinguiu-o com o título de Herói da Ucrânia.Agora, Budanov assume um dos cargos mais poderosos do Estado ucraniano. A sua nomeação surge num contexto sensível, depois de Yermak, antigo braço direito de Zelensky e negociador-chefe em contactos diplomáticos com os Estados Unidos, ter abandonado o cargo em novembro, após investigações a um alegado esquema de corrupção no setor da energia, que terá envolvido cerca de100 milhões de dólares. Apesar de Yermak não ter sido formalmente acusado, o caso gerou forte indignação pública e a pressão interna e externa acabou por levar à sua saída.Ao anunciar a escolha de Budanov, Zelensky sublinhou a necessidade de reforçar o foco na segurança, na defesa e na via diplomática. “A Ucrânia precisa de resultados”, escreveu o presidente, justificando a aposta num homem com experiência direta na guerra e nos serviços de segurança.Na sua primeira reação pública, Budanov afirmou que aceita o cargo como “uma honra e uma responsabilidade histórica”, prometendo continuar a servir o país “até à vitória e a uma paz justa”.Com agências.Zelensky anuncia demissão de chefe de gabinete após buscas em investigação de corrupção